em busca de ideias perdidas

Uma coleção de ideias e pensamentos sobre Arte, Literatura, Comportamento e Conhecimento

Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano...

Centenário de Jack Kirby – Seria Ele Realmente Importante?

Este ano, Jack “Rei” Kirby completaria 100 anos. Mas qual a verdadeira importância desse artista tão consagrado? Há quem questione seus méritos por causa de seu traço. Mas seria esse o critério certo para julgá-lo?


Neste mês de agosto de 2017, Jack Kirby estaria completando 100 anos. O Centenário do Rei dos Quadrinhos é motivo de júbilo para qualquer fã da Nona Arte que se preze. Entretanto, o que me traz a estas humildes linhas é um sentimento de revolta. No campo de comentários de um site de notícias de quadrinhos, testemunhei uma verdadeira atrocidade. Alguém levantou a lebre sobre a relevância da obra de Kirby, porque não achava seus desenhos tão bons assim. O pobre diabo questionou se o Rei não estaria sendo superestimado ou apenas louvado como um modismo intelectualoide. Disse inclusive que o título de "Rei" seria um exagero...

Ora, eu entendo que opiniões divergentes podem e devem ser respeitadas. O que me deixou perplexo foi o total desconhecimento histórico que aquela excrescência em forma de comentário deixou vazar na tela do meu tablet. Questionar a relevância da obra de Jack Kirby meramente pelo valor estético do seu traço é como dizer que não entende a importância dos Beatles porque o Ringo Starr era feio.

Kirby2.jpg Jacob Kurtzberg ou Jack REI Kirby (28.AGO.1917 - 06.FEV.1994)

O meu recado para este caro comentarista pseudo-leitor de quadrinhos é:

1º - Jack Kirby era, em primeiro lugar, um artista e, em segundo lugar, foi um profissional que esteve à frente de inúmeras funções na indústria dos quadrinhos. A saber, ele foi sim desenhista, mas também foi editor, roteirista, arte-finalista, letrista, argumentista e criador de conceitos e paradigmas que permanecem como dogma até os dias atuais;

2º - Jack Kirby criou na década de 1940, juntamente com Joe Simon nada menos que o Capitão América. Além disso, seus quadrinhos de Guerra e Western eram campeões de vendas (na década anterior, o Rei já se dedicava aos quadrinhos da literatura Pulp);

Monstros Kirby.JPG

3º - Na década de 1950, Jack Kirby foi expoente de HQs de ficção científica (gênero predominante na época), com criações imortais para os quadrinhos de monstros da Marvel (personagens que são “requentados” até hoje pela editora nos quadrinhos e até nos desenhos animados). Dentre muitos monstros famosos, teve um tal de Groot (1959), que acredito que dispensa apresentações;

4º - A década de 1960 nem se fala, Jack Kirby esteve à frente do advento da Era de Prata dos Quadrinhos criando o panteão de super-heróis, vilões, deuses e semi-deuses que viriam a compor o Universo Marvel: Quarteto Fantástico, Hulk, Surfista Prateado, Thor, Vingadores, Galactus, Loki, etc. (e bota etc. nisso...);

kirby_face_front_avengers.jpg

5º - Nos anos 1970, entre uma ida rápida para a DC Comics (Distinta Concorrência) e o retorno à Marvel, Jack Kirby viveria o ápice de sua imaginação incendiária, criando personagens que se tornariam verdadeiros mitos da Nona Arte: Etrigan o Demônio, Kamandi, OMAC, Novos Deuses e o Quarto Mundo, Eternos, Homem-Máquina e Diabo o Dinossauro, entre outras pérolas setentistas (sem falar de uma passagem bombástica pelo Capitão América com a saga “Madbomb” – A Bomba da Loucura, que quase foi enredo do segundo filme do herói no cinema);

Anos 70 Kirby.jpg

6º - Nos anos 1980, o Rei se aventurou por outras paragens, fazendo storyboards para o ramo dos Desenhos Animados, sem nunca deixar de lado sua atuação nas HQs.

O mais incrível é que tudo que foi afirmado acima é apenas um resumo de tudo que Jack Kirby fez. Portanto, ao falarmos do Rei, não estamos falando de um desenhista cuja importância pode ser discutida em termos da beleza (ou não) do seu traço. Estamos tratando de um artista polivalente, cuja produção prolífica abarca pelo menos quatro décadas. Sua estética dinâmica e impactante foi emulada, copiada, reverenciada e seguida por gerações de desenhistas, que fazem questão de render homenagens ao Rei.

E, levando-se em conta que seus conceitos e personagens estão rendendo bilhões de dólares para a indústria cinematográfica no momento contemporâneo (seja para a Marvel/Disney ou para a DC/Warner), percebemos com admiração que tudo que este Deus da Nona Arte concebeu foi e continua sendo relevante.

KAMANDI-SPLASH-JACK-KIRBY.jpg Olhando para esta splash page da 1ª edição de Kamandi não consigo ter outra impressão senão estar diante de uma obra de arte...

Gostar ou não gostar do traço de Jack Kirby é uma questão de opinião. Ninguém é obrigado a curtir. Eu respeito quem não gosta. Mas daí querer usar isso como argumento para questionar o mérito da obra deste homem tão vilipendiado e injustiçado pelo lado negro da indústria dos quadrinhos é complicado, certo?

A arte poderosa de Jack Kirby, cujo apelido de “Rei” é mais do que merecido, continua a esquentar os corações e mentes de quadrinhófilos, nerds e geeks de todas as idades, em todos os continentes. Vida longa ao Rei e que venham mais 100 anos!!!

Jack-Kirby-2001.jpg Esta é uma arte para a adaptação em quadrinhos do filme 2001 Uma Odisseia no Espaço. Magnífica, não?

Eu sou José Carlos Belo, Administrador, Professor Universitário e fã de quadrinhos de super-herois desde que me conheço como gente lá na longínqua década de 1970. Continuo sendo colecionador até hoje, caçando material clássico e livros relacionados à Nona Arte. Mais do que um leitor, me considero um estudioso desse universo rico e cheio de aventura e conhecimento.


Jose Carlos Belo

José Carlos Belo, ou simplesmente Zé, é um professor que gosta de colocar as ideias em movimento e contribuir para um novo olhar sobre o nosso cotidiano....
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