em construção

A vida acontece no durante

Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras.

O que Manoel de Barros me ensinou sobre o nada

Manoel de Barros fala de despropósitos, do que talvez não faça muito sentido para muita gente. A mensagem parece ser sempre que não existe resposta certa, que o certo é buscar o que te faz bem. A mensagem parece ser sempre a mesma: olhar para a vida com olhos de quem está descobrindo. Olhar a vida como se a gente não soubesse de nada ainda.


Quando criança, eu tinha um sonho de saber responder todas as respostas do mundo. Ficava agoniada quando descobria mais um assunto que eu não conhecia e pensava que daria muito trabalho aprender tudo sobre tudo. E, ainda assim, eu sonhava com a possibilidade de ter todas as respostas.

Fui crescendo e percebendo que tudo seria coisa demais para aprender e me contentei em saber um pouco menos, mas ainda assim vivia buscando demais essas respostas sobre a maioria das coisas.

Busca: acho que minha vida até bem pouco tempo atrás se resumia nessa palavra. Eu buscava entender, controlar, fazer e desfazer. Tudo em uma escala enorme. E eu meio que me desesperava quando via que alguma coisa saía do que eu tinha planejado.

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Um dia, me enchi disso tudo. Quis esvaziar. Era muito pesado carregar tanta carga nas costas. Ficou difícil memso carregar o peso de ter todas as respostas.

A minha vida era certinha e, enquanto estava tudo nos trilhos, foi fácil encontrar as respostas. Quando o mundo que eu conhecia virou de cabeça para baixo e tudo o que eu achava que estava sob meu controle desapareceu, eu entendi que a vida queria mesmo era que eu aprendesse a viver de um jeito diferente. E que esse improviso, essa dança que eu estava sendo obrigada a aprender a dançar, iria me levar em direção a uma versão melhor e maior de mim. Eu só ainda não entendia isso muito bem.

Não existe certo e errado; só os caminhos que vão nos fazer mais felizes ou mais tristes. E eu não sabia disso. Acreditava que o certo era o roteiro que eu achei que esperavam que eu seguisse.

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Aí, um dia, eu li Manoel de Barros. E comecei a entender que bom mesmo é se esvaziar. Bom mesmo é desaprender. Bom mesmo é se colocar como espectador de um mundo que você ainda não conhece e está deslumbrado olhando. Bom mesmo é olhar um rio e imaginar que é uma cobra de vidro mole. Bom mesmo é inventar cores, nomes, paisagens. Bom mesmo é entender que as respostas podem existir, podem não existir, podem qualquer coisa. E que tudo depende de como você quer escolher naquele momento.

Somos o que estamos. Isso foi outra coisa que aprendi. E se quero brincar de encontrar imagens nas nuvens ao invés de reclamar das contas que não param de chegar na minha casa, eu posso fazer isso. E posso ser chamado de uma pessoa insensata, mas com certeza, estarei mais feliz do que quem passa o dia reclamando, pelo menos no meu entendimento do que é ser feliz.

Manoel de Barros fala de despropósitos, do que talvez não faça muito sentido para muita gente. A mensagem parece ser sempre que não existe resposta certa, que o certo é buscar o que te faz bem. A mensagem parece ser sempre a mesma: olhar para a vida com olhos de quem está descobrindo. Olhar a vida como se a gente não soubesse de nada ainda.
Uma parte de mim ainda se assusta com essa forma leve e colorida de ver o mundo, mas a outra se perde entre tantas cores, brilhos e fantasia. E essa parte hoje comemora a vida todos os dias. E ri, brinca, pula, canta, dança e está feliz a maior parte do tempo, até quando está triste.

Manoel de Barros fala sobre o nada quando fala de despalavra, despropósito, desaprender, desfazer, desatar. É tudo sobre levar uma vida com mais leveza, com menos cobrança, com menos palavras, com menos promessas ou expectativas. Com menos.

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Hoje, para mim, não existe lugar para chegar, não existe resposta para buscar, existe apenas o que está: o momento, a presença, o movimento, o agora. Isso existe; todo o resto é propósito demais e não cabe na vida que Manoel desenhou e que eu coloquei na minha parede.

Aquela parte que busca as respostas e quer entender o mundo a todo custo pode ficar por lá nessa busca. Eu fico mesmo com a parte que entendeu a vida é isto aqui, seja lá o que for isto aqui, que acredita que o silencio é um nada que preenche, que vazio mesmo é quem não fala com verdade e que o mundo é daqueles que veem uma lagarta fazendo acrobacia ou que acreditam que podemos compreender um mundo sem conceitos, que podemos recriar um mundo com as imagens que a gente quiser.

E agora eu acredito que só existe uma forma de ter todas as respostas: esquecer todas as respostas. A melhor forma de aprender mesmo é desaprender e olhar o mundo com olhos de quem nunca viu. Todos os dias.

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Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..
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