em busca de ideias perdidas

Uma coleção de ideias e pensamentos sobre Arte, Literatura, Comportamento e Conhecimento

Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano...

Apocalipticamente: Afinal, o Mundo vai Mesmo Acabar?

Vivemos todo dia sob a ameaça do fim do mundo. Desastres, doenças e guerras povoam os telejornais, aumentando a aflição quanto ao que está por vir. Mas devemos mesmo temer o destino final? O que fazer diante da perspectiva do encerramento do último ato do teatro da história humana? Esta é uma reflexão sobre o que fazer quando todo dia é Apocalipse.


Apocalipticamente é uma expressão no mínimo interessante. Podemos considerar advérbio de modo e como tal, carece de verbo. Mas qual verbo? Não importa. Apocalipticamente é algo relativo ao “Apocalipse”. No sentido figurado, pode estar relacionado a algo incompreensível, misterioso. Vale lembrar que “Apocalipse” não é necessariamente sinônimo de “fim do mundo”. Essa palavra, de origem grega, significa meramente “revelação”. O último livro canônico do Novo Testamento que recebe este nome descreve as revelações divinas recebidas e transcritas pelo Profeta João. Nele não é descrito exatamente um fim em si, mas um processo de transição.

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Deixando o espectro religioso de lado, pergunta-se: afinal, o mundo vai mesmo acabar? Esse é um questionamento válido, principalmente nos dias de hoje, com uma sequência de eventos tão catastróficos se desenrolando. Clima descontrolado em nível global, desastres e epidemias em larga escala e, como se não bastassem os fenômenos naturais, governantes exaltados coçando o botão do gatilho nuclear. É a quase materialização dos quatro cavaleiros da Bíblia. Será que a quarta guerra mundial, movida a paus e pedras e preconizada por Einstein, está a caminho?

Quem passou pelas décadas de ‘70’ e ‘80’ viveu o auge do medo do fim do mundo pela Guerra Fria. A principal fonte de temor, sem dúvida, era o “Armagedon” nuclear. Perigo esse expressado em pérolas do cinema norte-americano como “Mad Max” ou “O Exterminador do Futuro”. A imagem do horizonte atômico calcinante deu pesadelos a toda uma geração. No Brasil, em 1983, a banda “Rádio Táxi” lançava sua marcante canção “Eva” (versão brazuca da música homônima do italiano Umberto Tozzi). A guitarra lamentosa e o videoclipe cataclísmico anunciavam “o fim da aventura humana na Terra”. Agora, a Arca de Noé era a nave espacial Discovery, despachando os últimos sobreviventes da hecatombe e assinalando o “final da Odisseia Terrestre”.

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Por outro lado, longas eram as discussões sobre como seria o mundo depois do ano 2000, caso não fosse o fim. Teríamos carros voadores, cidades brilhantes e colônias na Lua e em Marte. Infelizmente, as utopias futuristas do Professor Pardal não se concretizaram. Agora que estamos “de volta para o futuro”, os carros continuam no chão e as metrópoles estão mais sujas do que nunca. A boa nova é que, uma década e meia depois da virada do milênio, o mundo também não acabou. É claro que não foi por falta de tentativa. Sobrevivemos ao Cometa Halley, Hercólubus, o bug do milênio, o 2012 do Calendário Maia, entre outras tantas tragédias anunciadas.

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Então, onde está a “Alvorada Voraz” que irá nos consumir? Talvez seja importante destacar que o fim do mundo não é a mesma coisa que o fim da humanidade. A espécie humana poderia ser extinta e a nave Terra continuaria tranquila seu passeio rodopiante e inexorável pelos circuitos elípticos do nosso Sistema Solar. Afinal, a despeito de toda grandeza que nós pobres humanos achamos possuir, ocupamos uma ínfima camada da superfície dessa gigantesca bola achatada de ferro e silício. Proporcionalmente falando, nosso desaparecimento representaria muito pouco diante do volume de massa restante do planeta.

Entretanto, descartando as possibilidades de autoextermínio, sejam elas reais e imediatas ou improváveis e distantes, a Astronomia permite antever o fim do mundo como o conhecemos. Dentro de mais ou menos cinco bilhões de anos, o Sol esgotará seu combustível e entrará em colapso. No processo, a Terra e suas demais companheiras planetárias, bem como suas luas, serão engolidas pelo fatídico destino que vier após a falência do Astro Rei. Mas não é preciso se preocupar com isso, pois, nessa mesma época, a Galáxia de Andrômeda estará em rota de colisão com a Via Láctea e as galáxias vizinhas se chocarão. Se a Terra, um grão de areia nesse mar de estrelas, irá se esfacelar ou será simplesmente arremessada da sua órbita, isso é incerto. Para o universo, seria uma mera transição, apenas mais um capítulo na jornada que começou com o “Big Bang”, para a humanidade seria simplesmente o fim.

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Contudo, não há motivo para pânico. Cinco bilhões de anos é um espaço de tempo inconcebivelmente grande. É impossível prever em que pé estará a “Odisseia Humana” nesse período. Para se ter uma ideia, os quatro milhões de anos passados desde que deixamos o Australopithecus nas savanas pré-históricas representam apenas 0,08% do tempo que levará para expirar o prazo de validade do Sol. Ou seja, tudo que evoluímos como espécie, tudo que conquistamos, desde a pedra lascada até as naves espaciais, smartphones e fornos de microondas, representam centésimos de milésimos de segundos na escala cósmica.

Então, isso quer dizer que somos insignificantes, que deveríamos desistir de tudo e acionar logo a alavanca da extinção? Não necessariamente. O mundo é o que vemos, o que captamos através dos sentidos. A realidade é fruto de um processo de Gestalt, fabricada e refabricada diariamente em nosso cérebro. Tudo pelo qual sofremos e nos alegramos vem dos estímulos interpretados pela mente. Por isso, talvez seja mais correto dizer que o verdadeiro fim do mundo é a morte do indivíduo. Para aquele que parte, o mundo deixa de existir. Nesse sentido, todo dia é “Apocalipse” para alguém. Mas como conviver com isso, sabendo que, apocalipticamente, caminhamos inexoravelmente para o próprio fim? (finalmente, encontramos um verbo para nosso advérbio)

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Nesse ponto, vale apelar para o Tetrapharmacon de Epicuro. Os quatro remédios milagrosos para a alma, na forma de sentenças filosóficas bem pensadas, ajudam na busca pelo prazer e pela felicidade, minando as causas do sofrimento. Na concepção epicurista, não há nada para se temer da morte, pois ela representa o fim das sensações. Ou seja, não existe dor na morte. Da mesma forma, não há sofrimento que perdure. Na verdade, quanto mais aguda a dor, mais rápido ela passa. Portanto, como não há mal que dure, a felicidade é possível. Logo, não há motivo para sofrer por antecipação.

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Tudo que começa tem um fim, mas este fim muitas vezes representa apenas uma passagem, uma mudança de fase. O que vem depois? Esse é o grande mistério. É aí que reside a verdadeira “aventura humana na Terra”. Para quê estragar a surpresa do final? Quem gosta de saber o final do filme antes de assistir? Então, a melhor saída é desacelerar, viver cada minuto apreciando a beleza que se descortina no dia a dia. Nesse “carpe diem”, não deixe de se deleitar com cada por do sol, o barulho da chuva, o sorriso de uma criança, o carinho da pessoa amada. Serenidade é a palavra de ordem. Nessa travessia, vamos aprender com o passado, fazer o melhor no presente, deixando o futuro chegar naturalmente. E fora daqui “Armagedon”!


Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano....
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