em cada esquina

Que os acasos insistam em nos encontrar

Marina Zotesso

Psicóloga, bailarina e escorpiana. Definida por ser curiosamente ativa, acredita em destino e em amores impossíveis.

O feitiço do tempo

O que o tempo nos roubou, que encontremos como destino


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Eu pensei que nunca me curaria daquele resfriado, mas minha mãe passou o final de semana em casa e levou embora as doenças do corpo e da alma.

Eu pensei que nunca arrumaria novos amigos, mas as dificuldades tornaram-se pontes para reconhecer novos irmãos ao longo do caminho.

Eu acreditava que era impossível se equilibrar em sapatilhas. Então, o dom e a paixão de ser bailarina me fizeram girar, sem cair, por inúmeras vezes na ponta dos pés.

Eu pensei que não suportaria te ver partir, mas o tempo encarregou-se de juntar meus pedaços.

Eu pensei que jamais poderia ajudar alguém, até o dia que me tornei psicóloga.

Eu achei que a saudade acabasse, até o dia que meu avô me deixou.

Eu pensei por muitas vezes, que não tinha mais forças para continuar, foi quando duas janelas se abriram ao mesmo instante e restauraram a esperança.

Eu pensei que ninguém ouvia o choro de dor que vinha da minha alma, até o momento que Deus voltou seu olhar para mim.

Eu pensei que o meu destino estaria fadado a solidão, até o dia que seu sorriso encontrou o meu.

Eu achei que determinadas situações não teriam mais solução, mas somente ao nascer de uma nova rosa que lembrei-me do poder de regar mais vezes o jardim.

Eu pensei que contos de fadas não existissem, até o dia que eu me tornei princesa para alguém.

Eu acreditei que ser gente grande era importante, até perceber que crescer dói, e muito.

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E o tempo é assim, carregado de ensinamentos, lembranças e sonhos. A verdade é que na maioria das vezes, acabamos por perdendo-o, ou administrando de forma incorreta. A cada dia que amanhece começamos uma nova contagem regressiva, para no dia seguinte recomeça-la, e assim faremos com os meses e com os anos. Sem ao menos percebermos o valor de cada segundo vivido.

Se o tempo me desse um presente, eu voltaria atrás e me despediria corretamente de muitas pessoas. Daria um abraço nos amigos que nunca mais vi, mas ainda morro de saudades; um beijo em todos aqueles que de um dia para o outro me deixaram e viraram anjos; teria me despedido pessoalmente daquele que viveu comigo por anos.

Teria mudado o rumo daquela viagem, e passado por São Paulo pra te reencontrar. Teria menos vergonha de coisas tão bobas, e andado de mãos dadas com minha madrinha pela rua enquanto ainda a tinha. Talvez até adotaria aquele cachorro que encontrei perdido na rua em MG.

Teria feito aquela tatuagem. Teria comprado aquele vestido, e com certeza teria reparado mais na beleza dos olhos de cada um que passou pelos meus dias.

Por fim... “Devia ter amado mais, chorado mais, ter visto o sol nascer, devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer.”

O grande mistério do tempo, se encontra alojado na incerteza. Embora nossas escolhas nos chamem muitas vezes a recriar o passado, talvez o destino que nos caiba seja justamente recomeçar um novo hoje. Deixar de conjugar nossos verbos no passado e apreciar o gosto do presente. Pois embora o tempo seja repleto de alegrias, dores, certezas e incertezas, nunca é tarde demais para que o “deveria” se torne o “devo”, para que o “pensei” seja o novo “penso”. Afinal, a magia de viver o exato momento da forma que bem desejarmos não há ontem que pague.

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Marina Zotesso

Psicóloga, bailarina e escorpiana. Definida por ser curiosamente ativa, acredita em destino e em amores impossíveis. .
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