em construção

A vida acontece no durante

Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras.

Não te desejo um Feliz Ano Novo nunca mais

De certa forma, buscar o novo, incessantemente, nos leva sempre ao mesmo lugar. E lá não tem nada de novo. É uma busca pelo o que ainda não achamos e que nem sabemos se existe. E ao que me parece, essa busca dura para sempre e impede que vejamos a beleza do que é comum, do que já está por aqui.


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Não vou desejar um Feliz Ano Novo. E não é porque não gosto de você. É que a espera pelo novo pode sufocar. Esperamos tanto a nossa vez chegar que esquecemos de olhar para quem está do nosso lado, nos esquecemos de que ali tem uma pessoa com quem pode ser ótimo bater um papo. Não olhamos a paisagem do lado de fora da janela para perceber o que acontece.

Esperamos a próxima semana e ainda nem é quarta-feira. Esperamos o novo amor e olha quanto amor já temos por aqui. Esperamos o que não está. Desejamos o que não existe. Buscamos a ausência. E quanta presença deixamos de sentir.

Saboreamos um bombom olhando para a caixa para saber qual vai ser o próximo. Ouvimos uma música já sabendo qual vai tocar em seguida. Enquanto executo uma tarefa, estou pensando em quantas mais vem pela frente. Cruz credo!

Como podemos esperar o tempo todo acontecer o que não sabemos se vem? E se o que vem não quiser vir? Vamos esperar até quando?

Esse ano vou desejar diferente.

Desejo que você celebre o início do ano que chega com a simplicidade de um ano qualquer. Aliás, como celebra todos os outros dias do ano. Cada dia é o ano, só que acontecendo aos pouquinhos.
Feliz é não se importar com o ano em que estamos. O que isso importa? De verdade, que diferença isso faz? O que muda do dia 31 para o dia 1 além de um novo calendário na geladeira e um bando de metas inalcançáveis anotadas em um papel? Feliz mesmo é quando o ano é livre. Livre para voltar quando quiser. Liberdade de ir e vir mesmo, sem hora marcada. Quando ele é novo, mesmo sem ser.

Até porque, cá entre nós, será mesmo que se ele voltar será o mesmo ano? Se tudo acontecesse exatamente igual seria realmente igual?

Quando insisto em deixar o ano que passou numa gaveta, preso, chamando-o de velho, posso estar gastando muita energia deixando ele ali. Ao passo de que se ele for livre, ele pode chegar e partir e eu também. Pode trazer o que foi bom e deixar o que não foi tão bom assim. A hora que um ou outro quiserem. Prefiro desse jeito. Esperando por tanto que não chegou, perdemos um tempo que não volta, pode apostar.

A busca desenfreada pelo novo não nos permite sentir novos sabores dos mesmos pratos, ouvir novos sons da velha música, se encantar com os trejeitos engraçados e tímidos da pessoa com que estamos. Concluímos as pessoas em duas ou três características e deixamos de nos encantar com as outras partes do mesmo encontro. Deixamos de ver os outros lados da mesma situação. Respondemos, quando deveríamos estar perguntando. E assim perdemos muitas possibilidades.

Se somos tão diferentes por qual motivo desejamos sempre as mesmas coisas uns aos outros? Com o mesmo sorriso sem cor, com a mesma cara de fila de banco? Por isso, eu não te desejo um ano novo; te desejo tudo igual, as mesmas experiências, de uma maneira diferente.

Que você coma dez vezes o mesmo prato, no mesmo restaurante e, se possível, no lugar de sempre. Naquele cantinho perto da janela, pode ser. E que encontre novas características para descrever essa experiência. Que você olhe dentro do olho do garçom de sempre e agradeça a gentileza.
Que você se apaixone várias vezes pela mesma pessoa, mesmo nos momentos em que ela espirra do seu lado. É, eu sei que você já disse que detesta, mas ela parece se esquecer, fazer o que?
Que você ouça mil vezes a mesma música. Isso mesmo, até cansar. Até C-A-N-S-A-R. Looping, looping, looping.
Que você entre muitas vezes na mesma piscina e encontre um quebradinho diferente no azulejo do fundo.
Que você reclame menos que o ano está passando rápido e comemore mais a intensidade do que tem vivido.
Que a vida se mostre nova todos os dias. E não todos os anos.
Que você possa medir sua felicidade em instantes. E que você nem se lembre quanto tempo durou.
Que você leia os mesmos livros, buscando palavras novas, sentidos novos, ou o que mais você imaginar.

Desejo que viva um ano leve, longe das preocupações de saber em que mês estamos, que o ano está passando muito rápido e quanto tempo falta para o Natal.

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Desejo pressa e paciência, sucesso e (muitos) tombos, disciplina e irresponsabilidade, segurança e vontade de sair correndo, dias e noites, inverno e verão. As épocas de chuvas são que nos fazem florescer. Desejo medo e amor, em doses suficientes para você usar quando quiser. Ou um ou outro. Desejo controle e descontrole, paixão e decepção também. Quente e frio. E que se sinta livre para usar o quanto quiser, na hora que quiser.

Pra terminar, desejo que tenha desejos, mas que seja livre deles, para os momentos em que não servirem mais.

E, ao contrário dos outros anos, não te desejo tudo de bom; desejo que se nada for bom, ainda assim você encontre muitos motivos para sorrir. Todos os dias.


Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..
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