em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

Fale com ela

No absoluto "Her" o diretor Spike Jonze constrói um painel dos relacionamentos amorosos e da solidão na era digital. E de como vivenciamos o amor


Theodore (Joaquin Phoenix, em mais uma magnífica atuação para sua carreira) vive no futuro, um futuro do presente. Um tempo inexato, mas muito próximo do nosso, onde não há naves espaciais e androides, mas há sistemas operacionais inteligentes, como os de hoje, mas um pouco mais sofisticados. Nesse futuro onde se proliferou a tecnologia ele ganha a vida escrevendo cartas de amor para pessoas que nunca escreveram esse tipo de cartas. Ele é o protagonista de “Ela”. Filme absoluto do diretor Spike Jonze que venceu o Oscar de melhor roteiro Original. her.jpg

Theodore adquire um novo sistema operacional para o seu computador que lhe responde através de uma voz feminina que se identifica como Samantha. Não será surpresa que ele se apaixone por essa máquina e, mais do que isso, ela começa a correspondê-lo. É bem certo que Samantha (na “atuação”/voz de uma inspiradíssima Scarlett Johansson) exista apenas como um impulso sonoro (complexo e requintado); ainda assim, apesar disso — ou através disso —, Theodore trate-a como se fosse a emanação de um corpo que ele deseja tocar. E quando mais avança os quase-monólogos (ou quase-diálogos) do filme mais se intensifica o mistério dessa relação: como é que um ser humano e um sistema operacional se tocam ou entrelaçam? Como construir uma relação humana com uma entidade a que falta a carnalidade e o calor humano? Em vez de fazer mais um filme de crítica aos efeitos desumanizantes da tecnologia, Jonze sonda o relacionamento como paixão. 120214-her-spike-jonze-01-550x309.jpg

A descoberta, o fascínio, a entrega. Não é a criação de um novo conceito de intimidade, mas a dramática perda da sua possibilidade. Nas redes sociais de relacionamentos de hoje em dia, em muitos registros, exclui o próprio valor social das relações: o seu único objetivo é a multiplicação arbitrária de links/likes. Com mais ou menos nudez, o que se perdeu foi a noção da singularidade de cada corpo. Theodore surge como um comovente ser humano à deriva nas gratificações virtuais desse mundo. Valorizando as palavras como elemento que não são estranhos à atração sexual e, acima de tudo, desde o primeiro momento no desafio de viver o amor e, mais do que isso, de o dizer. Talvez com nossos bem amados aparatos de comunicação, computadores e celulares, estamos vivendo um processo regressivo de infantilização. Mas não se desespere há esperança na imagem final do filme: alguém toca em alguém. 0posther.png


Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Julius Lima