enquanto isso

Cinema, teatro, arte, músicas, livros e um pouco de nonsense

João Monteiro

Jornalista, ator e questionador compulsivo.

Entre dois rios, Guimarães Rosa e Mia Couto

Mesmo com formas de escrever particulares os autores se unem em temas universais como o tempo, o homem, e a morte.
A representação de tempo muitas vezes descrita através do movimento do rio. Rio de um, rio de outro, entre ambos um rio único, feito de tempo. Guimarães e Mia navegam na mesma canoa indo pra sei lá onde, rio a baixo, rio a cima no rio da memória.


man in the boat.jpg Escultura de Ron Mueck - Men in a boat(2002)

O sonho de engravidar o tempo de perpetuar, resistir às intermitências da morte e ser eterno. Uma linha tênue separando e unindo dois mundos que se confundem. Na literatura de Guimarães Rosa e seu mundo particular de Grande Sertão veredas, Sagarana e muitas outras estórias, em muito se confunde com a obra literária de Mia Couto, de relatos, retratos, de uma África pós-guerra, onírica, não menos política, não menos típica e pitoresca. Dois universos que se entrelaçam devido à universalidade de temas como: o homem e o tempo.

Textualmente tanto Mia quanto Guimarães bebem da mesma fonte, a invenção de palavras, o corte seco que dá vida aos personagens, fundindo um em outro, sem saber ao certo quem foi que o descreveu, Guimarães ou Mia. No livro “Primeiras Estórias”, publicado em 1962, no conto “A terceira margem do rio”, Guimarães desnuda de forma única à espera, o tempo e as relações familiares, principalmente de pai e filho à beira de um rio sendo ele a enunciação do tempo, de ir, devir:

(...) Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta (...)

Os textos escritos em primeira pessoa retratam o aprendizado repassado de pai para filho, avô para neto. O desterro e as leis da natureza influenciando o viver dos homens que sofrem de lonjuras. Nesses autores distantes pelo tempo e próximos pelo verbo, pela escrita, pelo rio-rio-rio, o rio- pondo perpétuo, recontam a história do homem primordial. No primeiro conto de “Estórias Abensonhadas” livro de Mia Couto, publicado em 1994, o conto “Nas águas do tempo” um jovem é levado rio abaixo pelo avô para aprender a ver os brancos panos da outra margem:

'Couple under an umbrella' ('Casal sob guarda-sol'), de 2013 Escultura de Ron Mueck- Couple under an umbrella (2013)

(...) a canoa ficou balançando, em desequilíbrismo com meu peso ímpar. Presenciei o velho a alonjar-se com a discrição de uma nuvem. Até que, entre a neblina, ele se declinou em sonho, na margem da miragem (...)

Esse laço familiar construído no tempo, na troca de experiências marca a estória, assim como no conto “A outra margem do rio”, os personagens mais experientes influenciam os jovens a seguir os conceitos do tempo, a terem o respeito pelo passado, a procurar o entendimento das outras paragens. O rio aparece nos textos como o marco do tempo, limpando as agruras, trazendo a sabedoria e embalando os fantasmas no eterno vai e vem da correnteza, o rio representa em si o cíclico da vida. Pode-se afirmar também que ele faz referência direta com o conceito de imaginário, onde estão dispersos os arquétipos, imagens ancestrais, que vão além do entendimento comum por existirem no inconsciente coletivo.

Ron Mueck Escultura de Ron Mueck - Men in a boat(2002)

Essa conexão do homem com o tempo e a percepção da grandiloquência da natureza, representada pelo rio, remonta o encontro do homem com o self, toda vez que os personagens entram em contato com os seus rios eles se modificam, transmutam, submergem e emergem, surgindo daí o homem primordial. No trecho de texto há uma mistura entre os dois autores que se completam, um jogo de palavras, seria fácil enunciar quem é quem, mas fica a estranheza de descobrir lendo os contos qual parte é de quem, ou se tudo é dos dois construindo um universo maior:

(...) Ele remava devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava. Onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que tronco desabandonado ... Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa. (...)

A busca por essa outra margem, pelo entendimento, pela visão alegórica do pós-morte nos autores os aproxima mais e mais, como se navegassem na mesma canoa, no mesmo rio, ao mesmo tempo, nesse território onde todo homem é igual, assim: fingindo que está, sonhando que vai, inventando que volta.


João Monteiro

Jornalista, ator e questionador compulsivo..
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