em busca de ideias perdidas

Uma coleção de ideias e pensamentos sobre Arte, Literatura, Comportamento e Conhecimento

Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano...

The Authority (Parte 2): Mark Millar e Frank Quitely Aumentando as Apostas!

Dando continuidade ao artigo anterior “The Authority: A História em Quadrinhos que catapultou os Super-Heróis para o Século XXI”, vamos conhecer em profundidade a polêmica passagem do autor escocês Mark Millar por essa poderosa HQ.


The Authority” foi uma série em quadrinhos criada por Warren Ellis e Bryan Hitch em 1999 para o selo Wildstorm. Como visto no artigo anterior (não leu? clique aqui), essa HQ revolucionou o conceito de super-herói, levando seus feitos a uma escala nunca antes explorada na Nona Arte. E foi Mark Millar quem recebeu a difícil missão de dar continuidade ao brilhante trabalho iniciado por Ellis (que esteve à frente do título por 12 edições). Convidando seu conterrâneo escocês Frank Quitely para desenhar, Millar aumentou as apostas, levando o “The Authority” a um nível ainda mais alto. Abraçando de vez a premissa de “supergrupo que cumpre seus objetivos a qualquer custo sem respeito às soberanias nacionais”, o autor visionário tornou a equipe mais proativa do que nunca.

The_Authority_wide 1.jpg

Entretanto, a fase Millar foi marcada por muitos problemas. O primeiro foi a saída do desenhista no meio do caminho. Quitely recebeu do amigo Grant Morrison um convite irrecusável para ser o artista regular da série “New X-Men” na Marvel. Outro problema foram os atentados do 11 de setembro de 2001. De repente, a crônica politicamente incorreta do título, com direito à destruição em massa de cidades, se tornou um embaraço, levando a editora a exigir mudanças nos roteiros. E a terceira questão foi a censura que a revista sofreu. Os argumentos ácidos de Millar levaram à imposição para que cenas de mutilação, submissão e até necrofilia fossem refeitas ou suprimidas.

No tempo em que esteve à frente do título, Mark Millar escreveu três arcos. Em Natividade (volume 1 - #13 ao #16), o grupo está às voltas com o nascimento da nova encarnação do Espírito do Século em Singapura, entretanto, em seu caminho está uma equipe de supersoldados criados por uma iniciativa militar americana, comandada pelo gênio Jacob Krigstein (não por acaso, o nome do cientista soa como o nome original de Jack Kirby e todos os meta-humanos criados por ele são análogos dos heróis Marvel). A polêmica fica por conta do comportamento dos ‘heróis’; temos um ‘Capitão América’ estuprador compulsivo, que inclusive violenta um dos membros do Authority; um ‘Homem de Ferro’ que chacina bebês na maternidade e um ‘Gigante’ que joga um Boeing cheio de passageiros em cima dos inimigos.

The_Authority_wide 2.jpg

Em Terra Inferno (#17 ao #20), o planeta se voltou contra a humanidade usando todo tipo de cataclismo para dizimar a raça humana. O Doutor, que é o xamã da Terra e poderia resolver tudo num estalar de dedos, é encontrado às portas da morte com uma overdose de heroína. Em meio a vulcões, supertempestades, tsunamis e até enxames de insetos carnívoros, o Authority descobre que um antecessor do Doutor, obcecado com genocídio, está envolvido. O vilão chantageia a equipe, prometendo desfazer as catástrofes se o grupo lhe devolver os poderes de Doutor por 24 horas. A saída encontrada pela equipe para enfrentar o vilão? Evacuar a Terra e torcer para que todos tenham um lar para onde voltar após a batalha.

