em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

A verdadeira viúva negra

Uma alienígena seduz e devora homens em obra de diretor cult


Considerado nova promessa entre os britânicos, Jonathan Glazer é hábil em criar atmosferas e definir um universo visual e sonoro, fechado para desenvolver as histórias. Foi assim em seu primeiro longa, o quente e explosivo filme de gângsteres "Sexy Beast" (2000), com Ben Kingsley e Ray Winstone, depois veio o estudo do luto em “Reencarnação” com Nicole Kidman (04). Egresso do videoclipe de artistas conceituais (Nick Cave, Massive Attack, Blur, Radiohead, Jamiroquai), o diretor convoca Scarlett Johansson em “Sob a Pele” para reinventar um dispositivo clássico de ficção científica – o frente a frente entre o humano e o não humano, ligado à riquíssima herança do realismo britânico. Uma extraterrestre que vem à Terra para seduzir e, aparentemente, devorar homens?... O que é que isso "significa"?

Não espere respostas ou um ritmo habitual de outros filmes. Aqui o que conta é a experiência sensorial, em que a narrativa e o diálogo são secundários. O filme é transportado pela modulação precisa do jogo entre imagens e sons. Partindo de um romance de Michel Faber, Glazer eliminou as marcas mais ou menos convencionais da narrativa até não restar nada a não ser um ambiente, um desconforto, um “mal-estar existencial” em suas palavras. Johansson foi “largada” “à paisana” nas ruas de Glasgow, a pé ou conduzindo um Ford Transit, com uma câmara escondida atrás.

A sua predadora extraterrestre é a verdadeira “mulher fatal ”, “viúva negra”, “comedora de homens”, uma sedutora que os arrasta para a perdição com um corpo bonito e natural que foge dos padrões magérrimos ou sarados das bonitonas atuais. Aos poucos, de vítima em vítima, a alienígena vai se aprimorando e utilizando mais recursos para a empreitada. Após engolir mais uma de suas presas, para na frente de um espelho. Observamo-la de longe, a iluminação na casa é bem deficiente e uma escuridão encobre a maior parte do rosto da atriz.

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Ela encara o espelho por um bom tempo, hesitando, aproxima-se dele e leva a mão ao rosto. Em um corte seco, vemos Scarlett saindo da casa e libertando o homem ao qual ela mesma havia, supostamente, posto fim momentos antes. Aos poucos, parece ganhar consciência do que está fazendo. Como se a sua “absorção” da humanidade começasse a alterar a própria maneira de olhar o mundo. Assim o filme adentra em questões filosóficas, mas sem nunca abandonar a estrutura feita até então. Quando envereda pelo desfecho em que Glazer coloca a personagem para sofrer as consequências de um mundo tão sensual quanto hostil, ativa-se a percepção sobre ser mulher na sociedade que estava o tempo todo lá: a criança que chora à deriva na praia em busca do carinho maternal que essa alienígena nunca terá, os homens que se tornam suas presas têm presença de machos próximos à opressão.

É o feminismo na berlinda. O homem agora é quem devora. E a mulher impedida de ser ela mesma em toda a beleza e direito de viver como queira. Parece querer dizer: a proposta original do feminismo, aliás, era assegurar que as mulheres pudessem exercer a sua autonomia, não seguir os mesmos passos dos homens.


Julius Lima

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