em construção

A vida acontece no durante

Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras.

Sobre Quintana, sapatos e outras histórias

A vida está corrida. Estamos vivendo uma bagunça e, de alguma forma, acreditamos que, organizando nossa agenda, organizamos também nosso interior. Trocamos de roupas, trocamos as pessoas e corremos para chegar a algum lugar que mal sabemos onde fica. Na ânsia de chegar, nos esquecemos de apreciar a viagem. E, Mario Quintana, com sua hábil simplicidade, parecia já saber disso há muito tempo.


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Lembro-me da primeira aula de redação publicitária na faculdade. Era a aula que eu mais estava esperando e, quando o professor entrou citando Mario Quintana, tive a sensação de estar no lugar certo. Senti a felicidade de quando toca no rádio uma música que a gente adora. O dia estava nublado e o professor falava sobre metáforas e sobre a leveza com que Quintana escrevia. Mario Quintana, escritor e poeta, falava sobre coisas simples e escrevia de forma tão simples quanto os assuntos que escolhia. É natural ler. É tão óbvio e, por isso, tão genial, dizia o professor.


Mário Quintana disse:


“A morte é quando finalmente podemos estar deitados com sapatos.”


O professor tinha alguns textos decorados. Lembro bem desse. Eu fazia com a cabeça que tinha entendido.


Penso nisso até hoje. Eu não tinha entendido nada.


Quase quatorze anos depois e ainda tenho algumas perguntas sobre o que ele leu. Desculpa ter pensando nessas perguntas muito tempo depois da aula ter terminado, professor. Se Mario Quintana estivesse aqui, eu pediria para ele me explicar:


Seu Mario, o senhor não falou isso porque é o que estamos fazendo o tempo todo? Dormimos de sapatos, com pressa para acordar, levantar rápido e sair correndo? Talvez o senhor estivesse querendo nos avisar que temos uma hora certa para fazer isso. Corrija-me se eu estiver errada.


Eu percebo que hoje sentamos na borda da cadeira para nos levantar mais rápido, queimamos a língua ao tomar café e despejamos na pia o restinho que ficou na xícara, para terminar mais rápido. Falamos ao telefone andando pela casa para termos a impressão de que estamos nos movimentando. Damos beijos de quina e mal temos tempo para deixar a água do chuveiro molhar a nossa cabeça.

Seu Mario, você já sabia que seria assim? As tvs foram para os quartos. Dizem que agora é cafona ter tv na sala. As bibliotecas viraram pequenos nichos porque hoje os livros acumulam muita poeira nas estantes. Há quem prefira ler no computador, acredita? Beijamos muito mais pessoas, mas os beijos duram menos, alguns nem tem gosto de morango e algumas vezes, mal dá tempo de fechar os olhos. Tem gente que deixa o sapato na porta, virando para a rua, apontando a hora de sair. O guarda-chuva molha a casa quando chegamos da rua com chuva. Há quem converse enquanto escreve uma mensagem porque assim dá para fazer mais coisas ao mesmo tempo. A pipoca é devorada e os pensamentos sobre um filme se misturam com um monte de contas para pagar. É que amanhã já é dia 5.

A impressão que eu tenho é de que as pessoas preenchem as agendas como se estivessem preenchendo a si próprias. Há muitas pessoas que sentem saudades delas próprias. Mil tarefas para ticar e um monte de informações para absorver. O relógio voa. Tic-tac-tic-tac-tic-tac. Não temos muito tempo. O mundo parece girar mais rápido, os filmes estão mais acelerados. Nós também. Corremos o dia todo e, quando deitamos na cama, sentimos como se tivéssemos apenas andando para trás. Ou em círculos.

Já vi gente fazendo muito isso. Eu mesma já fiz algumas vezes. O que vejo pouco é gente que só se deita de sapatos nessa hora aí que o senhor falou.

Talvez elas não tenham compreendido, assim como eu não tinha entendido sua mensagem.

Resolvi ler mais sobre sua obra e percebi que já falava disso há muito tempo.

Lembrei de quando disse que “A saudade que dói mais fundo – e irremediavelmente – é a saudade que temos de nós.”

E hoje, eu realmente concordo.

E quando o Senhor disse:

“Adolescência
Idade em que a gente lê sem estar pensando noutras coisas.”


É tão comum ver pessoas que fazem uma coisa pensando noutra. É tão comum fazermos muitas coisas ao mesmo tempo e nos esquecermos do que começamos a fazer ontem. O livro ficou inacabado e a conversa com aquele amigo também. Provavelmente, muitas outras foram deixadas para trás. E há tanto a fazer.


O tempo é poderoso, como o Senhor mesmo disse certa vez: o tempo é “coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.”
Será que é porque temos medo do tempo que deixamos de aproveitá-lo? Não vejo sentido nisso, mas não duvido. Tudo parece estar virado de cabeça para baixo. Ou, pensando melhor, tudo parece estar sem cabeça mesmo.


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Seria incrível se pudéssemos perceber que “os muros gretados são muito mais belos do que os muros lisos.”
Mas, infelizmente, não temos tempo para olhar para os muros. Assim como não paramos para olhar nos olhos das pessoas que amamos.
“Os caminhos estão descansando”, certo? Você escreveu isso uma vez no poema “Paz”. Eu li, mas não foi na aula de redação publicitária.


Tanta coisa que passa. Tanta pressa que fica. Está estranho.
Os diálogos parecem copiar aquele “diálogo ultra-rápido” que escreveu:
“ – Eu queria propor-lhe uma troca de idéias...
- Deus me livre!”


É assim mesmo. Como o Senhor sabia? Já era assim na época em que escreveu?


Queria mesmo que começássemos a perceber a beleza do que é simples.
“Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos”.
Me lembro que isso li um dia. E me lembrou da minha infância. Era tudo tão mais devagar. E simples. E puro. Sinto saudades.


Tomara que o senhor consiga me esclarecer essas tantas perguntas. Talvez dê para entender melhor o que se passa por aqui.
Mas olha, não precisa ter pressa. Eu resolvi que o melhor lugar para os meus sapatos é dentro da sapateira mesmo.


Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..
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