Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Resenha da obra Uma introdução à arquitetura

De acordo com a apresentação de “Uma introdução à arquitetura”, de Silvio Colin, a obra surge como um meio de oferecer aos iniciantes da área, a possibilidade de conhecer assuntos básicos ligados à profissão de arquitetura. Segundo o capítulo, a ideia principal do livro parte dos anseios do próprio autor que, enquanto professor universitário na atualidade e profissional renomado, admite as dificuldades encontradas quando iniciou seus estudos na academia.


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O objetivo do livro consiste em oferecer de forma simples e, tanto quanto possível, coloquial, a temática vasta, complexa e contraditória que é a arquitetura, de forma a despertar a curiosidade e o interesse pela profissão em pessoas não familiarizadas com textos técnicos e especializados. Procura-se abordar o objeto arquitetônico “sob todos os ângulos possíveis e entender suas manifestações e sua estrutura interna, pois isto nos aproximará de sua verdade”. Porém, alerta: “... é necessário advertir que tal multiplicidade de visões não deve induzir a um exercício puramente racional e dispersivo; muito pelo contrário, que se mantenha certo distanciamento para que nenhuma viagem particular a qualquer desses universos prejudique a apreensão viva do edifício...”.

O autor inicia sua obra na introdução abordando os principais aspectos que influenciaram sua escolha pela arquitetura. Afirma que, apesar do prestígio internacional do Brasil na área devido à Brasília, no contexto do início da Ditadura Militar, pouca informação existia: sua escolha foi emocional e pautada em seu interesse pelo desenho. Assim, afirma que, em seus próximos capítulos, buscará apresentar informações básicas e fundamentais sobre o tema que lhe faltaram na época e tecer comentários sobre, de forma introdutória. Para os leitores com interesse em aprofundar-se, o autor oferecerá bibliografia complementar no decorrer da obra.

Em “O que é arquitetura?”, afirma-se que Arquitetura é, em primeiro lugar, uma profissão de nível superior. O seu currículo de graduação compõe-se de disciplinas referentes a três distintas áreas do conhecimento: a área técnica inclui matérias como Mecânica Racional, Resistência de Materiais, Cálculo Estrutural e Instalações Domiciliares; na área chamada “humanidades” temos matérias concernentes à História e Teoria da Arte e da Arquitetura, Psicologia e Sociologia aplicada à arquitetura e ao urbanismo; e disciplinas relacionadas com a representação e composição de projetos: Geometria Descritiva, Representação da Forma, Desenho Arquitetônico e Composição de Projetos de Arquitetura.

Admite-se também que a Arquitetura é um produto cultural, ou seja, fruto das convenções sociais, ideológicas e culturais do contexto em que insere-se, estando sujeita a transformações de estilo e de estrutura a partir das mudanças culturais e da evolução tecnológica. Enquanto manifestação humana, em sua excelência estética, pode ser considerada uma arte e, considerando-se os edifícios históricos, uma profissão capaz de produzir obras-primas signos que referem exterioridade.

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Em “Arquitetura como arte”, o autor afirma que, tradicionalmente, considera-se a arquitetura como uma das belas-artes, juntamente com a escultura, a pintura, a música e o teatro. Segundo ele, para que os edifícios sejam considerados arte, além do atendimento aos requisitos técnicos, como a solidez estrutural e a qualidade dos materiais, e das demandas utilitárias, como a adequação dos espaços, aos usos, deve o edifício tocar a nossa sensibilidade, nos incitar à contemplação, nos convidar à observação de suas formas, à textura das paredes, ao arranjo das janelas, ao jogo de luz e sombras, às cores, à sua leveza ou solidez. Porém, admite-se que, diferentemente das outras artes em que a técnica é secundária, na Arquitetura a técnica antecede a preocupação estética: Pensa-se antes na solidez estrutural e na estanqueidade das paredes (para, assim, garantir a segurança das pessoas que utilizarão do espaço), para, depois, pensar-se na expressão.

