em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

A solidão nossa de todo dia

“A Rede Social” mostra como Mark Zuckerberg criou o Facebook e fez um monte de inimigos


Após o vazamento de dados do Facebook que expôs indevidamente informações dos usuários, cerca de um total de 87 milhões de dados pessoais foram parar nas mãos de empresas. O CEO Mark Zuckerberg teve que esclarecer ao Comitê Judiciário e de Comércio do Senado dos Estados Unidos. Ele chegou preparado com respostas prontas. Se referiu diversas vezes a ter iniciado o Facebook em seu quarto no dormitório em Harvard, emoldurando a empresa como uma história de sucesso pessoal. Foi algo muito distante do filme “A Rede Social”, escrito por Aaron Sorkin(que ganhou o Oscar) e dirigido pelo talentosíssimo David Fincher, em que um Zuckerberg arrogante, ficcionalizado (Jesse Eisenberg, excelente e indicado ao Oscar pela atuação), tinha pouca paciência com o advogado que o ouvia: “Você tem parte de minha atenção. Você tem a quantidade mínima”. Fincher não está apenas contando a história do Facebook. Ele está contando uma história de solidão. Mas uma solidão épica, já que se trata do "mais jovem bilionário do mundo". O que faz de Zuckerberg um gênio? Não é essa resposta que Fincher busca responder. No filme, o tempo todo vemos Zuckerberg ter lapsos, ficar alheio ao que acontece à sua volta, imerso em pensamentos.SITE-22-01-M-1-800x445.jpg

Pensa o tempo todo na ex-namorada. Somos sugestionados a crer que ele criou o Facebook apenas para impressionar a ex-namorada, para tentar reavê-la. O enredo centra os acontecimentos entre o difícil parto do Facebook, o brilhantismo, a frieza e o super ego de Zuckerberg e a estreita amizade com o seu melhor amigo, Eduardo Saverin (Andrew Garfield) e intercala estes aspectos com um drama de tribunal no confronto das figuras embrionárias da rede social. O roteiro do mago Aaron Sorkin impõe uma dinâmica superlativa na comunicação do argumento e em diálogos que desafiam o espectador. É a história do mito por detrás de uma ideia revolucionária do ponto de vista comportamental e social, um fascinante relato da ambição e valor de Zuckerberg. Ele e sua mente brilhante olharam para o futuro, viu o que mais ninguém conseguiu e fez o que tinha a fazer para proteger a sua ideia; podia não ter a compreensão instintiva do que é o comportamento humano (e por isso criou algoritmos para explicá-lo. Em janeiro de 2018, na tentativa de livrar-se da cobrança crescente, Zuckerberg decidiu que o algoritmo que rege as interações entre usuários seria mudado de modo a privilegiar postagens pessoais, em detrimento das promovidas por marcas e empresas), mas é alguém que incorpora o espírito otimista e criativo deste novo milênio em que é possível desenvolver algo que muda o mundo a partir de um computador.size_960_16_9_filme-a-rede-social2.jpg

Os mais velhos encontraram uma tragédia: um jovem que traiu amigos, parceiros e princípios para alcançar o lucro e a fama, condenado a uma existência vazia clicando na tecla atualizar do seu equipamento e acessando sem parar a rede social, aguardando um relacionamento humano que nunca chegará. É uma visão que torna o filme mais interessante do que uma tradicional biografia que não raro o cinema sempre está nos apresentando. Pelas bordas, Fincher analisa esse tipo de solidão que é bem contemporânea. Que nos prende à frente da tela de computador. Que torna os medíocres da vida real em seres sedutores e donos da bola quando postam em blogs e redes sociais da vida. 14058685.jpeg

Ninguém duvida da imensa utilidade dessas redes como ferramenta profissional e recreativa. Organizam um gigantesco contingente de usuários conforme suas afinidades e facilitam toda forma de comunicação interpessoal. Tornam a vida mais prática. À primeira vista um enorme fórum de livre debate, as redes são formadas por células que mais reiteram as próprias certezas e hábitos do que os submete a discussão. Esta, quando ocorre, adquire tons de estéril guerrilha verbal. O que torna Zuckerberg fascinante é que ele conseguiu se tornar um bilionário com a sua mediocridade. Nós, não. Apenas remoemos nossas frustrações e dores e delírios na tela do computador. Tem solidão maior?


Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Julius Lima