The_Authority_wide 3.jpg

O arco Bravo Novo Mundo (#22 e #27 ao #29) marca os atrasos, a censura e a interrupção da série pela saída de Quitely. Assim, Millar encerra sua passagem pelo título narrando o confronto dos heróis com uma nova formação do Authority, sancionada pelo governo e a serviço dos ricos e poderosos. A Wildstorm mandou que fossem refeitas cenas com um crânio sendo estraçalhado e uma heroína submissa que permite que seu mestre despeje cinzas de charuto na sua boca. Mas a censura mais marcante envolveu a insinuação de que o líder do novo Authority mantinha relações sexuais com o cadáver de Jenny Sparks. Na história, uma cadeia de eventos levou à quase destruição do multiverso. Numa atitude inusitada, a equipe decide deixar a humanidade à própria sorte, para que aprenda a resolver seus problemas sem depender de super-humanos para limpar a própria sujeira.

The_Authority_wide censura.jpg

A edição #21 não faz parte da fase Millar. Escrita por Doselle Young e desenhada por John McCrea (desenhista da HQ “ Hitman” de Garth Ennis), foi usada para lançar a série spin-off “The Monarchy”. Jackson King, ex-líder do Stormwatch, que atuava como apoio logístico do Authority na ONU, largou tudo para montar a equipe “The Monarchy”. O objetivo do grupo era combater a Chimaera, congregação de versões malignas do Authority de outras dimensões, que desejava conquistar o multiverso. A série teve apenas 12 edições publicadas nos EUA entre 2001 e 2002 e permanece inédita no Brasil.

Do número #23 ao #26, Tom Peyer e Peter Nguyen entraram com um arco ‘tapa-buraco’, enquanto Millar se adaptava à mudança de artista. “Transferência de Poder” narra as aventuras da equipe de estimação do governo americano. Embora os eventos estejam ligados à trama iniciada por Millar, a queda de qualidade das histórias era visível e o arco trouxe pouca coisa digna de nota.

Uma curiosidade é que, na edição #28, Grant Morrison atuou como ‘escritor fantasma’ para Millar, que estava hospitalizado com suspeita de câncer. Millar estava preocupado que o desenhista Art Adams não ficasse parado aguardando um roteiro e recorreu ao amigo, mentor e conterrâneo. Acredita-se que o episódio tenha sido o pomo da discórdia, que levou os escritores a romperem a longa parceria, pois Millar teria pedido discrição ao amigo, que teria contado para todo mundo seu feito. O nome de Morrison somente foi creditado anos depois na versão encadernada do arco.

The_Authority_wide 4.jpg

Um detalhe interessante é que na seção de cartas da edição #23, o editor John Layman informa que Mark Millar e Arthur Adams retornariam no #27 para concluir o arco iniciado na edição anterior. Depois disso, segundo o editor, Garth Ennis e Bryan Hitch dariam continuidade à série e Brian Azzarello e Steve Dillon depois deles. Infelizmente, essa previsão nunca se confirmou e os autores que deram sequência ao belíssimo trabalho de Ellis e Millar não conseguiram manter a verve que deu origem à equipe de super-heróis mais proativa já vista nas HQs.

Apesar da passagem conturbada pelo título, Mark Millar deixou seu legado para os quadrinhos de super-heróis. Uma marca profunda que se faria sentir ao longo de uma década, repercutindo em múltiplas editoras. Não por acaso, Millar, juntamente com Bryan Hitch, foi convidado pela Marvel para criar a versão Ultimate dos Vingadores: “The Ultimates” (“Os Supremos” no Brasil). Este material, com releitura realista dos heróis e traço emulando rostos de grandes astros de Hollywood, serviria de material base para a transposição dos heróis Marvel para o cinema.

The_Authority_wide 6.jpg

Na edição que encerra a fase de Millar no título, a frase final de Jack Hawksmoor resume bem a mensagem que “The Authority” deixou para a posteridade: “Aqueles que ouvem como zumbem os átomos já não podem ignorar os gritos de socorro dos campos de concentração do terceiro mundo. Os de capa e máscara já não recebem a mesma adulação que antes por sair à noite e aparecer para os pobres. Mudamos as coisas para sempre, já não há como voltar atrás”. Uma coisa é certa, para melhor ou para pior, os super-heróis nunca mais foram os mesmos depois de “The Authority”!


Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano....
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Jose Carlos Belo