em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

NO DESERTO DA ALMA

O Mestre é mais do que a consagração de um diretor, é o testamento das feridas incuráveis de uma América


O cinema do diretor Paul T. Anderson sempre caminhou sobre a plataforma de uma América em processo de escolhas, seja pelas utopias e contradições da vida material, seja pela fragilidade da moral em meio às relações nada amistosas de uma sociedade. Em O Mestre ele arrebata com a história de um marinheiro que volta da segunda guerra com a alma partida. Essa América que o cinema ajudou a conhecer está longe de seus momentos de redenção. Freddie Quell (Joaquim Phoenix) é o desencanto em pessoa, não se sabe se foi antes ou no decorrer da guerra que algo se rompeu, é um homem que não conseguiria se quebrar nem que assim o quisesse.

Sem as bússolas: familiares, emocionais e profissionais, certa noite alcoolizado entra em um navio ancorado no cais de São Francisco, por ser um marinheiro se sentiria seguro ali. Ele acorda com o autointitulado Mestre, definindo-se “como comandante desse navio, escritor, médico, filósofo teórico e nuclear”. Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) é o fundador da seita A Causa e logo Quell se torna seu discípulo, ele encontra em Dodd não exatamente uma resposta às dúvidas e angústias que o dilaceram, mas pelo menos, de início, a possibilidade de voltar a viver, ainda que seja difícil entender se há algo de benéfico nisso ou pura autodestruição de Quell, aliado ao fato de que nada se sabe da história pregressa de Dodd. Cabe ao espectador montar o quebra-cabeça.

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Muito se falou que Anderson faz de A Causa uma espécie de retrato desfigurado da Cientologia - religião fundada em 1952 por L. Ron Hubbard, que ficou famosa quando astros de Hollywood como Tom Cruise e John Travolta se revelaram adeptos, as referências do diretor são sutis e propositadamente pouco esclarecedoras, há ecos de Hubbard em Dodd principalmente quando ele insere no filme uma alusão clara aos livros que servem de alicerce a Cientologia. Em momento especialmente emblemático, pergunta a Quell se ele considera que lhe é, ou será, possível viver sem alguma relação com um mestre, uma figura tutelar da sua existência e dos seus atos. Em boa verdade, é a tragédia interior de todo o cinema de Anderson: equilíbrios que possam existir entre o desejo individual e as determinações coletivas?

Contribuem muito para isso as atuações, todo o elenco é incrível, mas os embates de Philip Seymour Hoffman, em mais uma soberba colaboração com Anderson, e Joaquim Phoenix, em presença devastadora, são magníficos. O esplêndido trabalho de fotografia de Mihai Malaimare Jr. consegue esse prodígio que é a aplicação de um realismo obsessivo dos lugares e objetos, ao mesmo tempo em que conserva uma noção tão simples quanto radical: a de que qualquer olhar realista pressupõe a possibilidade de tratar, também de forma realista, a vida dos sonhos e utopias.

Anderson orquestra um elaborado retrato da instabilidade emocional e psicológica da América pós-Segunda Guerra, a partir de um classicismo que fez de Hollywood o centro irradiante da história e da mitologia cinematográfica. Tem a proeza de radiografar esse momento: de uma sociedade amarga, com suas feridas expostas. O conflito de identidade que Freddie Quell vive não é somente um retrato pessoal é também de um país que vive, globalmente, nem que seja pelo silêncio, a dificuldade de definir os termos do seu próprio destino.


Julius Lima

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