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Cinema, teatro, arte, músicas, livros e um pouco de nonsense

João Monteiro

Jornalista, ator e questionador compulsivo.

Pedro Almodóvar e a Lei do desejo

Pesquisando sobre a filmografia do cineasta espanhol Pedro Almodóvar encontra-se a palavra desejo como a chave para entender sua obra e a trajetória cíclica de seus filmes. De certa forma, todos relatam o desejo e suas diversas facetas. E se fosse criada uma lei, a lei do desejo? Como seria?


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Entende-se por vontade, aspiração, grande apetite ou vontade de algo que se pode comer ou beber, coisa que se quer ter, conseguir, alcançar, atração sexual, ato de desejar ou de se desejar. Estas são segundo o dicionário Aurélio as definições de desejo.

Mas o que é o desejo senão a vontade de algo?

Pesquisando sobre a filmografia do cineasta espanhol Pedro Almodóvar encontra-se a palavra desejo como a chave para entender sua obra e a trajetória cíclica de seus filmes. Todos de certa forma relatam o desejo e suas diversas facetas. Pressupondo que a comunicação tem por si só a vontade de manifestar no outro a sua intenção de seduzir, fazendo-a vinculada ao desejo, pois quem comunica tem o desejo de que o receptor acate a sua informação, ou ao menos lhe confira interesse.

Psicologicamente falando, o desejo se liga com as pulsões, segundo Freud que as reduziu em duas: Eros, ou pulsão sexual para a vida e Tânatos, ou pulsão agressiva, de morte. A hipótese do comportamento humano ser guiado apenas pela necessidade de reduzir a tensão gerada pelas pulsões é considerada ultrapassada pela pesquisa empírica, uma vez que a falta de estímulos leva o indivíduo a buscá-los ativamente, aumentando assim a tensão interna (assim, por exemplo, pessoas curiosas ou que buscam emoções fortes).

O desejo é, portanto, a diferença inevitável, impossível de se suprida, que faz sempre existir em significado a mais. O problema desse trio é que ele não esgota o que há para se dizer sobre pulsão. Presidir uma existência pautada no que se deseja, abrindo mão de todos conceitos morais impostos pela sociedade é a vontade de diversas pessoas, e principalmente objeto de análise nos filmes de Almodóvar onde as personagens nunca caminham conforme a humanidade, ou caminham, mas reafirmam a forma torta do humano em seu processo de construção do anti-herói.

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Ao longo de sua carreira como diretor de cinema, que parece ser pequeno quando relacionado à classificação encenador, que toma pra si a função da organização do todo do conceito artístico envolvendo uma obra. Essa desinência é principalmente usada no âmbito teatral, mas aqui também nos serve como norte para percebermos o motivo pelo qual esse autor, diretor, se tornou, através das marcas em suas obras, um substantivo: Almodovariano.

O desejo se relaciona com o imaginário, pois só projetamos nossa vontade sobre aquilo que idealizamos ou imaginamos que de alguma forma nos é imprescindível. Esse ato gera em nós sensações opostas, como expressa em Eros e Tânatos, a vida e a morte, e relação com o sexo.

O homem é primitivo, mesmo raciocinando mantém traços de origem que não se desfaz ao longo do tempo e seus desejos refletem essa percepção inata do inconsciente. Para Freud a violação do corpo do outro é como uma ato limítrofe a morte, o que dizer do amor então, como forma idealizada de união, onde o desejo se manifesta constantemente nas mais variadas formas.

E se fosse criada uma lei?

A lei do desejo. Como ela seria? Quais suas bases, em que premissas nos basearíamos para definir regras para o que não tem regras? El Deseo S.A, a produtora criada por Augustín e Pedro, irmãos, reafirma almodovarianamente falando que o homem é feito de paixões, desejos e arrebatamentos, por ideias, causas e ideais. A lei do desejo se apresenta como algo mais forte que o lógico imposto pelo racional humano que cai no abismo da irracionalidade não intencional devido à força com que vem do inconsciente e do imaginário. Uma força primitiva, quase instintiva e animal na busca, não só pela sobrevivência, como também pelo objeto desejo.

Enunciar algo e fazer com que isso desperto o interesse, desejo de outrem é o foco da comunicação universal, comunicar para persuadir, e persuadir através do desejo é o que mais se tem trabalhado na contemporaneidade após perceber que os seres humanos ainda são comandados por pulsões primárias as quais lutam para aprisionar através das normas e convenções sociais.


João Monteiro

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