em cada esquina

Que os acasos insistam em nos encontrar

Marina Zotesso

Psicóloga, bailarina e escorpiana. Definida por ser curiosamente ativa, acredita em destino e em amores impossíveis.

Onde estão nossos heróis?

Crescemos acreditando em heróis, crianças ainda sustentam a ideia de poderem brilhar e orgulhar o país com os poderes que nos são dados, a coragem e a determinação de atletas. Mas até que ponto agimos nós, os brasileiros como um time, e orgulhamos nossas crianças dando o devido exemplo?


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Quando era criança acreditava que heróis eram aqueles que faziam parte dos gibis, aqueles que salvavam o mundo nos filmes, com roupas estilizadas, e dotados de superpoderes. Na minha infância, acreditava até mesmo que os heróis estavam presentes nos contos de fadas, afinal, para ser herói exigia do protagonista coragem, determinação e certo brilho único que o destacava em meio a população.

Assim como qualquer criança, seja de qual época ou geração que pertença, foi obrigada a lidar com certos fatos frustrantes do processo de crescer. É notório que tais fatos são naturais, pertencentes ao processo do desenvolvimento humano e do aflorar da maturidade, porém, há alguns fatos que mais do que desilusão, são decepcionantes a longo prazo.

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Recentemente me peguei analisando o modo como a seleção de futebol do nosso país conduzia os jogos. O que faz um vencedor, nem sempre é o fato de vencer em si, mas de lidar com situações adversas, e ainda assim sobressair-se a tais situações. Parece confuso, concordo, mas por um momento reflita comigo qual posição seria mais digna: Um time que ganha mas não sabe honrar a camisa que veste e o que ela representa, ou aquele time, que mesmo na derrota, permanece unido, com respeito acima de tudo por quem os olha e os admira, que busca e tenta ser melhor, não por si, mas por saber que existe uma nação que os admira e se inspiram em tal profissão.

Sei bem, que pouco sou digna de dizer o que é certo ou errado, julgar ou apontar defeitos alheios. Mas algo sempre retorna ao meu pensamento, qual seria o diferencial da seleção de futebol da Alemanha por exemplo? Acuso dizer que mais do que um jogador estrela, eles tem um time, uma união e um preparo em equipe. Preparo esse que vai além dos holofotes e dos estádios de futebol. Após a copa do mundo, realizada no Brasil, tal seleção dedicou-se a ajudar uma comunidade carente que os recebeu neste período, e acredite se quiser, a copa passou, os jogos acabaram, mas eles ainda contribuem para o crescimento e desenvolvimento das crianças e jovens brasileiros que carinhosamente os hospedaram. Imagens como essa é que enchem o coração de alegria e esperança no futuro, afinal o futebol é uma profissão, como a minha de psicóloga, como a sua de engenheiro, e que no final, se dedica a auxiliar e a ser exemplo aos demais. Volto a dizer que acredito que a vida peça por mais uniões, por equipes e não apenas por individualidade.

Eu cresci vendo o Brasil ganhar. E foi nisso que acreditei e onde me sustentei durante a vida. O orgulho de vestir verde e amarelo. Eu cresci vendo o Ronaldo marcar gol, vendo as crianças na minha rua cortarem o cabelo igual ao dele, vendo meus vizinhos usar a camisa da seleção e ter orgulho da melhor marca que carregavam no peito: O nosso país. E mais do que futebol, eu também cresci vendo o Guga ser ovacionado, virar selo e ídolo. Eu cresci vendo a Dayane do Santos superar barreiras da acrobacia e ganhar seu próprio nome em um salto. Vi a Maurren ganhar o ouro e também pela TV puder ver, o time do Bernardinho fazer peixinho e orgulhar o Brasil.

Todos nós aplaudimos o Medina, e lutamos pelo Anderson Silva em cada vitória. Todos nós, já somos, fomos ou ainda seremos patriotas, e sabe porquê? Por que amamos nosso país e nos orgulhamos das pessoas que vão lá, tem a coragem que muitas vezes nós, que no sofá ficamos, não tivemos, de tentar e vencer.

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Aprecio e admiro de modo ímpar todos os nossos atletas, pois só quem sabe a luta vivida contra o sono todas as manhãs para ir a aula de Pilates e voltar com dores, imagina o que se passa na vida de um vencedor.

A minha única angustia ronda sobre o fato de que somos parte de fanatismo pouco duradouro, fadados a uma desilusão a todo momento. Amamos enquanto eles são vencedores, julgamos por toda uma eternidade os perdedores. Trocamos de ídolos como trocamos de roupas. Será que ao final, nós mesmos é que não honramos o nosso país?

É certo que um time é composto pela união dos membros que ali estão. Também é fato que futebol brasileiro não se resume ao Neymar. Mas até que ponto nós, os brasileiros somos um time? Crescemos em uma cultura onde ganha o mais forte, e naturalmente o mais fraco perde e é enterrado para o anonimato, então julgar o time quando perde, mudar o técnico mais do que mudamos de celular anualmente, define quem somos, ou quem queremos ser?

Amamos o Guga, o Medina, o Anderson Silva e o Neymar até que derrota nos separe. Afinal, quem poderá nos defender na hora de honrar nosso país? Ninguém além de nós mesmos.

Se não tivemos a dignidade de assumir que as vezes perdemos, que em outras vezes nossos ídolos irão errar, mas que ainda assim vestiremos a camisa do Brasil e teremos orgulho daqueles que ao contrário de nós, não tiveram medo do julgamento, que acreditaram nos sonhos e no país e que levantaram do sofá para lutar. Não vestiram capas, nem tão pouco roupas coloridas de super heróis, apenas acreditaram no poder de uma nação, se ainda assim não acreditarmos e assumirmos isso, seremos nós os eternos perdedores.


Marina Zotesso

Psicóloga, bailarina e escorpiana. Definida por ser curiosamente ativa, acredita em destino e em amores impossíveis. .
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