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Uma coleção de ideias e pensamentos sobre Arte, Literatura, Comportamento e Conhecimento

Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano...

6 Quadrinhos de Super-Heróis de Jack Kirby que todo mundo devia conhecer

Chamar Jack Kirby de Rei dos quadrinhos é pouco. Ao longo de quatro décadas, esse Deus da Nona Arte foi responsável pela criação dos maiores personagens de quadrinhos das duas maiores editoras dos EUA: Marvel e DC. Na década de 1970 seu gênio sem amarras teve liberdade para criar personagens e conceitos revolucionários, embora menos populares junto aos leigos em HQs. Venha apreciar esses fantásticos e não tão conhecidos heróis!


Se você não é fã de quadrinhos, é possível que Jack Kirby seja um desconhecido para você, ou talvez um nome que lhe soe familiar. É mais fácil reconhecê-lo pelas suas criações: Capitão América, Hulk, Thor, Homem de Ferro, Homem Formiga, Quarteto Fantástico, X-Men, só para citar uma fração delas. Exatamente, os principais heróis (e vilões) da Marvel, hoje pivôs de franquias bilionárias no cinema, são fruto criativo desse monstro sagrado da Nona Arte. Não resta dúvida de que este artista magistral não recebeu um centésimo do reconhecimento (principalmente financeiro) e do respeito que merecia pela sua imensa contribuição ao mundo das HQs. Mas este é um tema para outro artigo.

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O artista passou a década de 1960 criando os fundamentos do que viria a ser o Universo Marvel. Kirby é considerado o epicentro da Era de Prata dos quadrinhos, fase marcada pelo surgimento dos super-heróis do advento científico. Assim, fomos brindados com uma era de maravilhas, heróis mordidos por aranhas radioativas, irradiados por raios cósmicos, bombardeados por raios gama ou simplesmente nascidos com dons extragenéticos.

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Entretanto, os anos 1970 foram conturbados para o “Rei” Kirby. A sistemática do mercado de quadrinhos da época não permitia que os criadores usufruíssem de suas criaturas. Uma vez criado um personagem, o mesmo passava automaticamente a pertencer à editora. O descontentamento com a forma como era tratado na Marvel levou Kirby a migrar para a “Distinta Concorrência” (DC Comics). Depois de dois anos acertando os termos da sua contratação, Kirby trocou de editora em 1970. Após divergências criativas, Kirby acabaria voltando para a Marvel em 1976.

Porém, foi justamente nesse período de idas e vindas que a verve incendiária de Kirby estava mais prolífica, amadurecida e livre de amarras editoriais. É nessa década que surgirão suas criações mais inovadoras e visionárias. Vamos conhecer essas pérolas e torcer para que um dia elas nos arrebatem nas salas de cinema:

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1. Etrigan (The Demon, 1972)

Na década de 1970, o gênero terror estava em alta e os quadrinhos refletiram essa tendência. Kirby sempre foi predominantemente um artista da ficção científica. Não era afeito a histórias de terror e foi a contragosto que atendeu ao pedido da DC Comics de criar uma revista nessa linha. Foi daí que surgiu Etrigan, o Demônio! Nos tempos de Camelot, o Mago Merlin invoca Etrigan, a fim de combater o exército sobrenatural de sua rival Morgana Le Fey. Para proteger os segredos do seu precioso Livro da Eternidade, o feiticeiro destrói o castelo de Camelot e desaparece sem deixar vestígios. Destituído de sua função, Etrigan se torna o humano imortal Jason Blood, aguardando o dia em que seu mestre volte a lhe convocar. Nos dias atuais, Jason Blood se instala em Gotham City como renomado demonologista e colecionador de antiguidades. Atraído para a cripta perdida de Merlin, Blood descobre um poema que o permite se transformar novamente em Etrigan. Uma característica marcante do demônio é que ele só fala através de rimas, o que faz dele o terror dos letristas e tradutores de quadrinhos. Etrigan teve sucesso relativo em revista própria, mas seu maior papel na editora foi o de coadjuvante de luxo em inúmeras séries como “Monstro do Pântano” de Alan Moore, “Sandman” de Neil Gaiman, “Hitman” de Garth Ennis, entre muitas outras participações, inclusive animações. Suas aparições são sempre impactantes e o personagem é relevante até hoje na DC Comics.

