Lucas Neves

Jovem latinista, futuro professor. Fascinado pelas palavras, seus poderes e funções. A cada instante que passa, mais ávido por (des)aprender.

Sobre fabianos, humanos e bichos

Breve análise de frações temáticas que sustentam o sublime livro de Graciliano Ramos.


foto15.jpg

Em 1902, Euclides da Cunha publicara Os Sertões. Grande obra da literatura brasileira e de colossal valor histórico, o livro tem uma frase marcante: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte (...)”. A afirmação, escrita na segunda parte da obra, denominada O Homem, é asseverada pelo romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicado trinta e seis anos após o livro de Euclides.

O romance é relativamente curto e conhecido por ter um caráter desmontável. A obra é dividida em treze capítulos que possuem grande autonomia literária, permitindo que cada parte seja lida na ordem desejada pelo leitor. É evidente, entretanto, que a leitura de todo o livro, por meio da ordem de capítulos elaborada pelo autor, é de grande serventia e pertinência para uma melhor interpretação do texto.

Apenas diante do título da obra já é possível notar que o plano de fundo de todos os acontecimentos é um cenário miserável de absoluta seca. Há, no entanto, temas secundários que permeiam todo o texto. Esses temas, por suas vezes, são oriundos dos problemas ocasionados pela seca.

Pode-se pensar, portanto, que a intempérie é o grande núcleo do romance, mas é a partir de sua existência que outros fragmentos temáticos dão o ar da graça, tornando a obra mais interessante e plena. São esses pequenos temas, afinal, que mais tocam o leitor néscio, o qual nunca passou por uma situação semelhante a dos personagens, um leitor que não faz ideia do que um período de seca pode fazer com uma pessoa, com um terreno, com uma região inteira. Esse ledor, que (como eu) inicia a leitura do texto imaginando que encontrará uma série de descrições a respeito de uma natureza paupérrima senão morta, depara-se, na verdade, com muita vida. Vida em seu estado mais bruto, o de sofrimento.

Fabiano, Sinha Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e Baleia são retirantes nordestinos e, juntos, os protagonistas do romance. Os personagens tentam escapar da seca e de todos as mazelas que a própria acarreta, mas a fuga parece ser debalde. É como se o fator climático transcendesse o ambiente externo e penetrasse na alma dos personagens, que às vezes agem como animais.

Eis aí um fragmento temático da obra! Há uma espécie de zoomorfização dos personagens, principalmente no que se refere a Fabiano. O marido de Sinha Vitória é, muitas vezes, abrutalhado, ignorante. O personagem chega ao ponto de reconhecer-se como um animal, dizendo “Você é um bicho, Fabiano”. Ora, na realidade em que vive, diante de tanta miséria e sofrimento, não há como não se sentir um animal, um ser que luta incessantemente para sobreviver. Ser um bicho, para Fabiano é, pois, um motivo de orgulho. Vejamos o seguinte trecho extraído da obra:

- Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: - Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha - e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

- Um bicho, Fabiano. (RAMOS, p.8)

Se por um lado Fabiano vê-se como um animal e, de certa forma, é descrito como um às vezes; a cadela Baleia, por outro lado, é deveras humanizada ao longo do texto. Podemos falar, então, no processo contrário ao citado anteriormente: estamos diante de um antropomorfização da personagem.

Baleia brinca com as crianças, caça preás para auxiliar na alimentação da família e, em alguns momentos, é descrita como se fosse um ser humano. O trecho abaixo confirma a afirmação anterior:

Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pêlo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas Sinha Vitória não queria saber de elogios. - Arreda! Deu um pontapé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários. (RAMOS, p.21)

A morte da cadela é outra cena que mostra sua humanidade. A descrição dos últimos momentos agonizantes do animal, somada à reação dos personagens e a sensação que Fabiano tem de ter matado “um membro da família” apenas contribui para que Baleia seja cada vez mais gente e menos bicho. O que diferencia um ser humano de um animal? Qual o fator que determina essa distinção que, em Vidas Secas, parece ser extremamente tênue?

