em construção

A vida acontece no durante

Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras.

Não aceito mais que façam a entrega no endereço errado

O controle e a rigidez para sermos quem achamos que querem que sejamos nos impede de sorrir sem jeito, espirrar no meio da rua, rir de nós mesmo, com vontade, dançar na chuva, beijar sem intenção, dizer o quanto amamos, cumprimentar um estranho despretensiosamente, comer manga do pé, fazer o que dá na telha mesmo. E só nós podemos mudar isso. Até porque nunca vamos saber realmente o que esperam de nós. E ainda que saibamos, o que isso importa? O que importa se tudo isso só nos afasta mais de quem somos?


Cresci acreditando que quanto mais rápido eu respondesse as perguntas sobre mim, mais eu me conheceria. Eu sempre fui aquela que sonhava com respostas prontas: frase preferida, animal de estimação, hobby, sonhos...tudo isso, de bate pronto mesmo. Tinha que definir tudo, o mais rápido possível. E ter tudo na ponta da língua.
E, depois de me encaixar em todos os quadradinhos, depois de ligar todos os pontos, depois de saber meu prato e minha cor preferidos, eu percebi que tudo isso talvez definisse muitas pessoas, mas de longe me aproximava de conhecer a pessoa que sou.

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Eu sei minha música preferida, mas não sabia cantar de olhos fechados, mesmo que eu quisesse muito. Acreditava que quando abrisse os olhos, alguém estaria rindo de mim. Eu sei que amo usar calça jeans, mas sempre me preocupei que descobrissem que adoro usar calça pescador, com a bainha dobrada mesmo. Eu gosto de dançar forró, mas sempre me recusei a dançar por não acreditar que danço bem.

Um dia, me olhei no espelho e não me vi mais. A vida estava estranha agora. Tudo normal, tudo igual, tudo na mais perfeita ordem, mas alguma coisa não encaixava mais tão bem. O script só precisava de alguns ajustes no roteiro original, mas agora eu não sabia mais o que estava acontecendo. Estava quase tudo perfeito, 50% resolvido, no mínimo. Os sonhos ali, a um palmo, tão perto. Estava quase tudo perfeito. Se não fosse a minha olhada no espelho naquele dia, talvez tudo estivesse como antes. Não entendi o que mudara, mas entendi que mudara. Só que fui eu que resolvi olhar no espelho naquele dia.

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Foi como se eu tivesse visto o que não era para ver. Como se tivesse aberto um quarto secreto. Um quarto secreto onde eu sabia que encontraria muito de mim, mas que estava completamente vazio naquele momento. Me senti culpada por ver um pouco do que eu escondia tão bem de mim mesma, e aliviada por saber onde se encontrava o tesouro que eu mesma tinha enterrado.

Só que saber aonde estava o tesouro e que só era preciso abrir o baú, não mudava muita coisa. Era preciso buscar lá no fundo esse tesouro. Era preciso escavar muito antes de conseguir tirá-lo de onde eu mesma o coloquei. E que tarefa árdua. Eu não imaginava.

Neale Donald Walsch escreveu no seu livro 'Conversando com Deus': "Se você não for para dentro, vai ficar de fora." e eu percebi isso nesse momento.

Não basta saber a marca preferida da roupa; é preciso conhecer seu corpo para saber qual é o nível do conforto que espera. Não basta saber qual é o seu prato preferido; é importante saber também se prefere ele com pimenta, com molho de queijo e com qual companhia quer degustá-lo. Não basta ter um sorriso lindo; é fundamental que conheça e saiba a hora que você quer sorrir e a hora que você quer chorar, quando ele vai ser verdadeiro e quando ele vai ser conveniente.

Que Jean Baudrillard me desculpe. Eu posso até ser o que eu como, o que eu visto, o que eu vejo ou com quem eu ando, mas eu sou muito mais do que isso.

Sou a gargalhada espontânea no meio da conversa. Sou a cosquinha na sobrinha no sofá da sala. Sou o quanto gosto do perfume de uma flor e o quanto amasso meu cachorro quando chego em casa. Sou os passos desengonçados que dou no samba. Sou as besteiras que eu digo e o quanto me arrependo depois. Sou o jeito que mexo no meu cabelo e o esmalte descascado com o dente. Sou a mentira que eu conto quando uma amiga pergunta se eu gostei do novo corte dela e eu não tenho coragem de dizer a verdade. Sou a música tocada em looping. E também a que eu canto dentro do chuveiro. Sou o quanto eu quero esganar, mentalmente, uma pessoa que me irrita. Sou a forma que eu grito quando estou nervosa. Sou o filme que eu durmo no meio. Aliás, todos eles. Já foram muitos e sei que não serão os únicos. Sou o livro que inventei que li e a fofoca que contei, mesmo sem me considerar fofoqueira. Sou também o sorvete que sujou a minha roupa e a mão que não sabe para onde ir. Sou o tempo que gasto contando as moedas do porquinho. Sou as vezes que li a última página de um livro que acabei de começar a ler. Sou a cor da jujuba que eu escolho e o vento que eu deixo bater no meu rosto. Sou tanto que quanto mais eu me conheço, mais acredito que falta para descobrir.

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Quanto percebi isso, relaxei. A única certeza que eu tenho nessa hora é que estar confusa, não saber dar a resposta certa, me permitir mudar de opinião e não fazer mais tudo como eu acho que as pessoas esperam me dá possibilidades. Me faz ser muito mais do que eu era antes. E isso me torna tão mais eu.


Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..
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