enquanto isso

Cinema, teatro, arte, músicas, livros e um pouco de nonsense

João Monteiro

Jornalista, ator e questionador compulsivo.

A psicomagia da Road Trip por Montevideo nos braços de Jodorowsky

Uma forma simbólica de entender os acontecimentos e de estabelecer conexões com os outros. Jodorowsky o pai da psicomagia e uma viagem a Montevideo.


Se toda raiz da frase é positiva segundo os linguistas, o não é o que acrescemos racionalmente já que nosso cérebro só percebe a palavra negativa em segunda instância. Essa raiz positiva permeou nossa viagem a Monte, como carinhosamente é chamada a capital do Uruguai, Montevideo. O roteiro de viagem se iniciou de alguns pontos do Rio Grande do Sul até chegar ao Uruguai, passando por Porto Alegre, Pelotas, Bagé e Aceguá.

Eram cinco amigos de longa data e a vontade de expandir a mente e desnudar sentimentos. Nada melhor é claro, que uma viagem “à lá Road Trip”. Numa quinta pela manhã, num carro de um deles a estrada já deixava pra traz alguns quilômetros. Muitos assuntos, diversas teorias, vários achares e a ansiedade de viver intensamente esse momento que convencionamos chamar de encontro cósmico, como se fossemos mochileiros das galáxias e prevíssemos o que viria a acontecer. montevideo.jpg

Sem perceber as circunstancias que envolviam a nossa viagem, assim como também, não percebemos as características inerentes uns dos outros, mas que ao longo da jornada foram se mostrando e o ato simbólico se realizando. Não percebemos que fomos parar no hotel Aramaya na avenida principal da cidade, 18 de julho, local antigo, com cheiro de mofo e histórias de vidas pregressas. Não percebemos que carregávamos conosco além da ânsia de se perder e se achar nessa cidade linda e fria, a necessidade iminente de nos encontrar fora de nós. Não percebemos o que aconteceria e aconteceu. Aramaya_o.jpg

Rimos, choramos, brigamos, dançamos, bebemos, tivemos momentos de pura poesia e sem perceber fizemos rituais nossos, como nossa ceia de café da tarde onde juntamos nossos últimos pesos para uma comida em família, que fizemos no quarto juntos a mesa com nossas sensações todas dispostas sobre ela.

Em meio as descobertas de liberdade e a sensação de desnudamento paramos num sebo de livros usados e me deparei com o livro” El taro y yo” do escritor, filósofo, psicanalista e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky. A partir desse momento nossa viagem tomou uma consistência mais simbólica. Aos que não sabem Alejandro é o pai psicomagia que desenvolveu ao longo de sua jornada como artista e psicanalista. Reconhecido mundialmente pelos filmes cult com temas e abordagens simbólicas o autor traz para a vida cotidiana o simbolismo há muito deixado de lado por nós. jodorowskyi.jpg

O livro do Jodorowsky nós só encontramos quase no último dia, próximo já de irmos embora, o que foi até bom, pois os rituais e acontecimentos se fizeram por si só. A psicomagia para ele é uma técnica que busca nos curar dos bloqueios sexuais, emocionais e intelectuais que nos impedem de realizar o nosso destino na vida através de atos simbólicos.

As premissas fundamentais da Psicomagia são: – O fracasso não existe, a cada fracasso, mudamos nosso caminho. – Para chegar até o que você é, você deve ir por onde não é. – Tornar-se aquilo que se é, é a maior felicidade. E ainda, que em cada doença, há: – Uma proibição – te proíbem de ser o que você é. – Uma falta de consciência – quando você não se dá conta do que é. – Uma falta de beleza – quando se perde a beleza na vida, se adoece.

Considerando que o inconsciente aceita atos simbólicos como se fossem acontecimentos reais, o psicomago realiza atos mágico-simbólico-sagrados para curar seus pacientes. Alejandro diz que não se trata de uma ciência, e sim uma arte com finalidades terapêuticas e que são necessários anos de estudo antes de poder praticá-la.

A nossa Road Trip acabou por ser um encontro cósmico, cheia de rituais, e grandes momentos só nossos. E que depois de tudo, passado o momento, e lido o livro e entendido mais um pouco sobre psicomagia que se percebe o quão vasto foi o encontro e o quão sábios somos nós ainda primitivos. Acessando os rituais sem saber, mas realizando plenamente. Como seres simbólicos tornamos essa viagem algo maior, como um rito de passagem entre nós e algo de novo que nos tornamos pós Montevideo e Jodorowsky.


João Monteiro

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