em construção

A vida acontece no durante

Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras.

O que o filme Labirinto e o duende fazendo xixi me ensinaram sobre a vida

Depois de um tempo, aprendemos que a magia da vida está no que é de verdade, no que é autêntico. Aprendemos a ver valor no que é comum e que já está aqui. Bonecas de plástico são lindas, mas ficam mais lindas ainda dentro das caixas. Outra coisa que aprendemos é que se buscarmos apenas o que é perfeito, deixamos de aproveitar o mais maravilhoso da vida, que são as coisas imperfeitas e reais. Aquelas mesmo: as únicas capazes de preencher nosso coração de verdade.


Um dia como qualquer outro e meu padrasto chega em casa com um filme que, segundo ele, mostrava a vida real. "Aqui, até o duende faz xixi quando tem vontade.", ele dizia rindo. Ele, que era uma pessoa rígida e extremamente crítica, praticamente obrigou a gente a ver o filme. Muito a contragosto, eu e minha irmã assistimos. E depois do estranhamento inicial - filme com cara de antigo, seres grotescos, pessoas esquisitas...- Labirinto se tornou o filme preferido da nossa vida.

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Labirinto - a magia do tempo conta a história de uma menina mimada (Jennifer Connelly) que, irritada com o choro do seu irmãozinho, pede que o Rei dos duendes o leve para longe. E ele leva mesmo. Ela tinha ficado em casa para cuidar dele enquanto os pais estavam fora. Quando percebe que seu irmão para de chorar, ela descobre que ele foi realmente levado para o Rei dos Duendes. A menina fica desesperada e descobre que, para resgatar seu irmão, tem que sair da sua casa, da sua zona de conforto rumo à terra dos Duendes. E ela parte. Com medo, angústia e sem nenhuma garantia. Igualzinho a gente aqui do outro lado da tela.

O filme mostra esse caminho de aventura que ela faz para ter seu irmão de volta.

Anos depois, entendi o que tanto me encantou nesse filme, além do duende fazendo xixi do nada enquanto conversava com a menina no labirinto. É que consegui perceber no meio de tantos elementos mágicos, a magia do que é real, do que é humano.

Me apaixonei pelo Rei dos Duendes, o príncipe do filme (David Bowie), que era o vilão da história e que, na maior parte do tempo, exibia seu lado sombrio. Lembro de chorar com saudades toda vez que o filme acabava.
Quis ser amiga do duende feio que trai a menina que tinha acreditado que ele estava ajudando.
Senti falta dos monstrinhos esquisitos que eram uma graça.
Entendi que o medo faz parte do caminho porque se o que está esperando a gente do outro lado for muito importante, a gente vai dar um jeito de atravessar com medo mesmo.
Percebi o quanto é bom ser espontânea e livre para fazer o que temos vontade, assim como o duende que fez xixi quando estava apertado.

Dançar na chuva, beijar a testa, elogiar o cabelo, dizer o que sente, rir dos erros, olhar uma flor no jardim, ouvir a música brega, abraçar forte...tanta coisa que geralmente deixamos de fazer por medo do que vão pensar de nós.

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Descobri que a mágica acontece com o que é imperfeito, com o que também está fora do lugar, com o que não se encaixa para ninguém, mas se encaixa para você e isso é tudo o que importa. Somos todos assim. A verdadeira mágica está no que é de verdade, no fim das contas.
Contos de fadas são lindos, mas em nada se parecem com a nossa vida. Contos de fadas são para as princesas que querem continuar trancadas na torre.

Quando resolvemos ir ao encontro do mundo, descer as escadas, vemos monstros, sombras, criaturas obscuras e asquerosas. Pensamos em voltar. Continuamos e nos deparamos com os nossos maiores medos. Quase desistimos. Pensamos em voltar para a torre de novo. Esbarramos com nossas maiores angústias e aflições. Depois de tudo isso, conseguimos perceber a beleza da vida, que é feita do que não é tão bonito assim à primeira vista. A vida que se esconde debaixo das folhas caídas e dos galhos quebrados. E aí, uma vez que vencemos a resistência ao novo, chegamos a um mundo mágico. Tudo continua igual. Os monstros ainda estão ali, mas as máscaras caíram. Eles não assustam mais. Tudo passa a ter cor, sabor, forma, gosto, textura. Sentimos frio na barriga de verdade. Nos entregamos para a vida. É como se qualquer coisa fosse possível agora. O que ficou é de verdade. E está aqui. É você, em essência.

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Podem não ser as coisas mais lindas, mas com certeza são as únicas capazes de tocar de verdade os nossos corações. Capazes de nos fazer flutuar. Foi difícil largar a torre a qual estávamos acostumados, mas quanta vida tem aqui fora e quanto tempo perdemos com medo de descer as escadas para ver o maravilhoso que estava nos esperando.

Quando o filme acaba, a gente desliga a TV e volta para a vida. Só que, diferente de todos os outros filmes, quando desliguei Labirinto, voltei para a vida com aqueles monstros, com o comportamento mimado da menina, com a espontaneidade do duende, com a coragem, com a angústia, com o desespero, com a raiva, com a felicidade, com o arrependimento, com as risadas, com a cumplicidade, com a dúvida e com a certeza de que a vida mesmo acontece quando deixamos o perfeito de lado e vamos em busca de um mundo que existe e que está só esperando por nós. Um mundo onde cabe o feio e o bonito, juntos, misturados. Um reino encantado, garanto, mas com algumas rachaduras na parede.

Sabe aquela vontade de rir quando não pode?
Quando todo mundo vai prum lado e você pra outro no meio da dança?
A piada que não teve tanta graça assim?
A raiva que sentiu do seu cachorro quando ele comeu seu sapato?
A flor que despedaçou sem querer?
As brincadeiras que deram errado?
A mão suja de pipoca no sofá da sala?
O travesseiro surrado, que é o nosso preferido?
A música que a gente desafina?
O caminho errado que a gente pegou?
Tem tantas coisas que acontecem e que a gente acha que deu errado. Talvez estivessem só levando a gente pro outro lado.

Então foi assim.
O príncipe não era tão bonito, a mocinha não era tão certinha, as paredes do labirinto não eram tão altas, o duende nem era tão traiçoeiro assim, o romance não era lá muito certo nem muito errado, os monstros não assustavam apesar de feios, os serem imperfeitos não eram tão imperfeitos assim.

Na beleza do que é comum e "feinho", aconteceu uma das histórias mais mágicas que já conheci. E aí pude, enfim, compreender o motivo pelo o qual o filme foi tão perfeito para mim.

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Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..
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