em construção

A vida acontece no durante

Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras.

Quando foi que aprendemos a achar bonito falar que o amor é feio?

Eu não sei quando virou moda falar mal do amor. Você sabe? Quando começou a ser bonito falar que não sente, que inteligente é aquele que aprendeu a não deixar o coração falar mais alto. Quando passou a ser vantagem rir de quem ama. Vejo pessoas tristes que querem amar, mas parecem não saber mais como.


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Quando? Você se lembra? Porque pelo o que eu me lembro, nasci em uma época em que as pessoas falavam um pouco mais, em que as pessoas sentiam um pouco mais. Sei lá, eu achava bonito demonstrar os sentimentos e dizer que eu amava. Já fiz isso muitas vezes. Dizia que amava, até quando tinha quase certeza absoluta de que quebraria a cara.

Inclusive, quebrei a cara muitas vezes. Não liguei muito. É claro que preferia que o outro dissesse que sentia o mesmo por mim, mas ali o objetivo era dizer o que eu sentia apenas. E, quando eu fazia isso, mesmo que o outro não correspondesse o sentimento, eu sentia um alívio por ter feito a minha parte e dito para aquela pessoa o quanto ela era importante para mim.

Não sei quando isso mudou, mas hoje parece ser feio falar de amor. Ou cair de amor. Eu mesma confesso que agora sinto vergonha de demonstrar quando não tenho certeza de que o outro vai retribuir. Virou um jogo. Comecei a ter medo de dizer o que sinto por medo de rirem de mim caso o sentimento não fosse recíproco. Louco isso, não? É tão bom sentir. É tão bom poder ser livre para dizer o que sente. É tão bom saber levar um não e continuar a caminhada feliz por ser quem você é, mesmo que o outro não queira caminhar do seu lado. Você continua sendo você, incrível do jeito que é e ele também. Não tem guerra, não tem briga, não tem nada além da expressão da liberdade de o outro querer ou não ficar ao seu lado, como amigo ou como qualquer outra coisa.

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Deveria também ser proibido você se sentir mal, triste. feio ou ter qualquer outro sentimento ruim se o outro dissesse para você que não quer ficar ao seu lado. Ora, ele tem o direito. E amanhã tudo isso pode mudar também. Nesse caso, seria melhor relaxar porque tudo continua no lugar depois desse não. E sua cabeça deveria continuar também.

Escrevo para você, mas eu mesma tenho que ler esse texto mil vezes. Também não sei mais falar de amor sem sentir medo.

Parece que as pessoas aprenderam que amar é sofrer, que o fim pode trazer muita dor e isso faz você evitar o meio, o caminho, o momento, o presente, que é onde tudo acontece. Ficamos com tanto medo do que vai acontecer que deixamos de viver o que está acontecendo.

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No fundo, acredito que todos queiram alguém para dividir os bons e maus momentos, mas ao que parece, aprendemos que junto com isso temos que ter a garantia de que não vamos sofrer. E aí colocamos um escudo e vamos para a guerra. Só entregamos as cartas depois que o outro exército já está caído no chão. Quando ele cai, avançamos. E nesse jogo de poder, vamos montando estruturas que chamamos de amor. Eu olho e vejo tudo, menos amor.

Não era para o amor ser leve? E puro? E espontâneo? E livre?

Eu não sei quando virou moda falar mal do amor. Quando começou a ser bonito falar que não sente, que inteligente é aquele que aprendeu a não deixar o coração falar mais alto. Quando passou a ser vantagem rir de quem ama. Vejo pessoas tristes que querem amar, mas parecem não saber mais como.

Cadê os sorrisos sem graça? Cadê os olhares que ficam? Cadê o toque sem expectativa? Cadê a mão que segura? Cadê o abraço que espera? Cadê o beijo que procura? Cadê a vontade de ir? Cadê a alegria de ficar? Cadê as palavras ditas com verdade? Cadê o olho que briha? Cadê o colo que sente? Cadê a falta de ar que dá quando você olha para a pessoa? Cadê o frio na barriga de esperar sem saber se vem? Cadê?

E olha, se você souber, me responda também, por favor: cadê o amor?

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Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..
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