em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius César

Libriano.Jornalista e conselheiro amoroso, a história que você contará, ele irá compor um enredo de sua observação diária, sobre como é viver e amar em uma grande cidade.

O Jornalismo investigativo não acabou

No eletrizante “Zodíaco” o Diretor David Fincher recria a partir de dados jornalísticos a caçada real a um serial killer em plena era Flower Power


A horas tantas em “Zodíaco”, o investigador David Toschi (Mark Ruffalo, de “Foxcatcher”) vai ao cinema para assistir a “ Perseguidor Implacável” um filme de Don Siegel com Clint Eastwood criado a partir do próprio Toschi e de sua luta para pegar o mesmo serial killer do filme de David Fincher. O filme é de 71 e, quando é feito, Toschi está há muito tempo atrás do assassino junto com seu parceiro William Armstrong (Anthony Edwards, da série “Plantão Médico”). Na região da Baía de São Francisco em uma noite de Julho de 69, um rapaz e uma moça casada que estavam dentro do carro, num lugar afastado, levaram um total de nove tiros, sem motivos aparentes. A moça morreu; o rapaz sobreviveu embora com ferimentos gravíssimos. O crime foi reivindicado pelo homem que chamava a si próprio de Zodíaco, em cartas e telefonemas a jornais, à polícia e até a familiares das vítimas. Neles, o Zodíaco alegava ainda que um outro duplo homicídio ocorrido meses antes, similar nas circunstâncias e na escolha das vítimas, fora também obra sua. Nas correspondências enviadas aos jornais na época com mensagens criptografadas e charadas ele solicitava que colocassem na primeira página e caso não fosse feito cometeria uma série de outros crimes que de fato ocorreram. Chegou a matar um motorista de táxi, de noite, numa zona residencial, e um outro casal, numa tarde ensolarada à margem de um lago. A essa altura os jornais conseguiram uma fonte para as vendas que deixou todo o norte da Califórnia em pânico. O diretor David Fincher faz aqui algo único na sua carreira: abandona o virtuosismo técnico e a inventividade visual e entrega um filme com a impressão de algo vivido da memória que resgata um fato para poder recontar. Ele morava na mesma região e tinha 7 anos quando o assassino fez a ameaça de seguir um ônibus escolar e abateria todas as crianças a tiros no momento da parada. Ele fala de dentro com o conhecimento de causa. Não espere um novo “Se7en” ou um “Clube da luta”. Aqui ele usa todo o conhecimento acumulado na primeira fase de sua carreira e, ao mesmo tempo, dá um enorme salto em direção ao seu próprio futuro como cineasta de maturidade insuspeita. Menos pirotecnia e menos choque, um rigor cada vez mais obsessivo na composição da narrativa. Para tanto se baseia em um dos livros escrito pelos repórteres investigativos da época. Zodiac.jpg

Para empreitada chamou o roteirista James Vanderbilt que anos depois levaria um dos momentos supremos de uma investigação jornalísticas ao cinema em “Conspiração e Poder” sobre a reportagem dos 60 minutes apresentada por Dan Rather – um dos ícones do jornalismo americano e um emblema de integridade. Fincher então se ocupa sobre o trabalho meticuloso e exaustivo de levantar fragmentos de informação, de conferir provas de imaginar e reimaginar um mesmo cenário. Do dia a dia de quem trabalha com investigação na polícia e de quem precisa estar próximo para poder leva ao noticiário. Aqui os dilemas do jornalismo investigativo brilham mais do que em filmes como “Spotlight: Segredos Revelados” simplesmente porque é muito mais comum que as apurações transcorram nessas zonas cinzentas retratadas aqui: o que uma fonte tem a ganhar com sua revelação? As provas que chegam às mãos dos repórteres são autênticas? Ou quando a mídia se torna personagem privilegiado: o repórter policial Paul Avery (Robert Downey Jr, eterno “Homem de Ferro”) e o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal, de “O abutre”) ambos do jornal San Francisco Chronicle entram na investigação com o mesmo ímpeto dos policiais. Esses homens obsessivamente dedicaram anos das suas vidas a tentar descobrir a identidade do assassino. O que fica de um crime é menos seu efeito imediato, e sim seu poder de afetar quem está por perto. A patologia e a ficção envolvida nela é que destroem. Aqui o filme renova-se constantemente pelo caráter aterrorizante que revela, pelo reconhecível gosto de não permitir ao espectador agarrar-se a esquemas pré-determinados, exigindo atenção crítica. Com isso, Fincher habilmente desvia-se do que parecia ser seu intento inicial;fazer mais um filme de "serial killer" para fazer um filme sobre os filmes de "serial killer" e a atração que exercem sobre o público. Não à toa ocorre a cena do filme de Don Siegel com o cinema lotado pois o filme dentro do filme faz uma ponte para o que é real e o que é imaginário. Lá o mistério se encaminha para a dissolução: deve ser esclarecido para que a ordem seja reinstaurada. Aqui ao contrário, todo o tempo nos perguntamos o que será do mistério e das pessoas envolvidas, que se consomem à medida que o mistério evolui. Os jornalistas Paul e Robert levaram pra dentro de casa. O primeiro perdeu o emprego no jornal por conta do alcoolismo e o outro acabou se divorciando por conta da sua total negligência em casa para tentar desvendar o quebra cabeça. Na ocasião, o cartunista que adorava charadas passou meses trancado com suas notas, quase sem ver a mulher e os filhos pequenos. O Zodíaco mandou sua última carta aos jornais em 1974, e nunca foi capturado. Nem se quer identificado. Até hoje, detetives amadores se debruçam sobre o caso sem chegar a um consenso. Fincher se preocupou com a caçada e a intensidade que alguns homens responderam a ela. A certa altura do filme o psicopata diz esperar que algum dia alguém faça um bom filme sobre ele. Ei-lo: David Fincher.


Julius César

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