Em “as divisões da arquitetura segundo Vitrúvio”, o autor argumenta que “Vitrúvio” é um nome de conhecimento obrigatório a todos os estudantes de arquitetura: ele foi o primeiro a escrever sobre o assunto; o livro “Os dez livros da arquitetura”, escrito no início do Império Romano inspirou diversos tratados a partir do Renascimento e, ainda hoje, apresenta a atualidade em algumas de suas postulações teóricas, além da importância histórica e documental. Entre suas divisões, destacam-se duas de maior atualidade: “Significado e Significante”, ao definir que as formas arquitetônicas têm uma vocação simbólica; e “Solidez, Utilidade, Beleza”, a solides se refere aos sistemas estruturais, ao envoltório físico, às tecnologias e à qualidade dos materiais utilizados; a utilidade trata-se da condição dos espaços criados, seu correto direcionamento para atender aos requisitos físicos e psicológicos, e da maneira como estes espaços se relacionam; e a beleza refere-se às preocupações estéticas que deve-se ter ao projetar e construir.

Em “O sistema da estrutura e do envoltório do edifício: Firmitas”, o autor afirma que, para atender aos requisitos da solidez e de resistir às intempéries, duas ordens de fatores precisam ser consideradas: a durabilidade dos materiais e a excelência técnica. Considerando os materiais, elenca que a natureza propicia ao homem a madeira, a argila, a pedra e a pozolana (cimento natural de lavas vulcânicas). Elenca, ainda, que o engenho humano sempre se fez presente para aplicar-lhes a melhor técnica e que, a partir do século XVIII, a arquitetura moderna passa a contar com materiais modernos como o ferro, o concreto armado, o vidro e o plástico (úteis para a mudança da aparência das novas cidades, já que expressam modernidade e leveza); além de contar com novos sistemas e novas tecnologias que contribuíram com as mudanças relacionadas à estrutura, à forma e à estética dos edifícios presentes nas cidades contemporâneas.

Em “As funções da arquitetura: utilitas”, afirma que uma das características da arquitetura moderna é seu funcionalismo: a maior parte das atividades humanas necessita de um edifício que tenha sido projetado para elas, sendo as funções Sintática, relações dos objetos entre si e o papel do edifício na paisagem; Semântica, relações dos objetos e seus significados (uma igreja simboliza religiosidade, por exemplo); e Pragmática, que diz respeito ao uso prático de determinado edifício.

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Em “A preocupação com a forma: Venustas”, Colin afirma que o conceito de beleza está vinculado à relatividade das determinações do gosto pessoal e das tradições culturais. Porém, afirma que nem sempre foi assim: Os artistas clássicos no contexto da Grécia dos filósofos buscavam uma beleza ideal que era aceita socialmente, assim como a Idade Média também teve sua singularidade arquitetônica e modelo de beleza ideal influenciados pela dominação do Clero e pelo pensamento teocentrista. Considerando a contemporaneidade e a fugacidade da vida moderna, nota-se que, reflexo deste contexto, na Arquitetura, as poéticas objetivistas predominam sobre o pensamento subjetivista.

Em “O estudo da forma arquitetônica”, o autor impõe duas importantes abordagens em relação à forma: a primeira, discernindo e analisando seus principais elementos constituintes, o volume, o espaço e a sua superfície; a segunda, sistematizando as diversas categorias da forma arquitetônica, explanando sobre essas categorias e suas características nos capítulos seguintes. A “forma volumétrica” considera a aparência externa do edifício em conjunto, em sua totalidade. O volume real define-se completamente pelo envoltório das paredes do edifício; o volume virtual fica sugerido por alguns elementos.

Em “Forma espacial”, o autor define espaço como uma “matéria” à qual o arquiteto deverá dar forma, utilizando-se, para isso, dos elementos materiais que compõem o edifício: paredes, pisos e tetos, sendo suas principais polaridades: interior/exterior, público/privado, coberto/descoberto, aberto/fechado, livre/restrito, amplo/confinado. Ainda, segundo o autor, os espaços não são neutros: podem ser dotados de uma forma dinâmica que alimenta sua expressividade e se manifesta por tensões que lhe podem ser comunicadas por sua forma e por elementos constituintes, como a luz.

