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Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano...

Millennium – a Série de TV dos Anos 90 que Reinventou o Fim do Mundo

"Isto é o que somos" - com este lema, há 20 anos começava a série de TV "Millennium". Pioneira de um formato policial que viraria modelo no século XXI, o programa arrebatou uma legião de fãs fiel até os dias de hoje. Saiba mais sobre esse seriado que deixou saudades!


A História da Série

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O ano era 1996 e o produtor de TV Chris Carter vivia o ápice de sua carreira na esteira do sucesso de "Arquivo X". Os executivos do Canal Fox queriam outra série. Carter teria total liberdade criativa no processo de criação do novo seriado. Motivado por filmes como “Seven” (1995) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991), o produtor pensou em abordar com os monstros da vida real. A intenção era criar o programa mais assustador do mundo. O tema central era a insanidade na iminência do novo milênio.

Pioneirismo na TV

Um agente aposentado do FBI trabalhando para uma firma particular de consultoria se via às voltas com crimes relacionados ao milênio. Ele era auxiliado por um misterioso dom, que lhe permitia enxergar pelos olhos do criminoso. Assim, as tramas dos episódios eram recheadas de profecias, citações a Nostradamus e poesia milenar e apocalíptica. “Millennium” foi o primeiro programa de TV a lidar com a técnica de elaboração de perfis comportamentais do FBI. Foi ainda uma das primeiras séries a usar flashbacks com cortes rápidos e cenas subjetivas. Esse recurso, anos mais tarde, se tornaria lugar comum em séries como “CSI”. O seriado é considerado precursor de shows como “Criminal Minds”, “The Blacklist” e “Lie to Me”.

O Protagonista

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O personagem central, Frank Black, foi interpretado por Lance Henriksen, ator veterano querido pelo público Sci-Fi devido a películas como “O Exterminador do Futuro” (1985) e “Aliens O Resgate” (1986). Chris Carter alega que Henriksen foi a primeira e ultima escolha para viver o protagonista da série. A voz retumbante e o olhar intenso, entre outros talentos, o tornaram a escolha certa, embora a Fox quisesse um ator estilo galã na faixa dos trinta. O ator recebeu o script do primeiro episódio e adorou, pensando que era um roteiro de filme. Ele custou a acreditar que se tratava de uma série de TV, devido à história forte e chocante.

Inspirada no Mundo Real

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O Grupo Millennium representa o centro da trama. A princípio, uma firma de consultoria privada de investigação policial, a sociedade revelou seu propósito sinistro de preparar o mundo para o novo milênio. A inspiração veio do “Academy Group, Inc.”, consultoria fundada em 1989 pelo Dr. Roger Depue, ex-Chefe da Unidade de Ciência Comportamental Forense do FBI. É especializada em análise e interpretação de cenas de crime para extrair características descritivas de personalidade (profiling). O logotipo da empresa veio do livro de Thomas Harris, “Dragão Vermelho” (1986).

O Logotipo e a Abertura

O famoso logo do seriado trazia o símbolo do ouroboros, a cobra engolindo a própria cauda, que representa um antigo amuleto contra o sofrimento e a representação do cosmos. A arte é inspirada nos desenhos de Leonardo Da Vinci, com várias artes de diferentes civilizações sobrepostas em camadas. A inspiração para a abertura veio das imagens do livro de Robert Frank “The Americans”, que trata da jornada fotográfica do autor pelos Estados Unidos nos anos 50. O tema da abertura era uma música composta por Mark Snow (o mesmo de “Arquivo X”). O som tinha como base música irlandesa, uma mistura de percussão com lamento de violinos e elementos celtas e medievais.

O Piloto

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O episódio de estreia da série foi exibido nos EUA em 25 de outubro de 1996. O diretor foi David Nutter, hoje em dia mais conhecido por dirigir episódios de séries como “Game of Thrones” e “The Flash”. A Fox ficou tão empolgada com o resultado final, que promoveu uma grande estreia, lançando o piloto no cinema em todo o país. A fala de abertura do episódio vinha do serial killer, que matava suas vítimas motivado por profecias apocalípticas: “quero te ver dançar na maré de sangue; onde a cerimônia da inocência se afoga; esta é a segunda morte; os abomináveis e os fornicadores; você será parte do lago; a grande peste na cidade marítima; seu lugar será no lago que arde com fogo e enxofre!”.

Três Temporadas

Infelizmente, “Millennium” teve vida curta e não alcançou seu objetivo inicial, que era alcançar o seu clímax no ano 2000. A primeira temporada foi focada em desvendar crimes perpetrados por serial killers. As cenas com cortes e mutilações foram consideradas fortes para a época. Na segunda temporada, Chris Carter estava envolvido demais em “Arquivo X” (a quinta temporada e o longa-metragem de 1998), deixando o serviço para seus associados Glen Morgan e James Wong. Centrada em conspirações mundiais e o lado sombrio das religiões, agora mergulhava de vez no sobrenatural. A mitologia do Grupo Millennium ganhou toques de sociedades secretas como a Maçonaria ou os Illuminatis. O terceiro ano foi marcado pela volta de Carter ao programa, que buscou resgatar a verve da primeira temporada.

O Fim da Série

Infelizmente, na terceira temporada, a audiência estagnou e, embora não fosse baixa, não era o sucesso que a rede de televisão esperava. Para tristeza dos fãs, o programa encontrou seu fim em maio de 1999. Os produtores acreditam que a audiência das grandes redes estava sofrendo então um processo de erosão de modo geral. Algo que as próprias emissoras não estavam enxergando. Ao invés de entender que o público estava se pulverizando em nichos de audiência, continuavam buscando emplacar sucessos de massa.

O Crossover com Arquivo X

O cancelamento deixou no ar um sentimento de que era preciso dar um fechamento à série. Assim, seis meses depois do fim, os produtores promoveram um crossover entre as séries primas em um episódio da sétima temporada de “Arquivo X” chamado “Millennium”. Lance Henriksen reprisou seu papel como Frank Black, agora um homem internado num sanatório, se recuperando do trauma vivido no passado. Este episódio é marcante para os fãs de “Arquivo X” por trazer aguardado primeiro beijo dos agentes Mulder e Scully.

O Legado

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A série estava à frente do seu tempo, com temas como crimes de internet, crianças assassinas e crimes motivados por messianismo. O programa ganhou o “People’s Choice Award’s” de “Melhor Série Nova”, mesmo depois de apenas dois episódios exibidos na TV. Em 2012, a editora “Fourth Horseman Press” publicou o livro “Back to Frank Black: A Return to Chris Carter’s Millennium” (inédito no Brasil), com artigos escritos pelo protagonista, o criador Chris Carter e vários produtores e roteiristas. A editora de quadrinhos norte-americana IDW Publishing lançou uma HQ de sucesso baseada na série em 2015.

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Um Fio de Esperança

O programa possui até hoje, no mundo todo, uma legião de fãs empenhados em campanhas pelo retorno da série (visite o site Back to Frank Black). Recentemente, até mesmo Chris Carter manifestou interesse positivo nisso. Segundo o produtor, só depende da Fox, que detém os direitos da série. Em tempos de streaming e com o revival de séries outrora extintas como “Prison Break” e a própria “Arquivo X”, não custa sonhar com o retorno do carismático Frank Black e sua busca implacável por justiça. Além do mais, não tem como a série sair de moda, afinal, todo ano tem um novo armagedom rondando o planeta, certo?

Gostou desse texto? Não perca meu outro artigo tratando do fim do mundo, clicando aqui: Apocalipticamente: Afinal, o Mundo vai Mesmo Acabar?


Jose Carlos Belo

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