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2. Kamandi (Kamandi The Last Boy on Earth, 1972)

A DC Comics falhou em conseguir os direitos para publicar a versão em quadrinhos do filme “Planeta dos Macacos” (1968). Assim, o editor Carmine Infantino pediu a Kirby que criasse um conceito similar. Reunindo ideias de trabalhos anteriores, Jack lançou “Kamandi, o Último Garoto da Terra”. A história revela um mundo pós-apocalíptico, onde a espécie humana foi reduzida a uma condição bestial, com alguns poucos grupos protegidos em abrigos subterrâneos. A transformação da Terra é atribuída ao “Grande Desastre”, evento catastrófico radiativo do qual pouco se sabe. Em paralelo, experiências com uma droga chamada Cortexin desenvolveu a inteligência dos animais, que agora são bípedes e aptos a falar. Com isso, as nações do mundo são dominadas por facções organizadas de animais antropomórficos. Kamandi é o último sobrevivente do bunker “Comando D” (“Command D”, de onde saiu seu nome). Sem contato com o mundo exterior, foi criado pelo avô. O garoto obteve seu aprendizado sobre o mundo pré-desastre através de uma biblioteca de microfilmes e vídeos. Quando seu avô é morto por um exército de lobos, Kamandi sai pelo mundo em busca de outros humanos como ele. O mapa detalhado e complexo da Terra após a tragédia, concebido por Kirby, proporcionou grandes e memoráveis aventuras. A revista teve 59 edições, embora o Rei tenha permanecido apenas até o número 40. Entre idas e vindas, o personagem permanece atuante na editora até os dias atuais e já teve participações no desenho animado “Batman the Brave and the Bold”.

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3. OMAC (O.M.A.C. One Man Army Corps, 1974)

Já finalizando seu contrato na DC Comics, Kirby criou OMAC a fim de cumprir sua meta de produção de 15 páginas semanais. Ainda gozando de liberdade criativa e editorial, Jack aproveitou para lançar um conceito que sempre o intrigou: como seria um Capitão América do futuro? Assim, testemunhamos mais uma vez um rapaz franzino que, através de um experimento conduzido por uma força de paz internacional, foi transformado num ser superpoderoso capaz de acabar com todas as guerras. Sua melhor descrição vem de Grant Morrison no livro “Superdeuses”: “com um moicano pré-punk que fazia eco ao elmo emplumado do Deus da Guerra Ares e um emblema de olho no peito que enxergava à frente o Big Brother da TV, OMAC embarcou numa série de aventuras sci-fi que se passavam ‘No Mundo Que Virá’, lembrando Philip K. Dick, ‘O Prisioneiro’ e ‘1984’. OMAC era Kirby em seu ápice incandescente e deveria ser imediatamente aprovado como filme pelo primeiro executivo da DC Entertainment que ler essas palavras”. Infelizmente, a série teve somente oito números, deixando um arco em aberto. Em 2005, na saga “Crise Infinita”, surge o Projeto OMAC. Diferente do original, a história se passava no presente, onde Batman criou o satélite Irmão-Olho para vigiar os atos dos heróis. Em 2011, com os Novos 52, é relançada a revista OMAC. Apesar de retomar os conceitos de Kirby e homenagear seu traço, ironicamente, a série durou apenas oito edições, como sua ancestral setentista. O personagem foi reformulado no evento “Multiversidade” de 2015, habitando juntamente com Kamandi a “Terra 51”.

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4. Eternos (The Eternals, 1976)

De volta à Marvel, Kirby recebeu carta branca para criar novos títulos. Ele não estava interessado em trabalhar na continuidade dos personagens icônicos que ajudou a dar vida na década passada. Assim, inspirado em obras como "Eram os Deuses Astronautas?" de Erich von Daniken e “O Fim da Infância” de Arthur C. Clark, o Rei criou "Eternos". Dessa vez, ao invés de um grupo tradicional de heróis fantasiados, somos apresentados a uma sociedade de superseres imortais desenvolvidos via manipulação genética extraterrestre. A partir dos genes de nossos antepassados primatas, os Celestiais, alienígenas colossais tão avançados que sua tecnologia lhes confere status onipotente, iniciaram a criação de três novas espécies: os Eternos (beldades com dons quase divinos), os Homens (o Homo sapiens) e os Deviantes (criaturas engenhosas, porém com aspecto grotesco). Devido às suas características, os Eternos deram origem aos mitos dos deuses gregos, enquanto os Deviantes foram associados aos demônios da tradição judaico-cristã. Embora fosse desejo de Jack que as aventuras dos Eternos não se passassem no Universo Marvel, o artista foi pressionado pela editora a incluí-los na cronologia regular, o que gerou uma participação especial do Hulk. A publicação não teve grande apelo popular, sendo encerrada no número 19. Nas décadas seguintes, houve várias tentativas de relançar o título sem grande sucesso. Até mesmo o alardeado retorno dos personagens nas mãos de Neil Gaiman em 2007 não atendeu às expectativas da Marvel. Na minha opinião, é uma série bastante subestimada, ficção científica de primeira grandeza, cuja estética grandiosa ficaria muito bem no cinema!

