em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

Cadê o Amarildo?

Documentário mostra as veias abertas de um caso que repercutiu


Em julho de 2013, um cidadão brasileiro, ajudante de pedreiro, pai de seis filhos e sem passagem anterior pela polícia foi conduzido a prestar esclarecimentos em uma UPP do Rio de Janeiro. Amarildo Dias de Souza nunca mais foi visto. Testemunhas relatam ter ouvido gritos e súplicas vindos da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha, na noite em que ele foi detido. Duas câmeras da UPP estavam desligadas durante o período no qual o pedreiro ficou na delegacia. Coincidência ou não, uma das testemunhas do caso foi morta com um tiro na cabeça, em março de 2015. O documentário “O Estopim” (15) de Rodrigo Mac Niven (é dele “Cortina de Fumaça” (10), que tentava arejar a discussão sobre a política de combate às drogas) é uma dinamite. O filme mistura encenação e depoimentos reais com foco na discussão da conduta policial dentro das favelas. E ainda que um tanto tendencioso, e por vezes desnecessário, na recriação da possível tortura e morte de Amarildo. Merece ser visto.

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O caso repercutiu ao ponto de os moradores da comunidade descerem o morro e fecharem ruas na zona sul. Quem conduz o filme é Duda, morador da Rocinha, que conhecia Amarildo e já fazia denúncias contra a polícia antes da morte do pedreiro. "A UPP tinha que ser uma unidade de política pública, e não de polícia pacificadora", diz no filme. Muitos são os indícios de que Amarildo tenha sido morto pela polícia. As últimas notícias que se têm a seu respeito vêm do major Edson dos Santos, comandante da UPP. "Olhei para ele, para a foto, vi que não era o tal do Guinho e liberei." Disse em várias reportagens na época. "Ele sempre dizia que revidaria se fosse agredido por um policial", contou a irmã de Amarildo em reportagens nos jornais do Brasil na época. "Dizia que trabalhador não pode levar tapa na cara e ficar quieto."

O mistério gera uma pergunta: O que é um policial? É lamentável que recaiam suspeitas de assassinato a sangue frio pela corporação. Na definição são disposições criadas para garantir a ordem e a segurança física do conjunto de cidadãos. Uma polícia que perde a confiança do público, por reincidir em atentados contra a integridade de indivíduos, assim como o ordenamento legal, experimenta a pior deturpação imaginável. O episódio não apenas parece confirmar a execrável prática da tortura policial e de encobrir tal conduta, mas também representa um diapasão na estratégia, até então bem-sucedida, de pacificação das favelas. Essa é a realidade, lamentavelmente, de muitas forças de segurança pelo Brasil. Não é raro que a Polícia Militar de um Estado carregue a fama de violenta e demasiado letal, nem que sua Polícia Civil passe por inoperante ou corrupta. Muitos vão dizer que uma categoria inteira não deve ser condenada pela má conduta de alguns agentes. A sucessão de flagrantes de brutalidade policial e leniência investigativa, contudo, enfraquece sobremaneira essa linha de argumentação.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2013, nada menos que 2.212 pessoas morreram pelas mãos de agentes da lei. Em cinco anos (de 2009 a 2013), as forças de segurança por aqui foram responsáveis diretas por 11.197 mortes. A julgar por inaceitável tal prática identificada pela ONG Anistia Internacional, é provável que o episódio do desaparecimento de Amarildo termine sem nenhuma condenação. Em relatório recente de abril de 2015, a organização afirma que, em 2011, por exemplo, dos 220 processos administrativos abertos, só 1 desaguou em denúncia à Justiça, enquanto 183 permanecem inconclusos. As análises realizadas revelam que há pouco tempo não teria, infelizmente, causado comoção o caso do pedreiro. Algo mudou no País entretanto. Resta saber se o Estado brasileiro terá capacidade de acompanhar essa mudança.


Julius Lima

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