em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

12 anos de liberdade cinematográfica

No sublime “Boyhood” o diretor Richard Linklater filma o tempo que passa e realiza um dos melhores filmes da década


Coldplay na vitrola, céu azul com algumas nuvens, e um garoto deitado na grama, Mason (Ellar Coltrane) observando aquele quadro celeste. A mãe dele (Patricia Arquette) aparece e eles vão para casa. E no caminho ele comenta que acha que sabe de onde vem as moscas. Ela,por sua vez, comenta sobre a reunião que teve com a professora dele. Depois, ele sai para pedalar com um amigo e logo mais a irmã Samantha (Lorelei Linklater) surge para chamá-lo para comer.image1 (4).jpeg

Durante 12 anos uma semana por ano, Richard Linklater ( da trilogia de Culto “Antes”) reuniu um elenco de quatro pessoas: Patricia Arquette, Ethan Hawke (os pais, divorciados), Ellar Coltrane (o filho) e Lorelei Linklater (a filha) - acompanhando as suas mudanças até a entrada na Universidade. De modo que a passagem do tempo fosse, não um "truque" de encenação, mas uma matéria viva de todas as etapas da filmagem. image2.jpeg

Este retrato de uma adolescência banal, marcado pela simplicidade das conversas, dos diálogos com a família ou dos primeiros beijos ou das primeiras bebedeiras, pode no entanto ser muito mais do que pode parecer. Basta parar e, mais do que olhar, ver. É a isso que Linklater nos desafia ao longo de quase três horas no sublime “Boyhood” a ver cenas de uma vida familiar, banal. Porque é o tempo que dá ressonância às coisas, e o que agora nos parece descartável ou desinteressante pode, com o tempo, ganhar uma relevância completamente diferente.thumbnail.jpg

O verdadeiro tema do filme é o tempo que passa, e como, ao passar, vai criando uma narrativa, personagens e identidades. Porque, ampliado para o cinema, visto com o recuo do tempo que passa, é o banal que faz de nós quem somos. Linklater não está aqui para nos dar lições de moral, a vida não é fácil e ela não vem com manual de instruções. É por isso que, ao fim do filme, temos a sensação de ter visto a vida como ela realmente é. E poucos – quase nenhuns - filmes o mostraram com tanta e tão desarmante simplicidade. Ellar, o garoto , começou a ser filmado aos seis anos. Quando acabou a rodagem era adolescente, tinha 18. thumbnail (2).jpg

Ter acompanhado, em favor da ficção, o crescimento e envelhecimento dos atores, colocou o diretor perante um desafio: a delicadeza. É essa a proeza. O filme é (também) um documentário sobre eles, e mais do que isso, é um documentário que vai ficar para eles.


Julius Lima

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