em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

O direito de não nascer

Filme angustiante narra um aborto clandestino em plena ditadura romena


“Sabia que a partir do quarto mês já é outro tipo de delito? Não conta como aborto, e sim como homicídio. E isso dá de 5 a 10 anos...”, quem fala isso é um certo Sr. Bebe (Vlad Ivanov) enquanto examina o corpo de Gabita (Laura Vasiliu) que se prepara para consumar um aborto na época do regime de Nicolae Ceausescu (1918-1989). Anos 80 quando os cidadãos daquele país se debatiam com problemas críticos, como desabastecimento, limitações econômicas, falta de perspectivas, conflitos com a burocracia e o temor da repressão policial sempre à espreita. A queda do ditador ocorreu em 22 de dezembro de 1989, mas “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” não fala sobre ele, e sim sobre esse período sem qualquer referência direta ao comunismo.

Amiga de quarto de Gabita na universidade, Ottila (a sensacional Annamaria Marinca) organiza os preparativos e há um grande percurso até a cena em que Gabita é examinada. Essa é uma das maneiras de filmagem do diretor Cristian Mungiu, mostrar um totalitarismo decadente (ou doente) que se impregna como "doença", em tudo o que toca, a demonstração fria da existência de corrupção e apodrecimento político. Cedo ou tarde haverá corrupção e apodrecimento nas vidas e nas relações humanas. Todo o processo descrito por "4 Meses..." é, no fundo, uma história de comércio, a descrição de um "capitalismo" pobre e rudimentar (ver, por exemplo, a quantidade de maços de tabaco que trocam de mãos), um sistema de trocas caótico, em que evidentemente não há limite para o que se pode comprar nem com que o pagar. Ao mesmo tempo, obviamente, tudo se passa em um clima de medo e ansiedade, por se tratar também de uma história de clandestinidade.1232730802566.jpg

O aborto fora criminalizado em 1966 no país, mas não espere um filme panfletário, essa não é uma história de personagens heróicas. As duas jovens mulheres que tentam garantir as condições para que uma delas possa pôr fim a uma gravidez confronta-se com regras e burocracias de uma sociedade politicamente corrupta e, sobretudo, moralmente desagregada. Não são rebeldes nem mensageiras de discursos militantes. Venceu a Palma de Ouro em Cannes 2007 e colocou o cinema romeno em evidência. Filmes como “Contos da Era Dourada” (que o próprio Mungiu roteirizou), “A Morte do Senhor Lazarescu” e “A Leste de Bucareste” visam a traçar uma história subjetiva do Comunismo, sem falar diretamente do período, mas deixando antevê-lo a partir de histórias e opções pessoais que as personagens vivenciam.

No Brasil calcula-se em cerca de 1 milhão o número de abortos realizados anualmente, no mais das vezes em condições precárias, respondem por quase duas centenas de óbitos maternos por ano. A interrupção voluntária da gravidez já é permitida em casos de estupro ou de risco para a vida da mãe. Decisão do Supremo Tribunal Federal admitiu, recentemente, que o mesmo ocorra quando se verifica a anencefalia do feto. Propõe-se que a permissão seja estendida até a 12ª semana de gestação, se a mãe assim o desejar. Contemplam-se também outras situações de teor menos polêmico: uso não consentido de técnicas de reprodução assistida e diagnósticos de vida inviável fora do útero. Não existe consenso na sociedade a respeito ao tema. Equiparar o aborto ao assassinato de um ser humano soa exagerado. Neurologistas dizem que o feto é incapaz de sentir dor antes das 12 semanas de vida. Ainda assim, não há como negar que se trata de vida --vida humana-- que o aborto interrompe. Vida humana em potencial, no mínimo. Não ainda uma pessoa , entretanto. Compreendem-se as dúvidas filosóficas que o assunto suscita e as certezas de que a religião, neste e em outros casos, pode apresentar como resposta. A criminalização do aborto divide a sociedade, deve ser discutida com maturidade --e, se persistir a falta de consenso, como parece provável, submeter à questão a um plebiscito.


Julius Lima

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