em busca de ideias perdidas

Uma coleção de ideias e pensamentos sobre Arte, Literatura, Comportamento e Conhecimento

Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano...

The Authority: A História em Quadrinhos que catapultou os Super-Heróis para o Século XXI

Criada por Warren Ellis e Bryan Hitch no final dos anos 1990, uma década obscura para os quadrinhos de super-heróis, The Authority foi uma série inovadora e incendiária, que definitivamente tirou paladinos de colante da sua zona de conforto. Seu advento foi uma revolução que extrapolou os muros da Nona Arte, pavimentando o caminho para os futuros blockbusters de super-heróis no cinema.


O que aconteceria se Batman e Superman fossem namorados, Nuclear fosse viciado em heroína e a Liga da Justiça invadisse o Iraque para matar Saddam Hussein? E se os super-heróis combatessem os verdadeiros flagelos do mundo ao invés de trocar sopapos com vilões multicoloridos em batalhas sem sentido? Foi respondendo questões como essas que foi criada a equipe de heróis que marcou o ingresso da Nona Arte no Século XXI: The Authority!

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A década de 1990, com raras exceções, definitivamente não foi boa para os quadrinhos de super-heróis. Especulação em alta, capas metalizadas e holográficas tentando em vão escamotear tramas medíocres e Rob Liefield. O infame selo IMAGE da Editora Malibu Comics inaugurou uma era de histórias sem conteúdo, anti-heróis raivosos e anabolizados com dedo nervoso no gatilho de trabucos enormes; heroínas voluptuosas em uniformes impossivelmente pequenos e abusando das poses sensuais.

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Em 1999, o argumentista britânico Warren Ellis se juntou ao artista Bryan Hitch para dar um basta na mesmice e fundar uma nova era para os heróis de colante. Após os eventos mostrados na série “Stormwatch” (supergrupo sancionado pela ONU para resolução de crises globais), surge “The Authority” (o nome não recebeu tradução no Brasil). A HQ foi publicada pelo Selo Wildstorm, inicialmente fundado pela Image em 1992, anos depois incorporado pela DC. A marca registrada do Wildstorm era o respeito à propriedade autoral de escritores e artistas sobre suas criações.

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“The Authority” surgiu diante da incômoda pergunta: “Por que Super-Caras nunca vão atrás dos verdadeiros bastardos?” O supergrupo, perseguia toda forma de maldade, não se importando com leis internacionais ou a soberania dos países. Incorporando a escala visual das telas widescreen do cinema, “The Authority” elevou o nível de atuação dos super-heróis a uma amplitude global nunca antes explorada.

Na formação original tínhamos: Jenny Sparks – Espírito do Século XX com poderes elétricos; Apollo – contraparte do Superman, com os mesmos poderes e mesma fonte de poder, o Sol; Meia-Noite (Midnighter) – análogo do Batman com traje de couro preto, dotado de implementos cibernéticos, o lutador supremo; Jack Hawksmoor – o Rei das Cidades, modificado geneticamente para interagir com ambientes urbanos, manipulando-os à própria vontade; Doutor – xamã da aldeia global, com poderes de transmutação da matéria; Rapina (Swift) – a guerreira alada; e Maquinista (Engineer) – com o corpo coberto por nanotecnologia líquida moldável.

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Completando o grupo, a Balsa (The Carrier), uma nave senciente do tamanho de uma cidade, capaz de viajar entre as dimensões do multiverso pelo plano intermediário chamado de “Sangria”. A belonave, de origem desconhecida, possuía a Sala de Junção que criava “portas” para teleportar os membros da equipe para qualquer lugar do mundo (semelhanças com “Star Trek” não são mera coincidência...).

Warren Ellis escreveu três arcos (edições #1 a #12 do volume 1): Circulo do Medo – Kaizen Gamorra, ditador da Parousia, cria um exército de superclones que devastam cidades inteiras para estabelecer sua hegemonia; Naves Dimensionais – a civilização inescrupulosa de Albion vinda de uma Terra Paralela, almeja dominar o mundo e transformá-lo num Campo de Estupro(!!) para se reproduzirem; e Escuridão Exterior – Deus (ou coisa parecida) retorna dos confins do universo e decide exterminar os humanos e devolver o planeta ao seu estado primordial.

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Um dos pontos fortes da série era o aspecto humano. Embora tivessem poderes no nível de deuses, os membros da equipe estavam sujeitos às peculiaridades e fraquezas das pessoas normais. Matar os inimigos sem piedade era rotina. O Doutor era um viciado em heroína, chegando a sofrer posteriormente uma overdose; Apollo e Meia-Noite formavam um casal, realizando um pioneiro matrimonio gay nas HQs. Além disso, o grupo dava festas homéricas para celebridades e super-heróis na Balsa e o sexo rolava solto. Não raro, os heróis se apresentavam de ressaca para o combate ao crime.

E foi assim que The Authority mudou a realidade dos super-heróis de papel. Sua influência se fez sentir por toda a primeira década dos anos 2000. Até os heróis das poderosas editoras Marvel e DC Comics adotaram posturas proativas. Para citar alguns exemplos, o Demolidor tomou a Cozinha do Inferno, O Quarteto Fantástico destronou Victor Von Doom e conquistou a Latvéria, enquanto Banshee dos X-Men fundou a Tropa X, grupo paramilitar que policiava as atividades globais da comunidade mutante. Superman enfrentou a Elite (grupo “plágio” do Authority, que pôs em cheque o lado escoteiro do herói) e Asa Noturna montou uma nova formação da equipe Renegados, cujo objetivo era agir nas sombras, detendo vilões antes mesmo deles colocarem seus planos em prática.

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No Brasil, a série foi publicada de forma conturbada, em diferentes editoras e variados formatos. O 1º arco, Círculo do Medo, saiu pela Pandora Books numa minissérie em 2 partes, em formato pequeno (pouco maior que o formatinho da Editora Abril). O arco Naves Dimensionais saiu também pela Pandora, em formato americano, numa revista onde dividia espaço com outra maravilha de Ellis: “Planetary”. A Devir publicou dois encadernados: “Sem Perdão”, cobrindo os 2 primeiros arcos de Ellis e “Sob Nova Direção”, contendo o 3º arco de Ellis, mais o 1º da fase de Mark Millar (esta fase será abordada em outro artigo). Agora, em 2016, a Panini promete publicar todo esse material de maneira uniforme em novos encadernados (as histórias do Stormwatch, equipe antecessora do Authority, já foram publicadas pela Panini no ano passado em quatro volumes que reúnem a passagem de Warren Ellis pela série).

O legado de The Authority é indiscutivel e a qualidade dessa pérola do entretenimento moderno permanece insuperavel até hoje. Os vícios e desvios de comportamento dos heróis, apesar de contundentes, nunca eram apresentados de forma apelativa. Longe de tentarem estabelecer um padrão, foram retrato de um momento histórico, onde cinismo e extremismo viraram ferramentas para lidar com a dura realidade do novo século que se descortinava.

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Jose Carlos Belo

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