em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

A América também sonhou

Em Nebraska, pai e filho pegam a estrada e descobrem uma América de gente como a gente


Os homens de Alexander Payne em dado momento da vida têm um reencontro com tudo aquilo que quiseram esquecer ou ocultar, no caminho se deparam entre a intimidade e as verdades das relações e decidem ascender, como se buscassem um brilho para não passar despercebidos. Foi assim em “Sideways”, com o escritor beberrão Miles (Paul Giamatti), com o aposentado Warren Schmidt (Jack Nicholson) em “As confissões de Schmidt”, e na persona de marido traído que espera que a mulher retorne do coma de George Clooney em “Os Descendentes”.

Com “Nebraska”, o diretor Payne ascende com seu melhor personagem: o idoso com princípio de senilidade Woody Grant na intepretação dilacerante de Bruce Dern, premiado pela atuação em Cannes e indicado ao Oscar.

Depois de lhe ser enviada, por correio, uma carta publicitária anunciando que ganhou um milhão de dólares, Woody convence-se de que o prêmio o aguarda, na cidade de Lincoln, capital do Nebraska, e quer partir a todo custo com intenção de reclamá-lo. Nem a mulher nem os dois filhos o conseguem demovê-lo dessa obsessão. É assim que o encontramos, logo no início do filme, a caminho (a pé) do Nebraska, um estado quase desértico situado no meio da vastidão dos EUA. É o filho, David, (Will Forte) que o ajudará a concretizar o objetivo.Nebraska-poster.jpg

Histórias de pessoas comuns, que vivem distantes dos grandes centros, com cotidianos marcados pelo tédio. É essa realidade da América rural, um interior tantas vezes esquecido por Hollywood, que Alexander Payne retrata. Os caminhos que Woody e David atravessam surgem-nos, assim como que parados no tempo, tal como a cidade natal de Woody, Hawthorne, quando faz uma parada de alguns dias com o filho a caminho do Nebraska, onde fica sabendo quem são realmente os seus amigos, e unem-se a eles a esposa desbocada (June Squibb, indicada também para o Oscar) e o filho mais velho, vai surgir ali uma compreensão do que se tornou Woody, e todas as falhas de uma vida que o falso prêmio de loteria irá reforçar.14044695.jpeg

Payne, que já ganhou dois prêmios da academia de melhor roteiro, dirige aqui com um respeito e maturidade nunca vistos, sensível e com um carinho sem tamanho com seus personagens, feitos de pessoas reais, com fraquezas e doenças, conquistas e arrependimentos, e são pessoas que sonham. Contribui muito a estupenda fotografia em preto e branco de Phedon Papamichael, sem maneirismo, potencializa a verdade daqueles personagens e enaltece a aspereza dos espaços físicos e mentais e, de certa forma, recria laços com o cinema mais clássico em que o preto e branco era a única opção. É de uma memória cinéfila que conhece e respeita o mais nobre classicismo de Hollywood. Prolonga a encenação de uma América profunda de encantos de outros filmes que utilizaram o mesmo artifício: “No Decurso do Tempo”, de Wim Wenders, 1976 e “ A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich, 1971 e Ed Wood, de Tim Burton, 1994. É uma celebração de um cinema que se deliciou com a memória e sonhou que viriam dias melhores. É o fértil arco-íris das emoções humanas.


Julius Lima

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