Puxando a brasa para as Letras, é possível pensar que os seres humanos possuem algo que os outros seres vivos não desenvolveram: uma linguagem complexa. Falar e escrever, ou seja, conseguir se expressar, formular ideias e apresentar verbalmente os pensamentos é algo naturalmente humano; no entanto, não é uma capacidade dominada pelos personagens da trama.

Outro importante ponto da obra é, portanto, este: certa incapacidade linguística dos personagens. Eles pouco conversam entre si, mal conseguem expor seus pensamentos. Os diálogos parecem incompletos, amarrados, o que proporciona momentos angustiantes e colabora mais para que seja possível cotejar os personagens com animais. O silêncio presente na família é tão ensurdecedor que o papagaio, que morre antes da cena inicial da obra, imita os latidos da cadela Baleia. Ou seja, há um animal que tem como principal característica a capacidade de imitar a fala humana; há quatro pessoas em companhia da ave, todas com capacidade de falar; contudo, o bicho imita os latidos da cadela, pois, provavelmente, estes são mais frequentes do que os escassos enunciados proferidos por algum membro da família.

Há, no entanto, uma valorização da cultura, que é outro interessante ponto da obra. Um personagem, que não entra em cena diretamente, é frequentemente citado (em pensamento) por Sinha Vitória e Fabiano, trata-se de seu Tomás da bolandeira. Vejamos o trecho abaixo:

Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Porquê? Só se era porque lia demais. Ele, Fabiano, muitas vezes dissera: - "seu Tomás, vossemecê não regula. Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros." Pois viera a seca, o pobre do velho, tão bom e tão lido, perdera tudo, andava por aí, mole. Talvez já tivesse dado o couro às varas, que pessoa como ele não podia agüentar verão puxado. Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando seu Tomás da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda, montado num cavalo cego, pé aqui, pé acolá, Fabiano e outros semelhantes descobriam-se. E seu Tomás respondia tocando na beira do chapéu de palha, virava-se para um lado e para outro, abrindo muito as pernas calçadas em botas pretas com remendos vermelhos. (RAMOS, p. 11)

Fabiano admira o conhecimento que seu Tomás detém. Não vê muita utilidade dessa cultura perante à vida que leva, mas às vezes até tenta falar como seu Tomás falava, forçando um inexistente vocabulário opulento. O personagem também preocupa-se com a educação dos filhos, sonhando em vê-los numa escola, aprendendo “coisas difíceis e necessárias” (p.71).

Sonhar. Fabiano sonha em ver os filhos estudando. Sinha Vitória sonha com uma merecida cama de couro, a qual, aliás, seu Tomás possuía. A família toda sonha com um lugar melhor para construir sua vida, um lugar onde se possa viver e não apenas sobreviver.

A capacidade de sonhar é algo absolutamente característico do ser humano. De um lado, os personagens são vistos (e se veem) como animais, seja ante a natureza cruelmente forte, ou frente a autoridades como o soldado-amarelo, que evidencia a fragilidade do sertanejo perante à “civilização”. De outro lado, porém, a família mantém--se íntegra, honesta e esperançosa.

Fabiano, o qual, no primeiro capítulo, cansado de caminhar pensa em abandonar o filho em meio a caatinga, sofre muito por sacrificar a cadelinha de estimação. O mesmo Fabiano, que é humilhado por um solado-amarelo e jura vingança, ajuda o tal soldado quando o encontra perdido junto de seu cavalo. A brutalidade, a animalização do personagem é, portanto, puro reflexo do meio perturbador em que se vive. Por trás da rudeza, há um homem puro, sonhador.

Ao final da obra, restam duas certezas: a de que a família (incluindo Baleia), apesar de tudo é mais humanizada do que muitos conjuntos que chamamos de “civilizados, cultos etc”; e a de que “o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos” (p.75).


Lucas Neves

Jovem latinista, futuro professor. Fascinado pelas palavras, seus poderes e funções. A cada instante que passa, mais ávido por (des)aprender..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Lucas Neves