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5. Homem-Máquina (Machine Man, 1977)

Em 1976, Kirby foi escalado para ilustrar a adaptação em quadrinhos de “2001 Uma Odisseia no Espaço”, filme de Stanley Kubrick (MGM, 1968). O Rei fez um belíssimo trabalho, não só na reprodução artística, mas na narrativa, que permitiu que as pessoas finalmente compreendessem os complexos acontecimentos da película. Melhor do que isso, Jack deu sequência à história numa série que durou dez edições de alto nível. No número 8 da revista, conhecemos X-51, um robô dotado de inteligência desenvolvido pelo cientista Dr. Abel Stack. Um experimento conduzido pelo governo estava com dificuldades em produzir robôs similares a humanos. As criaturas entravam em conflito existencial causando grande destruição. A saída encontrada pelo Dr. Stack foi criar X-51 em casa, cobrindo-o com pele sintética, dando-lhe aparência humana e batizando-o de Aaron Stack, criando-o como se fosse seu filho. Para que seu invento não caísse em mãos erradas, o cientista envia seu prodígio para explorar o mundo e se sacrifica para que ele não seja localizado. Além da inteligência em nível humano, o robô é dotado de um corpo indestrutível equipado com um sem número de bugigangas que o tornam um herói incomparável. Durante sua aparição na revista "2001" (edições 8 a 10), o personagem foi chamado de Senhor Máquina (Mr. Machine), ganhando depois revista própria já com seu nome definitivo “Homem-Máquina”. Kirby esteve à frente desse título apenas até a nona edição, mas a revista ainda durou até o número 19 com outros artistas. Em 1985, uma minissérie querida pelos fãs e passada no agora não tão distante ano de 2020 trouxe de volta o herói robótico. Esta mini foi recentemente republicada no Brasil em edição encadernada de luxo pela editora Panini. O personagem interagiu com outros heróis da Marvel, tendo um embate famoso com o Hulk (saiu em 1983 na revista “O Incrivel Hulk” #1 e #2 pela Editora Abril). O Homem-Máquina teve uma participação expressiva em grandes sagas como “Terra X” (1999). Até os dias de hoje, continua um personagem relevante para a Marvel.

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6. Diabo, o Dinossauro (Devil Dinosaur, 1978)

“Diabo, o Dinossauro” representa uma iniciativa inusitada de Kirby, mas que só confirma sua engenhosidade no sentido de inovar. A HQ narra as aventuras de um tiranossauro vermelho que vive numa era onde dinossauros e homens pré-históricos coexistem (de forma não muito harmônica diga-se de passagem). Embora saibamos que isso é cientificamente duvidoso, o próprio Kirby se explica no editorial da seção de cartas da primeira edição (carinhosamente chamada de “despachos de dinosauro”). Ele reconhece que as evidências arqueológicas indicam que homens e dinossauros viveram em eras geológicas distintas. Entretanto, Jack destaca que os cientistas alegavam que o Celacanto estava extinto há vinte e seis milhões de anos, até que um exemplar vivo do peixe pré-histórico apareceu na costa norte da África em 1938. O próprio “monstro do Lago Ness” não seria um plesiossauro? Segundo Kirby, entre o ponto em que os dinos encontraram seu fim e o momento em que o homem começou a andar ereto, existem muitos mistérios não resolvidos. Qualquer coisa pode ter acontecido entre um fato e outro. Então, por que não as aventuras de Diabo o dinossauro e seu companheiro simiesco Menino da Lua (“Moon-Boy”)? A dupla inseparável passou por vários apuros, incluindo uma invasão alienígena e até uma viagem no tempo para o presente, onde o esquentado tiranossauro deixou Nova York em polvorosa. Infelizmente, o título teve vida curta, só nove edições. Entretanto, o personagem teve muitas aparições importantes como coadjuvante de peso não só nos quadrinhos, mas também em animações. Em “Hulk e os Agentes de S.M.A.S.H.”, desenho do canal Disney XD, ele virou o estimado bichinho de estimação da equipe do Gigante Esmeralda. Após o evento “Guerras Secretas” (2015), Diabo voltou na iniciativa “All New All Different Marvel” com novo título: “Moon Girl and Devil Dinosaur” (2016). Agora, o velho tiranossauro ganhou uma jovem companheira nerd de ciências, aprontando todas nos dias atuais.

Como pudemos ver, a verve criativa de Jack Kirby permanece presente, mesmo 22 anos depois da sua partida. Até seus títulos cancelados prematuramente por baixas vendas provaram estar apenas à frente do seu tempo. Vamos torcer para que sua genialidade ganhe cada vez mais reconhecimento e respeito e que suas criações continuem nos encantando nos quadrinhos, na TV e nos cinemas!

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Jose Carlos Belo

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