em construção

A vida acontece no durante

Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras.

O dia em que sorri para uma estranha e ela não sorriu de volta.

Você já parou para pensar em como a rejeição pode transformar a nossa vida? E será que nós sabemos o poder que temos de influenciar a vida das pessoas? Um dia ouvi de um professor que o ser humano veio para o mundo para amar e ser amado. Não fez sentido para mim. Não até o dia em que a menina não sorriu de volta para mim.


Era uma quarta-feira e eu estava sentada na recepção do curso de inglês, esperando a aula começar. Olhei para o lado e duas meninas conversavam animadamente. Eu tinha uns 10 anos; elas, uns 15. Achei elas lindas e tive vontade de ser amiga das duas. Quis me aproximar e não sabia bem como. Comecei a prestar a atenção na conversa delas (que não se preocupavam em esconder porque falavam bem alto) e, quando comentavam algo engraçado, eu ria junto. Lá pelas tantas, uma delas falou com a outra assim: essa menina (essa menina era eu) parece uma retardada olhando para mim e rindo. Será que ela acha que eu tenho cara de palhaça?

pensativa-2.jpg

Não, eu não achava que ela tinha cara de palhaça. Eu só queria participar. Só queria me sentir como elas: lindas e felizes. Só queria ser aceita. E logo depois que ela disse isso, eu parei de rir olhei para baixo e me senti ridícula. Tive vontade de sair correndo e me esconder onde ninguém pudesse me ver. Engoli o choro e continuei esperando a aula começar.

Durante a aula, fiquei pensando nisso. Durante os 50 minutos da aula, pensei nisso. E hoje, depois de 23 anos, continuo pensando naquele dia. Talvez tenha sido uma das primeiras vezes em que eu me senti rejeitada. Ou que me dei conta disso. Até hoje, aquela cena me vem à cabeça. Todas as vezes em que vou falar alguma coisa em público, dar minha opinião numa roda de amigos, me apresentar para alguém, penso naquela cena e em como me senti ridícula. Tem vezes que dá vontade de sair correndo, igual à vontade que senti naquele dia.

É louco, né? Eu paro para pensar em como influenciamos a vida das pessoas que estão à nossa volta, sem nem imaginar quanta diferença podemos fazer para o bem ou para o mal. Talvez, da mesma forma em que eu tenha ficado triste com ela por ter me sentido humilhada, ela pode ter se sentido mal. Talvez hoje ela esteja pensando: aquela menina, aquele dia, na recepção do curso de inglês me ridicularizou e isso me influencia até hoje. Pode ser. A gente nunca sabe o que uma ação nossa pode causar na vida dos outros.

22-coisas-que-qualquer-um-que-ama-a-chuva-entende-2-23940-1419022506-3_dblbig.jpg

A questão aqui é o que vamos escolher daqui para frente. Será que não estamos dando muito poder para o outro, já que não temos nenhum controle sobre o que ele faz conosco? Uma vez falei para uma amiga: podemos fazer qualquer coisa que isso não vai impedir de o outro de agir assim ou assado com a gente. É isso. A gente não tem poder sobre o que outro nos causa; a gente tem poder sobre o que a gente sente quando o outro faz alguma coisa com a gente. E só.

Era um dia comum e aquela menina estranha só não sorriu para mim. Só pensou algo diferente do que se passava aqui dentro. Ela entendeu diferente e quantas vezes eu não devo ter feito o mesmo com outras pessoas? Talvez eu pudesse ter dito: desculpa, eu só achei vocês divertidas e quis participar da conversa. Desculpe se pareceu que eu estava rindo de vocês. A minha intenção verdadeira era rir com vocês. Mas eu só fechei a cara e abaixei a cabeça.

a6pexzjhqzu-andrew-phillips.jpg

Eu me sentia pequena demais para falar isso e talvez ela tenha se sentido tão pequena ou menor que eu. Ou seja, em busca de amor e querendo amar, nós duas nos afastamos. E, anos depois, aqui estou ainda sentindo a dor daquele dia. Ainda com medo de me entregar e cair de cara no chão.

Não quero sorrir para o outro e correr o risco de ele não sorrir de volta e ainda me ridicularizar. Sinto medo de pular na piscina quando alguém estende os braços porque sempre penso que, quando eu cair na água, a pessoa vai me deixar me afogar.

Eu falo de amor, eu acredito no amor, eu busco amor e, o tempo todo, não sou tão amor assim. Deixo o medo me pegar pela mão e me levar para o outro lado da estrada.

Não sei qual é a fórmula para ser feliz; o que sei é que se ela existe, passa por nós nos relacionando uns com os outros, quebrando a cara e aprendendo a amar, desaprendendo, mas sobretudo, amando. Não há outra forma de ser feliz. Aquele professor da aula de sociologia estava certo: o ser humano veio ao mundo para amar e ser amado. E agora isso faz muito sentido.

5454df32f0ab44d9957c000795102c94.jpg

Sim, aquela estranha não sorriu para mim e eu posso guardar isso para sempre dentro de mim. Ou posso escolher lembrar que ela também precisava de amor e eu não soube dar. Depois de tanto tempo, depois de falar sobre isso e pensar e repensar para escrever esse artigo, posso dizer que eu escolho de novo o amor. Entre o medo de cair e o medo de voar, eu escolho o amor. Eu escolho voltar a sorrir. Voltar a deixar o outro perceber meu olho brilhando de saudades. Deixar o outro perceber que estou feliz. Deixar o outro saber que me entreguei. Porque posso até me sentir ridícula um dia novamente, mas só assim vou sentir como é bom quando alguém sorri de volta, quando alguém te dá as mãos e diz: vem comigo.

A vida sempre retribui o sorriso que a gente dá. Uma hora ou outra, ela retribui. Acho que funciona assim.

É, aquela estranha não sorriu para mim, mas a vida parece começar a fazer isso agora.

tumblr_static_tumblr_static_avl3l538ejcccs0oskskwgkgs_640.jpg


Flávia Bechtinger

A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Flávia Bechtinger