em busca de ideias perdidas

Uma coleção de ideias e pensamentos sobre Arte, Literatura, Comportamento e Conhecimento

Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano...

Ben-Hur: Revisitando o Livro

Escrito em 1880 por um general norte-americano, o livro “Ben-Hur: uma História dos Tempos de Cristo” marcou a vida de gerações e serviu de inspiração para a produção de um dos maiores épicos do cinema mundial. Vale a pena saber mais sobre essa magnífica obra e entender a verdadeira importância do seu legado para os dias de hoje.


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Fale sobre Ben-Hur com qualquer pessoa e a primeira referência que elas irão se lembrar é do filme épico de 1959, com atuação antológica de Charlton Heston como herói-título. Muitos se esquecem, ou simplesmente não sabem, que essa foi na verdade a terceira adaptação cinematográfica, antecedida por uma peça teatral. Mas todas essas produções foram adaptadas do livro “Ben-Hur: uma História dos Tempos de Cristo” (Ben-Hur: A Tale of the Christ). Esta belíssima obra, publicada em 1880, é de autoria de Lew Wallace, general norte-americano que serviu na Guerra de Secessão dos EUA e atuou como diplomata no Oriente Médio. A experiência militar e diplomática do escritor contribuiu sobremaneira para a concepção de um livro com riqueza de detalhes históricos e uma mensagem profunda. Além disso, o respeito aos elementos culturais e religiosos de uma região tão conturbada é visível. Judeus e árabes são retratados de forma fidedigna em uma época onde coexistiam pacificamente (bem distante da realidade que vivenciamos hoje). A principal fonte de conflitos vinha da hegemonia do Império Romano, muitas vezes insensível às questões locais e que vivia o seu apogeu no início da era dos Césares.

Com todo respeito ao filme, que é sem dúvida um marco na história do cinema mundial, acredito que o livro merece um novo olhar. Em primeiro lugar, porque a película não abarcou a profundidade de lugares e situações abordadas na obra de Wallace. Em segundo, porque na transcrição para a tela grande, um elemento fundamental da trama foi subtraído, a verdadeira relação entre Ben-Hur e Jesus. Para aqueles que ainda pretendem ler a obra e não querem antecipar o desenrolar da história, recomendo que pare a leitura deste artigo agora e retome somente quando tiver lido o livro. Se esse não é o seu caso, bem, vamos aos fatos. É importante destacar que, embora a obra se concentre na história do protagonista Judá Ben-Hur, Jesus é uma presença muito mais marcante do que o retratado no filme. Para ter uma ideia, tudo começa quando os três Reis Magos se encontram pela primeira vez, no deserto, movidos por uma força divina que os conduzirá ao nascimento do Messias. Não há estrela-guia como mostrado no filme (assim como a própria Bíblia não faz nenhuma menção a isso). O nascimento de Jesus é narrado de forma detalhada, mais condizente com relatos históricos do que as reproduções tradicionais que vimos nos presépios todo ano. Além disso, cada Rei Mago faz uma longa narrativa da origem e da cultura de seus respectivos povos. Enquanto isso, conhecemos Judá Ben-Hur, filho de um poderoso comerciante do Oriente Médio. O jovem hebreu possui um forte laço de amizade com Messala, militar do alto escalão romano. Ambos cresceram juntos e compartilham os mesmos gostos por cavalos, armas e corrida de bigas. Por um infortúnio do destino, Ben-Hur é acusado injustamente de provocar um levante contra o recém-empossado governador da Judeia. É claro que isso é considerado um ato de traição contra Roma. Acusado pelo seu próprio amigo de infância, toda sua família é condenada, tendo seus bens confiscados pelo império. A mãe e a irmã de Judá são presas e o rapaz é sentenciado a viver como escravo remador nas galés romanas para o resto da vida.

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Nesse ponto cabe destacar um mérito do filme, que reproduziu lindamente o momento em que Ben-Hur acorrentado é levado a chicotadas para o porto onde iniciará seu suplício. Com sede extrema, ele implora por água e tudo que recebe é um golpe mais forte do carrasco. Ele cai ao solo e suplica a Deus por ajuda. Nesse momento, é o jovem Jesus de Nazaré que aparece oferecendo água ao pobre mancebo. Ele sorve a água como uma benção dos Céus. Vendo a cena, o legionário levanta o chicote prestes a repreender aquele que prestou socorro ao rapaz. No entanto, com apenas um olhar de Jesus, o soldado congela e não consegue consumar o ato violento.

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No desenrolar da história, Judá Ben-Hur consegue reverter seu trágico destino, tornando-se o braço direito de um importante aristocrata romano. Posteriormente, recuperou toda a riqueza perdida de sua família na corrida de bigas imortalizada pelo filme de 1959. Aqui começa a diferença fundamental entre a obra escrita e a película. No livro, Ben-Hur, agora o comerciante mais poderoso do Oriente Médio, toma conhecimento da existência de um pregador hebreu de nome Jesus oriundo de Nazaré. Ele fica sabendo que este homem é o Messias profetizado nas Escrituras de seu povo e que este será o Rei dos Judeus, que irá livrá-los do jugo do Império Romano. De posse dessa informação, Judá investe na formação e treinamento de um exército de três mil soldados, que deverão servir ao novo Rei. Entretanto, ao acompanhar a chegada desse prometido Messias a Jerusalém e testemunhar suas pregações, Ben-Hur constata que Jesus professa um Reino que não pertence a este mundo, mas sim a existência do Reino dos Céus, obra de seu Pai, o Criador. Ao contrário de experimentar a decepção que seu próprio povo expressou, Ben-Hur abraça a causa daquele pregador humilde cuja mensagem poderosa remete ao amor ao próximo. Em meio aos eventos que levariam à condenação e crucificação daquele rabino, Judá descobre o paradeiro de sua mãe e irmã, que estão vivendo no vale dos leprosos, condenadas a um destino pior do que a morte. Acompanhando os últimos momentos da via-crúcis de Jesus, Ben-Hur tenta ampará-lo numa de suas quedas rumo ao Calvário. É nesse momento que Judá chora ao perceber que aquele homem torturado era o jovem que lhe deu água anos atrás, quando descia para servir nas galés. Diante daquele ato de bondade para com o Filho de Deus prestes a ser crucificado, Judá é agraciado com a cura milagrosa de sua mãe e irmã. Após a morte do Nazareno, Ben-Hur emprega seus vastos recursos para proteger os seguidores de Jesus, ajudando na construção da nova fé que se tornaria uma das maiores religiões do mundo: o Cristianismo.

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Para aqueles que desconheciam a existência desse magnífico livro, ou ainda não tiveram a oportunidade de lê-lo, recomendo fortemente um mergulho nessa obra prima de ficção histórica, que foi escrita por um homem erudito que se proclamava ateu. O objetivo original de Lew Wallace era escrever um livro que desmascarasse a origem divina de Jesus. Entretanto, quanto mais o autor se aprofundava nas pesquisas para o livro, mais ele se conscientizava da verdade por trás das parábolas daquele jovem carpinteiro nascido em Belém. Nada é mais enriquecedor do que se entreter com obras que nos transportam para lugares nunca vistos e que nos fazem refletir sobre a própria essência do que nos torna humanos.


Jose Carlos Belo

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