Em “Forma Mural”, o autor utiliza-se deste termo para nominar ao conjunto de elementos que animam as superfícies e os muros (que podem ser reais ou virtuais, como as colunas). O autor afirma que essas estruturas desempenham importante papel, já que, além de separar espaços, recebem cargas estruturais. Pode ser composto de pedras, tijolos, cerâmicas, madeira, ou de concreto e são geralmente decorados por modinaturas (conjunto de formas abstratas), baixo-relevos, afrescos, mosaicos e azulejos.

Em “Categorias da forma arquitetônica”, o autor aponta que, se observarmos os diferentes edifícios em uma cidade, perceberemos que estes apresentam diferenças relacionadas com as estruturas elementares de conceitos sob os quais esses edifícios foram concebidos. Dentre as principais categorias, destacam-se: forma tipológica (forma comum de determinado tipo arquitetônico: igrejas, em geral, possuem estruturas parecidas, assim como casas de família parecem-se entre si); forma geométrica (comum na arquitetura moderna, geralmente, composta por prismas, cilindros, paralelepípedos, etc.); forma abstrata (não se parece com formas usadas anteriormente); forma topológica (extrai uma ou mais características do local onde o edifício será implantado); forma analógica (inspirado por um objeto externo ao universo da arquitetura); forma tectônica (determinada por necessidades técnicas); forma orgânica (quando a configuração final do edifício é resultado do posicionamento das unidades espaciais, que são justapostas à maneira de células de um tecido orgânico); e forma sistêmica (é resultante da resolução antecipada dos problemas propostos por um ou mais sistemas da arquitetura).

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Em “os diversos conteúdos da arquitetura”, o autor classifica a arquitetura como uma forma de linguagem, já que ela expressa a cultura, a arte e a organização de um determinado povo. Além disso, pode nos falar do estágio de adiantamento do povo para o qual o edifício foi construído, de seus ideais estéticos e do modo de vida.

Em “Conteúdo formal”, segundo o autor, considerando a tradição greco-romana-cristã, podemos estabelecer que o conteúdo formal na arquitetura, apesar de ser bastante variável, pode ser alinhado segundo quatro grandes tendências: o classicismo; o paleo-cristão-bizantino; o gótico; e o modernismo; as outras tendências poderão ser consideradas preparações ou variante de uma destas.

Em “Conteúdo Histórico”, o autor reafirma a importância da arquitetura em seu valor histórico para apresentar a identidade de uma determinada civilização, as influências do contexto em que inseriram-se, tornando-se marcas de feitos históricos de determinada sociedade. Além da totalidade do edifício, também são considerados conteúdos históricos: formas, figuras, tipos espaciais, maneiras de conjugar espaços, iluminação, etc.

Em “Conteúdo social”, o autor relata que, em geral, a arquitetura representa as classes dominantes de uma determinada sociedade. No entanto, alguns edifícios fogem das injunções sociais: dependendo da intenção do arquiteto, de sua ideologia, e também de outros fatores ligados ao processo de produção. No capítulo, o autor também aponta que é a partir da Revolução Industrial que as preocupações sociais passam a ser responsabilidade também dos arquitetos (passam a preocupar-se em resolver problemas humanos, estéticos e funcionais propostos pela industrialização e, mais tarde, agravados pela Primeira Guerra Mundial), a partir daí, inicia-se o Êxodo Rural e a população mundial passa a tornar-se cada vez mais urbana, sendo as primeiras cidades a sofrer as consequências do aumento populacional não planejado, Londres, Paris, Nova York, Chicago e Manchester. O Brasil vivenciou problema parecido na segunda metade do século XIX na cidade do Rio de Janeiro, porém, devido à falência da economia agrária, e não à industrialização como ocorreu com a Europa e a América do Norte. No que se refere às preocupações sociais, a liderança do movimento moderno coube naturalmente à União Soviética, cuja revolução de 1917 imprimiu um direcionamento socialista ao governo. No Brasil, diversas políticas de habitação foram empreendidas, desde as “Carteiras de Habitação” dos IAPs (Getúlio Vargas), até o BNH, já em período de Ditadura Militar.

