em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

Adeus, Nova York

Edward Norton arrasa como um traficante em seu último dia de liberdade no primeiro filme na Big Apple pós o 11 de setembro


“A Última Noite” começa com Montgomery "Monty" Brogan (Edward Norton) salvando a vida de um cachorro. Logo veremos caminhando e conduzindo o cão por uma grande cidade. Esta cidade é Nova York. Mora em região nobre tem o carro do ano e não pega fila em casa noturna. Ele é traficante e o negócio lhe rendeu este padrão de vida. Mas no dia seguinte Monty tem que se apresentar na cadeia vai cumprir pena de 7 anos por tráfico de drogas. Denunciado não sabe por quem e não sabe se conseguirá sair vivo da prisão.

O filme não é somente sobre ele mas sobre como a prisão dele afeta as pessoas a sua volta. Não há dúvidas de que Monty é culpado. E para nós pode parecer natural que ele pague indo para a cadeia, mas para aqueles próximos a ele (amigos, namorada, pai) não é assim tão simples. Nessas horas derradeiras ele terá que se despedir de todos mas parece pouco tempo para cortar laços, mas o suficiente para que Monty amargure sua ganancia e a ilusão de que poderia viver como viveu sem ser visitado por algum tipo de justiça. 14-1024x690.jpg

O diretor Spike Lee adapta o livro do roteirista David Benioff que escreveu o argumento do filme mas a Nova York da obra não é mais aquela após sofrer a profunda ferida moral que foi o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. O ato ocorreu poucos dias antes de o filme começar a ser rodado na cidade. E acabou por impregnar toda a película. Se tornando metáfora do trauma vivido. Lee filma com a precisão maníaca de quem sabe que o humano está em todos os detalhes de uma existência, constrói um objeto em que a obsessão realista se vai transfigurando pelo assombramento traumático dos acontecimentos e, em última instância, pelo fulgor épico da narrativa. É um filme sobre pessoas que acordaram depois de uma catástrofe. Não se vai falar nunca do 11 de Setembro, embora haja um plano em que Lee coloca personagens num arranha-céus com uma janela a dar sobre o Ground Zero.

Nesse exercício de introspecção, o diretor acabou por fazer uma de suas melhores obras na maturidade, é dele filmes como “ Malcom X” (92) e os magníficos “Faça a coisa certa” (1989) e “Uma história de Huey P. Newton” (2001). Sem lhes retirar humanidade, complexidade e simpatia Spike Lee faz desses personagens profundas caixas de ressonância do estado de espírito sombrio que tomou conta da cidade depois do ataque. Frank (Barry Pepper) é um corretor da bolsa implacável. Até mais bem sucedido que o amigo. O que ele faz dentro da lei é tão diferente assim das atividades de Monty? Frank em certas horas parece se questionar. Jake (Phillip Seymour Hoffman) é um professor colegial que se sente culpado por se sentir atraído por uma de suas alunas. Naturelle (Rosario Dawson) é a namorada porto-riquenha. Ele desconfia que ela o entregou e isso está minando a relação. Seu pai James (Brian Cox) um ex-bombeiro destroçado pelo 11 de Setembro.

Além disso, o diretor foi capaz de injetar suas impressões digitais por todo o longa-metragem, mostrando por exemplo um panorama vigoroso do universo multirracial da cidade: Monty é branco, mas namora uma morena, trabalha para a máfia russa e tem amigos negros. Embalado pela música melancólica do trompetista Terence Blanchard e uma Nova York duramente fotografada pelas lentes do talentosíssimo Rodrigo Prieto (de “O Segredo de Brokeback Mountain e “O lobo de Wall Street”) a trajetória de Monty culmina com um momento de confronto desesperado consigo mesmo ele olha para a sua imagem ao espelho e atira uma série de "fuck you" a Nova York, contra todos os grupos étnicos e sociais que a compõem. Desde as madames brancas aos taxistas paquistaneses até amaldiçoar a si mesmo. É um lamento, pena que não exista uma 25ª hora (o título original) para desfazer os erros das 24 anteriores. Spike Lee, sabe que Nova York mudou para sempre.


Julius Lima

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