em construção

A vida acontece no durante

Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras.

Eu não sei quem eu sou

Vivemos em uma época em que falamos muito sobre nós mesmos. A impressão que fica é a de que temos tão pouco tempo para nos dedicar a qualquer coisa que não seja ligada à produtividade, que temos que nos resumir para que o outro, que também tem pouco tempo, consiga nos entender mais facilmente. E aí corremos para nos colocar em caixinhas. Falamos sobre o que gostamos de fazer, sobre o que fazemos, sobre o que somos, sobre o que conquistamos, sobre que tipo de música gostamos de ouvir. Falamos, falamos, falamos. Tem uma hora que a busca pelas certezas e pelo o que nos define fica tão intensa que passamos a ter medo de qualquer tipo de dúvida que possa a aparecer na nossa cabeça.


Assim, dia a dia vamos perdendo a espontaneidade, nos enchemos de certezas, ficamos neuróticos com tudo o que parece ser instável ou incerto e perdemos um dos espetáculos mais lindos que a vida nos oferece todos os dias: a leveza de não saber, a vontade de viver o inesperado, o desconhecido.

Quando criança, eu sonhava em ter todas as respostas sobre quem eu era na ponta da língua. Eu não sei onde aprendi isso, mas queria que quando me perguntassem a minha cor preferida, eu dissesse de bate-pronto: azul. Confesso que tive que inventar algumas respostas porque eu simplesmente não sabia. Às vezes, até era o azul mesmo, mas já foi branco, preto e rosa, então eu inventava e acreditava em tudo o que eu definia porque assim eu não tinha que pensar qual era a minha cor preferida naquele dia.

E o meu estilo? Eu me considerava só uma pessoa normal, que se vestia normal. Acordava, abria meu guarda-roupas, dava uma olhada e pegava uma roupa que caía bem no dia. Quando entrou essa história de estilo, tudo ficou mais chato. A roupa de hoje tinha que fazer sentido com a de ontem, se não eu estaria me descaracterizando. Se não eu não estaria sabendo quem eu era e isso era um perigo. Como não saber quem eu sou?

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Nós passamos a ter vontade de ter sentido para as pessoas. Temos que seguir um estilo bem definido para que sejamos coerentes com o que esperam de nós. O louco é que ninguém pediu nada e posso arriscar que isso é quase uma doideira qualquer que a gente inventa para ter mais trabalho na vida. Coisas que a sociedade coloca na nossa cabeça, a cultura, a vida corrida, não sei. Só sei que cansa.

Para hoje e só por hoje, eu proponho uma prática: a de não saber quem você é. Se deixe surpreender pelas surpresas do que você sente, pensa ou vive. Encante-se por todas as partes de você que ainda desconhece. Ria quando alguém te perguntar qual é sua fruta preferida e você não saber se é abacaxi ou manga.

Será mesmo que temos que saber preencher todas as lacunas sobre nós mesmos? Responder todas as perguntas de uma vez só?

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Experimente acordar sem saber quem você é. Olhe-se no espelho e surpreenda-se com a pessoa que está refletida ali. Repare bem o que percebe e o que quer para o seu dia. Pode não fazer nenhum sentido com nada. Apenas escolha o que te faz bem no momento.

Faça planos para não se encaixar nos planos que definiu previamente para você. Pinte a unha com uma cor nova e nada a ver com seu estilo, compre as primeiras roupas que achar mais bonitas, escolha filmes de estilos e gêneros diferentes do que está acostumado, conheça pessoas diferentes das que convivem com você. Deixe-se surpreender com o novo. Uma coisa eu garanto: se não gostar da escolha do dia, pelo menos vai se divertir bem mais.

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Tem dias que eu acordo e gosto de ouvir reggae. Em outros, até gosto de funk. Tem dias que gosto de ouvir MPB e se você ligar um samba perto de mim, vou querer desligar rápido. Mas tem horas que é completamente diferente disso. E como é libertador saber que a gente pode mesmo não saber. É a nossa vida e a gente pode ser qualquer coisa. E ai de quem achar que não faz sentido.

Caso alguém pergunte algo que você não saiba responder sobre você, fale para ela que você vai pensar no assunto. E ria disso. É bem mais fácil encontrar uma solução se fizer dessa forma porque é tudo sempre como você encara. E com leveza fica bem mais leve.

Num mundo em que as mídias sociais falam mais do que a nossa voz, em que nos colocamos em vitrines para que os outros nos vejam como produtos bem posicionados, é bem interessante quando a gente encontra alguém que pensa um pouquinho diferente disso e se propõe a viver de forma inteira. Ser inteiro é ser tudo o que você é naquele momento, mesmo que não saiba direito o que é. Chato e legal, falso e verdadeiro, feliz e triste, gentil e grosso, bem resolvido e não tão bem resolvido assim. Tudo bem. Tem dias que é assim e tem dias que é assado. Tem dias que chove e em outros, faz sol.

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E, se você reparar, as pessoas que não sabem são bem mais legais do que as que sabem. As que não sabem querem aprender, sorriem à toa, falam sozinha na rua, riem de si mesmas, definem novos caminhos com muito mais facilidade e podem comer comida mexicana ou japonesa com a mesma sensação de que estão comendo sua comida preferida. Muito mais possibilidades.

Experimente ser mil. Se alguém te perguntar do que gosta, responda as primeiras coisas que vier na sua cabeça, mesmo que pareça não fazer sentido com o que disse ontem. O sentido que faz para você pode não fazer para o outro, então mesmo que tente controlar ao máximo, você nunca vai saber o que pensam de você sobre fazer sentido ou não.

Não sei você, mas eu gosto da ideia de mudar de ideia. E confesso que a cada dia que passa sei menos quem eu sou. Ainda bem.

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Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..
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