em busca de ideias perdidas

Uma coleção de ideias e pensamentos sobre Arte, Literatura, Comportamento e Conhecimento

Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano...

Doutor Estranho e as 5 Lições que Aprendemos com o Filme

Doutor Estranho, herói mestre das artes místicas da Marvel, criado em 1963 por Steve Ditko (mesmo criador do Homem-Aranha) recebe este ano uma megaprodução no cinema. Assim, acompanhamos a história do cirurgião egocêntrico, que encontra redenção nos ensinamentos de uma mestra secular no oriente. Vamos conhecer algumas dessas valiosas lições.


Em 1963, o desenhista de quadrinhos Steve Ditko apresentou para Stan Lee cinco páginas com uma proposta de um novo personagem para a revista “Strange Tales”. A ideia era trazer diversidade para o então nascente panteão de super-heróis da Marvel Comics. Um ano antes, Ditko já tinha brindado o mundo com o Homem-Aranha, que dispensa apresentações. Lee comprou a ideia e o personagem estreou no número 110 da revista, dividindo espaço inicialmente com as aventuras solo do Tocha Humana do Quarteto Fantástico. No número 169, o herói garantiria seu espaço exclusivo, com a revista passando a se chamar “Doctor Strange”.

Embora nunca tenha sido parte do mainstream da editora, como os X-Men ou o próprio aracnídeo, o Doutor Estranho sempre teve um relativo sucesso, conquistando muitos fãs entre hippies, amantes da cultura oriental, intelectuais e acadêmicos. Entre altos e baixos de vendas nas últimas décadas, cancelamentos e retornos, o personagem continua a estrelar suas histórias, seja sozinho ou em equipes (Defensores, Illuminatis, Novos Vingadores, etc.). Até hoje continua um personagem relevante, com atuação central nas grandes sagas da editora.

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O Marvel Studios iniciou com grande sucesso seu universo cinematográfico em 2008. Depois de apresentar seus medalhões ao grande público (Homem de Ferro, Hulk, Thor e Capitão América, que depois formariam os Vingadores), a produtora decidiu que era hora de mostrar o potencial do seu segundo escalão. Os picos de bilheteria de ilustres desconhecidos como Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga abriram caminho para o Mestre das Artes Místicas. Os mais de 600 milhões de dólares arrecadados em menos de um mês provam que o herói arrebatou as plateias do mundo todo.

E não é para menos. O arco de redenção do médico cirurgião arrogante que perde sua habilidade de operar e busca a cura na cultura oriental trouxe uma história poderosa, com valorosas lições. Vamos conhecer algumas delas.

ALERTA DE SPOILER: os tópicos abaixo contêm informações que podem comprometer o prazer do seu entretenimento se você ainda não viu o filme, portanto, considere-se avisado.

1. O Orgulho Antecede a Queda

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Muitas vezes na vida somos acometidos pelo quinto pecado, que é a soberba. No final do século VI, a Igreja Católica definiu os sete pecados capitais, que representam as maiores faltas que o homem pode cometer contra as leis de Deus. Stephen Strange, médico neurocirurgião cuja habilidade inata lhe trouxe grande renome. Entretanto, ao invés de usar seu dom para o bem, o médico acumulou riquezas, desdenhando em sua arrogância os colegas de profissão e recusando ajudar pacientes que, aos seus olhos, não fossem dignos do seu tempo. Como consequência de seus atos, o castigo veio na forma de um trágico acidente de carro que arruinou suas mãos e lhe privou de seu ofício. A busca desesperada pela cura levou embora seu dinheiro, o respeito, os amigos e a amada.

2. Líder é Aquele que Serve

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Depois de infrutíferos tratamentos, Strange vai parar no oriente, onde um grupo liderado pelo chamado “Ancião” representa a promessa da cura por meios alternativos. A viagem exaustiva leva o ex-médico a um local de profunda contemplação. Imaginando que a figura do idoso imponente sentado à sua frente seja o Ancião, ele despreza a mulher que gentilmente lhe oferece uma xícara de chá. Qual não é sua surpresa ao se dar conta que ela é a Anciã, rompendo todas as suas pressuposições. O líder verdadeiro não é aquele que despacha ordens unilaterais aos seus subordinados. Mas aquele disposto a ensinar e aprender na mesma medida. Seus ensinamentos são compartilhados e discutidos, em vez de regurgitados e repassados.

3. A realidade é Maior do que Aquela que Percebemos

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Após demonstrar desprezo pelos conhecimentos inicialmente oferecidos pela Anciã, Stephen é arremessado espiritualmente a um sem número de planos de existência, o multiverso. Ele percebe embasbacado que o mundo materialista em que vivia fechado era uma minúscula faceta de um espectro mais amplo. Além da percepção limitada dos nossos cinco sentidos, estamos cercados de energia em forma de matéria. Matéria composta de partículas e subpartículas, supercordas em movimento frenético, conectadas formando um universo que nasceu no Big Bang. Universo esse que coabita a existência com universos paralelos, múltiplas camadas de um cosmo infinito.

4. Esqueça Tudo que Você Pensa que Sabe

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Antes de chegar ao local onde reside a Anciã, Strange é guiado por Mordo, um dos seguidores do grupo místico. Stephen se dirigiu a um tempo budista antes de ser corrigido por Mordo, que indicou a entrada de uma casa velha. Ele questionou a aparente simplicidade do lugar quando é advertido por Mordo: “esqueça tudo que você pensa que sabe”. Muitas vezes estamos bloqueados para novas experiências e novos aprendizados, simplesmente porque não conseguimos nos livrar de nossos pré-conceitos e nossas convicções endurecidas pelo individualismo. Sherlock Holmes, personagem mítico de Conan Doyle, já alertava que nosso cérebro é como um sótão, que ao longo da vida vamos enchendo com tudo que encontramos pelo caminho. Chega uma hora em que o espaço fica comprometido. É impossível inserir coisas úteis sem descartar aquilo que é fútil.

5. A Ilusão do “Eu”

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Ao longo do duro aprendizado, Stephen precisou romper com todos os paradigmas que engessavam o caminho do seu crescimento pessoal. A barreira mais difícil de romper foi a compreensão de que o mundo não girava em torno dele. Num dado momento a Anciã explica que o mais importante era ele entender que “não se trata de você”. O entendimento de que somos apenas parte de um todo coeso está na essência de religiões como o hinduísmo e o budismo. Se livrar da percepção equivocada do “eu” isolado do mundo é o primeiro passo para romper com “Maya”, a realidade ilusória que nos cerca. Esse é o caminho da sabedoria fundamental para alcançar a verdadeira iluminação espiritual e se tornar uno com o Absoluto.

Ao superar as próprias limitações, reconhecer que existe um plano de existência superior e que somos seres imperfeitos num ciclo constante de aperfeiçoamento e reconstrução, Stephen Strange alçou voo rumo a um estado de consciência elevado. Admitir que precisamos do outro, que somos parte de uma coletividade, não nos torna falhos. Pelo contrário, nos lança no caminho da harmonia com o todo, no encontro com a verdadeira paz espiritual.

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Jose Carlos Belo

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