em cada esquina

Que os acasos insistam em nos encontrar

Marina Zotesso

Psicóloga, bailarina e escorpiana. Definida por ser curiosamente ativa, acredita em destino e em amores impossíveis.

@mazotesso

Assuma que é hora de partir

Não é porque o último gole já foi dado que a culpa é sua. Há certas realidades que nem mesmo o destino pode alterar. Compreenda de uma vez por todas que em algumas situações não importa o quanto você tente ou insista, a porta já está trancada.


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Uma das tarefas difíceis da vida é assumir determinadas coisas aos outros... assumir que amamos, que sentimos saudades ou até mesmo assumir que já não existe mais amor. Se essa tarefa já exige de nós o suficiente de dor, imagine assumir algumas verdades a nós mesmos. Às vezes é mais fácil viver acreditando em contos de fadas do que aceitando que nem sempre nossas histórias terão um final feliz.

Ainda prefiro a opinião de que antes de partir devemos tentar, sim! Expor nossos sentimentos e nos comportarmos de modo a expressar ao outro a diferença que ele faz em nossas vidas. Afinal, quantas oportunidades perdemos ou deixamos escorrer entre os dedos simplesmente por não dar motivos para alguém ficar.

Vivemos em uma sociedade que cada vez mais é fria com o próximo, mas acima de tudo fria consigo mesma. As pessoas estão mais preocupadas em planejar vinganças, em procurar informações passadas sobre ex e esquecem-se do principal: de demonstrar o afeto.

Porém, se uma coisa eu aprendi com o tempo, e de certa forma com a crueldade do ser humano, é que devemos estabelecer limites para tudo. Há tempos me canso do mesmo repertório que nos ronda e me pergunto se seria um tipo de virose moderna as pessoas atribuírem culpa a um passado ao qual suas expectativas lhes foram negadas. Sei bem, que determinados términos, geram traumas e consequentemente exigem tempo para que feridas se curem e novas possibilidades possam ser levadas em consideração. Contudo volto a salientar, essa nova “epidemia” se estende para todas as classes, faixas etárias e agora por tempo indeterminado, dando dessa forma a possibilidade para que o romance que o outro almeja se torne algo banalizado.

Comum e aparentemente moda é dizer que está em uma “fase” difícil. Meu amigo, fase a gente passa e chega no chefão, dá um jeito de ganhar e começar um novo jogo. Não sei sinceramente em que momento as pessoas se esqueceram que para todo fim há um recomeço, que para toda história interrompida há um amadurecimento implícito.

Assumir que é hora de partir é recomeçar sua história, seja em qual ponto de vista você se encontrar. Parta dessa indiferença com o sentimento de quem te acolhe; e parta você também que se força a amar alguém que não supera nem mesmo as próprias fases do desenvolvimento humano.

O melhor da partida, é que ao longo da caminhada (que pode sim durar algum tempo) você deixa de lado a visão voltada somente para o sentimento e começa a agir de forma racional. A caminhada te proporciona o amadurecimento, desde que você queira vive-lo, caso contrário estará fadado a viver aprisionado em suas “fases”.

Quando me refiro às “fases” há quem pense que posso estar sendo leviana e até mesmo irracional em dizer que não devemos dar tempo para o coração respirar. Mas eu te garanto que esse ponto de vista não é o correto. Todos vivemos nosso tempo, há tempo para amar, para descansar e para recomeçar. Porém, aquele que não tem a coragem de recomeçar se conforta dentro de uma fase, isolando-se e perdendo muitas vezes a chance de viver o prazer que é aceitar uma porta fechada, mas uma linda janela aberta em sua direção.

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Assumir é compreender que há determinadas situações que devemos mudar, e ao mesmo tempo entender que para outras é necessário aceitar que não há mais nada que possamos fazer para altera-la.

Assuma para si mesmo que é hora de partir. Não viva em um relacionamento abusivo, no qual você é o maior protagonista do abuso. Você se força a ficar, se força a sofrer, se força a tentar mesmo sabendo que não há mais chances do retorno acontecer.

Assuma que sente a falta de alguém, mas que nem sempre o sentimento será recíproco.

Assuma que o vento às vezes muda o percurso de nossas vidas, e nos encaminha a novos horizontes. Aceite que do outro lado também há esperança, sobretudo no amor, do outro lado ainda há um novo começo esperando por você.

Assuma que os caminhos da vida não erram. Por isso não pegue atalhos, não insista naquilo que não te completa, que não te preenche e que não te assume.

Não é porque o último gole já foi dado que a culpa é sua. Há certas realidades que nem mesmo o destino pode alterar. Compreenda de uma vez por todas que em algumas situações não importa o quanto você tente ou insista, a porta já está trancada.

Lembro- me de uma passagem específica de um livro que particularmente considero como terapia e purificação para a alma (quando visto com bons olhos) chamado “Comer, rezar e amar” na qual os personagens expõem o seguinte diálogo:

- Mas eu ainda o amo!

- Então ame-o, mande amor e luz toda vez que pensar nele, e depois esqueça. Não vai durar para sempre, nada dura.

Está ai, escrito em poucas palavras a chave para o que chamamos de desapego. Desapegar-se assim como partir não provém de um ato de impulsividade misturado com raiva e rancor, mas sim da maturidade de saber que se ama alguém, mas se deve partir quando não há reciprocidade.

Partir não significa perder, os maiores privilegiados na vida foram os que tiveram a coragem de partir na certeza de que embora houvesse a dor, ainda assim o amor maior deve ser por si mesmo.

Perdoe as magoas do seu coração e continue a caminhar. Perdoar também é assumir que é hora de partir. Uma nova história só se inicia quando finalizamos nossas pendências emocionais.

Porque toda despedida é um recomeço.


Marina Zotesso

Psicóloga, bailarina e escorpiana. Definida por ser curiosamente ativa, acredita em destino e em amores impossíveis. @mazotesso.
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