em cada esquina

Que os acasos insistam em nos encontrar

Marina Zotesso

Psicóloga, bailarina e escorpiana. Definida por ser curiosamente ativa, acredita em destino e em amores impossíveis.

@mazotesso

Não morra antes de ver Sergei Polunin dançar

O bailarino que emocionou a milhares de pessoas, quebrando os padrões tradicionais da dança e encantando através da arte e da música.


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Faço menção à Sergei Polunin como representante, neste momento, de todos os bailarinos, sejam eles profissionais ou amadores, mas que de alguma forma dedicam parte de sua vida à arte. E que como os demais, não fogem à exceção da regra primordial: A rigidez a qual se deve o balé.

O ucraniano Sergei Polunin começou a dançar aos três anos de idade. Aos treze, mudou-se para Londres, onde passou a viver sozinho, treinando no Royal Ballet, com 19 anos se tornou o mais novo bailarino principal da história da companhia. Após uma sucessão de boatos sobre sua conduta pessoal, somado a pressão dos inúmeros ensaios, Sergei abandona a companhia aos 22 anos de idade.

A breve história do bailarino nos leva a certas reflexões sobre a dança, bem como à profissão do presente protagonista. É notório como a dança recebe pouco reconhecimento em meio a cultura brasileira em particular, enfatizando outros valores como referência de arte. Porém, se ao menos soubéssemos quantas tentativas foram necessárias para realizar uma pirueta perfeita ou para um grand écart, valorizaríamos mais a dança, e não somente ovacionaríamos os jogadores de futebol. Nada contra tal prática esportiva, apenas saliento que no balé, em especial, nunca marcamos o gol, pois não há movimentos perfeitos, há apenas a aproximação do ideal almejado. A dor e a frustação andam de mãos dadas, para que o reconhecimento por isso seja mínimo.

Após um período de revolta pelas regras e rigidez que eram impostas por tal modalidade de dança, Sergei proporcionou ao mundo, através de um vídeo que teve um número surpreendente de acessos, o poder da dança. Em um contexto atípico, conduzido pela canção “Take me to church”, que por sua vez também é repleta de significados contra a homofobia, o bailarino mostra o balé clássico visto de um modo até então inusitado.

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Impossível é ver e não admirar-se, olhar e não enxergar a beleza em cada passo e movimento. Dessa forma, é preciso que a dança não apenas seja vista de forma leviana, mas sentida, observada e admirada. Sergei nos apresenta em aproximadamente 4 minutos um dado concreto, de que a música somada ao conjunto de passos milimetricamente pensados e elaborados consegue chegar além dos nossos olhos, chega a um lugar que outrora foi reprimido dentro de nós, que não nos permitiu levantar e dançar conforme a música. A dança nada mais é do que a aproximação simbólica ao voo dos pássaros, permitindo que o céu fique mais próximo a cada passo.

Somente aquele que se pôs frente a uma plateia, sob um palco, submetido a julgamentos e aplausos, aquele que aprendeu a superar os limites, sejam eles corporais, gravitacionais ou até mesmo psicológicos, pode dizer o que é ser um bailarino.

Somos aquilo que nos move e que nos guia. E sinceramente, torço a todo momento para que haja, assim como Sergei Polunin, mais pessoas que me façam levantar do sofá para dançar, e acreditar que para cada giro precisamente equilibrado sempre haverá um aplauso em meio a plateia que entendeu a beleza do sonho de um bailarino.

Por um lugar onde haja mais Sergei Polunin, mais eu, mais você, mais um corpo de balé que acredita na arte e no movimento como inspiração para a vida. Pois ao final, o que todos esperaram quando as cortinas se fecham são os aplausos. Eles é que alimentam a verdadeira dança da alma.


Marina Zotesso

Psicóloga, bailarina e escorpiana. Definida por ser curiosamente ativa, acredita em destino e em amores impossíveis. @mazotesso.
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