Lucas Neves

Jovem latinista, futuro professor. Fascinado pelas palavras, seus poderes e funções. A cada instante que passa, mais ávido por (des)aprender.

Habemus Incantamenta

Análise e tradução de feitiços da saga Harry Potter sob a lente da mãe das línguas românicas, o Latim.


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Consagrada como uma das maiores sagas literárias do mundo, a série Harry Potter foi escrita pela britânica J.K. Rowling e faz estrondoso sucesso até os dias de hoje. Fonte inesgotável de criatividade, a autora formou-se em língua francesa pela Universidade de Exeter.

Rowling, apaixonada por literatura, decidiu estudar línguas por pressão da família, a qual sonhava em ver a filha trabalhar como secretária. Ainda bem que seus pais não tiveram esse sonho realizado. Credo!

O estudo de uma língua românica aproximou a escritora da fonte dessa linha de idiomas, o Latim. Muitos dos feitiços apresentados ao longo dos sete livros da saga derivam diretamente ou são bastante inspirados na Língua Latina. Veremos, ao longo deste texto, a análise e a tradução de alguns desses encantamentos.

Avante, em ordem alfabética, para evitar qualquer confusão mental da minha parte. Aliás, aqui estão apenas alguns das dezenas de feitiços que a série possui. Só lamento se você esperava uma análise de todos, francamente! Agora sim, avante!

Começamos por Accio, encantamento utilizado para atrair objetos. Esse feitiço tem a forma de um verbo latino conjugado na primeira pessoa do presente; portanto, accio, em Latim, significa chamo, mando vir etc.

O feitiço Ascendio, por sua vez, é utilizado pelo protagonista da série no famigerado Torneio Tribruxo, em Harry Potter e o Cálice de Fogo, e faz como que seu conjurador seja imediatamente lançado para cima, como um foguete decolando, entende? Como a tampa daquela sidra que sua tia, completamente embriagada, estoura no Natal. Enfim, esse feitiço está ligado ao verbo ascendĕre, que significa subir, escalar; a forma do presente da primeira pessoa do singular é ascendo (eu subo, escalo) e se parece bastante com o que é apresentado pela autora, que acrescentou um i na formação. Esse verbo é relacionado etimologicamente com a palavra portuguesa ascensão. É óbvio, eu sei, mas eu escrevo o que eu quiser. Próximo!

O feitiço "de cura" Brackium Emendo é utilizado por Gilderoy Lockhart em Harry Potter e a Câmara Secreta. Viu, mãe, não é câmera, tipo Canon, é câmara! O professor-astro utiliza o encantamento para consertar o braço quebrado do pobre Potter, mas a magia não funciona direito. Em Latim, brachium significa braço; e emendo significa conserto, arrumo. A autora apresenta a primeira palavra com k, alterando a forma original. Talvez foi por isso que o feitiço saiu errado, né? Claro que não! O Gilderoy é o culpado, tremendo pilantra incompetente.

O feitiço Cistem Aperio também tem uma origem latina. Você nem se lembra desse, eu sei. Mas sou legal, recordo a você: Tom Riddle (Voldi) utiliza esse encantamento para abrir o baú em que Hagrid esconde Aragog. Aperio, em Latim, significa abro, desvendo; e cistem parece derivar do substantivo cista, que designa cofre, cesto.

Hermione Granger, em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, utiliza o feitiço Confundus, o qual se torna bastante claro em português. O verbo latino é confundĕre e significa confundir, é óbvio, eu sei. A autora criou uma forma nominal para o vocábulo.

A maldição Cruciatus, umas das três imperdoáveis, significa, em Latim, tormento, tortura. A enunciação do feitiço é Crucio, que significa crucifico ou torturo. Sim, em Latim tinha um verbo específico para crucificar, era algo corriqueiro. Quem nunca?!

O ilustre Expecto Patronum tem uma formação bastante clássica. Enquanto expecto significa espero, estou na expectativa; patronum significa protetor. Logo, expecto patronum é algo como espero um protetor.

Já que estamos lidando com os famosos, vamos ao que parece ser o favorito de Harry: Expelliarmus. O feitiço parece ser uma junção de expello (expulso) com arma, que significa arma, veja só que coincidência. Trata-se de uma magia usada para expelir uma arma, desarmar um oponente.

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Outra imperdoável: a maldição Imperius é enunciada como Imperio, que significa eu comando/gorverno/impero. Esse feitiço é muito usado por comensais da morte. Aliás, todos os seguidores de Voldemort utilizam a magia Morsmordre para conjurar a Marca Negra. Mors, em Latim, significa morte; mordre pode ter relação com o verbo mordere (morder, atormentar); algo como a mordida ou o tormento da morte, numa adaptação livre. Se existe um vocábulo latino mais próximo de mordre, confesso que esqueci.

Por falar em esquecer, Hermione utiliza o Obliviate para apagar a memória de seus pais. Oblivium significa esquecimento em Latim.

Para encerrar, digo, cortar de vez esse assunto, vamos de Sectumsempra, feitiço de ataque inventado por Severo Snape. Formado a partir de sectum (cortado) mais uma formação derivada do advérbio semper (repetidas vezes, sem parar); portanto, algo como cortado repetidas vezes. Harry utiliza esse feitiço contra Draco Malfoy, que é socorrido pelo próprio Snape, o qual utiliza o Vulnera Sanentur para reabilitar o pupilo. Vulnera tem relação com o adjetivo vulneratus (ferido, danificado), ao passo que sanentur é uma forma do verbo sanare (acalmar, sanar, curar).

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Existem muitas outras referências ao Latim e à cultura greco-romana na saga criada por J.K. Rowling. O texto que você termina de ler agora é apenas uma gota no oceano de riquezas que a série representa; e almeja mostrar que, por trás de um sucesso arrebatador, existe muito trabalho, estudo e dedicação de uma mulher que não se tornou secretária, mas uma das mais admiradas escritoras do planeta.

Finite Incantatem!


Lucas Neves

Jovem latinista, futuro professor. Fascinado pelas palavras, seus poderes e funções. A cada instante que passa, mais ávido por (des)aprender..
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