em uma grande cidade

Uma pressa em falar para o Mundo sobre o que vi, ouvi e vivi(só por garantia).

Julius Lima

Cinefilia.Em estado bruto.

Panteras Negras

No poderoso “Infiltrado na Klan” o diretor Spike Lee retorna à sua melhor forma: olhando para o presente com o dedo apontando para Trump e para o passado, os eventos da Ku Klux Klan nos anos 70, documentando uma América racista


Vencedor do Grande Prêmio de Júri em Cannes 2018, “Infiltrado na Klan”, no original (BlacKkKlansman) tem uma narrativa com a garra política e a estética que caracterizam os melhores trabalhos do realizador Spike Lee. É um novo e admirável capítulo de uma filmografia em que encontramos títulos tão marcantes como “Faça a Coisa Certa” de 89,“Malcolm X” de 92, "O Verão de Sam” 99 e “ A última Noite” 03. Lee encarrega-se de nos manter tão divertidos quanto tensos, na história real de Ron Stallworth, interpretado com brilho pelo filho de Denzel Washington (John David Washington) o primeiro detetive afro-americano da polícia de Colorado Springs que, em 1979, se "inscreveu" na filial local da organização supremacista ( como são chamados, nos Estados Unidos, os que acreditam na superioridade racial dos brancos) Ku Klux Klan. Acabando por chegar inclusive a contatar o “chefe de filial” David Duke ( que elogiou o novo presidente do Brasil Jair Bolsonaro pelos seus métodos) e descobrir uma conspiração para lançar ataques criminosos a ativistas negros membros dos Panteras Negras. Não podendo apresentar-se fisicamente - por razões óbvias - diante do grupo a que aderiu, formou uma dupla com o colega do departamento Flip Zimmermann (Adam Driver de “ Paterson” 16 ), fazendo as jogadas mais arriscadas através de conversas ao telefone e enviando o outro aos encontros no seu lugar. Lee pinta ao mesmo tempo como comédia de enganos, tragédia existencial (porque Zimmermann é um judeu não praticante que a sua missão acaba por “acordar” para as complexidades da xenofobia) e denuncia um dos piores flagelos americanos, a organização racista. 5ab5f3ef52124607dce4f7d58cc51736_L.jpg

A contrapor ao cenário dos supremacistas brancos temos aqui também a ameaça dos Panteras Negras e, para complicar, Ron está apaixonado por uma jovem que pertence a esse partido. Colocado entre as duas realidades extremas, ele acaba por afirmar uma personalidade moderada, funcionando como uma espécie de guia que nos orienta dentro das complexidades sociais, com as dúvidas que extravasam a cor da pele. E na boa companhia das referências da cultura pop e do cinema Blaxploitation que o diretor invoca abertamente a estilização dos anos 70 inclusive se apropria dos códigos tradicionais do gênero policial daquela época. Mas é do racismo puro e duro que Lee quer nos alertar e a carga de denúncia daquelas imagens são fortíssimas: ver um casal de brancos que ao deitar anseiam no dia seguinte a matança contra os negros por achar que eles merecem. É repulsivo. Ou quando o programa formal de batismo da KKK é finalizado com "O Nascimento de uma Nação" de D. W. Griffith de 1915, obra seminal dos tempos mudo que defendia abertamente a segregação racial, que é recebido como “documentário” pelos defensores da supremacia branca. É de embrulhar o estômago. http___com.ft.imagepublish.upp-prod-us.s3.amazonaws.jpg

Spike Lee dirige furiosamente como se tivesse coisas para dizer e não vai se calar enquanto não as disser, da maneira que ele quer e sabe, e filma como se tivesse tudo a provar. Por isso o filme se abre com o célebre plano de grua dos soldados feridos de Atlanta de “E o Vento Levou” 1939, uma provocação de Lee para dar o ponto de partida para um discurso sobre uma história de racismo no cinema. Aquilo que começa por ser uma crônica sobre uma América "distante", ferida por muitos componentes racistas, acaba por se transfigurar num épico cujas linhas de força ressurgem no nosso tempo presente.Quer dizer, nos cenários do país a que preside Donald Trump. O ativista político e músico Harry Belafonte, no auge do seus 91 anos, surge como o digno porta-voz em uma determinada cena despertando os americanos para as linhas duras da sua própria história, que se repete. Estabelecendo uma semelhança perturbadora com aquilo que ele conta com a América do presente, a América de Trump - mais precisamente, mostrando imagens dos violentos acontecimentos do ano passado na pequena Charlottesville, no Estado da Virgínia. Um jovem de 20 anos, jogou seu carro contra os manifestantes, uma mulher morreu e dezenove pessoas ficaram feridas. Spike Lee está a documentar os nossos dias para a América refletir sobre o mal e as suas vozes cada vez mais vivas.


Julius Lima

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