Em “Conteúdo Psicológico”, o autor aborda sobre a relação entre arquitetura, emoções e sentimentos. Esta relação é evidente nas formas arquitetônicas a partir da análise de edifícios históricos, sobretudo, no que se refere a orientações emocionais coletivas, como no fausto hedonista dos romanos ou na religiosidade católica, como nos templos bizantinos, na verticalidade ascética das catedrais, ou na luminosidade dos vitrais góticos. O encontro entre psicologia e arquitetura pode acontecer em três níveis diferentes: Instrumentando o arquiteto quanto às necessidades subjetivas dos usuários e quanto à natureza da percepção humana de espaços e formas; na medida em que diversas teorias psicológicas ocupam-se do processo de criação (Behaviorismo, Estruturalismo, Gestalt, Reflexologia e Psicanálise); e na atividade crítica da análise das motivações do arquiteto para tal solução.

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Em “Semiótica, comunicação e arquitetura”, de acordo com o autor, qualquer incursão no campo da linguística começa com a constatação de que a arquitetura é uma linguagem e, como tal, é capaz de transmitir mensagens não verbais. A partir da visão semiótica, entende-se que um elemento arquitetônico deve cumprir uma função, mas também, enquanto signo, representa-la. Um exemplo prático desta perspectiva é perceptível no “telhado”, há algum tempo, telhados foram retirados das residências, por questões estéticas, nada foi colocado no lugar que “representasse” proteção: O público não aceitou a situação devido à necessidade do signo.

Em “Arquitetura e Contexto”, o autor argumenta sobre a capacidade da arquitetura de se harmonizar com o meio em que será inserida. Nesse aspecto, para a elaboração do edifício, torna-se necessário a análise do contexto no qual este irá se inserir, podendo ser natural ou urbano. Considerando o urbano, torna-se importante a análise do contexto cultural que é carregado de realizações humanas, intensamente modificado para atender às condições da vida coletiva. Uma problemática em relação à arquitetura moderna evidencia-se no desenvolvimento da sociedade: não houve a preparação para a convivência dos novos edifícios com os edifícios do passado. Ainda, no capítulo, aborda-se questões de como o contexto cultural pós-moderno (a partir do hibridismo e do contato entre diferentes culturas mediado por meio dos instrumentos tecnológicos) influencia a percepção e a subjetividade e, consequentemente, a arquitetura.

Em “Arquitetura do século XX”, o autor aborda sobre as influências da Revolução Industrial, da revolução burguesa, e do iluminismo na mudança e na massificação da visão ocidental sobre conceitos estéticos, a qual, junto às novas tecnologias que possibilitaram o surgimento de novas técnicas e materiais, contribuíram para a transformação das paisagens urbanas, com o surgimento das vanguardas modernas e do expressionismo. Além disso, destacam-se as influências da crise do capitalismo nos anos 30; da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, além da Guerra Fria que, em ambas as polaridades culturais do mundo, cada qual em seu respectivo contexto, influenciou diretamente à arquitetura, principalmente na construção de edifícios com o intuito da imponência, considerando a visão dos edifícios enquanto signos de poder.

Em “Arquitetura brasileira contemporânea”, o autor aponta que o despertar da arquitetura brasileira ocorreu no final da década de 1920, contexto que influenciou, inclusive, as demais artes brasileiras por meio do movimento antropofágico modernista que contribuiu à literatura, à música e à pintura, destacando-se Tarsila do Amaral, por exemplo. As primeiras escolas a se destacarem na área foram a Escola Carioca e a Escola Paulista. Considerando-se as influências do Golpe Militar em 1964, entende-se que foi gigantesco: embalada pelo crescimento industrial acelerado baseado em empréstimos externos, a arquitetura brasileira cresceu vegetativamente, ganhou eficiência, abrangência e presteza, amadureceu tecnicamente e pôde se beneficiar de produtos e tecnologias mais avançadas. Perdeu, entretanto, a força expressiva e a criatividade dos primeiros tempos, atributos que, segundo o autor, ainda não recuperou. Segundo o autor, hoje, a arquitetura brasileira é diversificada e abrangente de várias tendências, embora aqui não se reproduzam exatamente as condições de uma sociedade pós-industrial, que, em países como os EUA, inspiram movimentos mais críticos como a arquitetura pop e o desconstrutivismo.


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
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