enquanto isso

Cinema, teatro, arte, músicas, livros e um pouco de nonsense

João Monteiro

Jornalista, ator e questionador compulsivo.

Sobre o NU, sobre nós

Por definição- nu- desprovido de qualquer vestimenta, desnudo, despido, que está sem o que o cubra ou vista.


O interesse pelo nu não é um fenômeno exclusivo da contemporaneidade. Ao contrário, a representação do corpo nu surgiu como um gênero da História da Arte Ocidental na Grécia Clássica. Era tido como natural, sagrado, uma aproximação com os deuses, a ilusão do corpóreo aparece como a idealização do corpo perfeito. Os corpos que representavam os deuses gregos eram perfeitamente proporcionais e sem nenhum dos defeitos do corpo “real” – muito parecidos com os corpos que se apresentam hoje para nós. Com o passar dos anos, o nu nas artes plásticas teve inúmeras representações, retratando o masculino e o feminino. Mais adiante ainda na história a religiosidade se volta contra o homem natural e o que era a semelhança e imagem de Deus teve a necessidade de ser coberto. Imagen Thumbnail para Rafael e João 036.JPG

A divisão entre o corpo e a alma foi radicalizada e a nudez corporal passou a ser entendida como um símbolo de vergonha e humilhação. Como consequência, a figura humana nua quase não existe na arte medieval cristã, exceto como representação do pecado, nas cenas de Adão e Eva e do Juízo final.O sexo se torna tabu e o corpo passa a ser recipiente do pecado criado pela moral vigente. Quando o nu masculino é sensualizado ele desaparece nas artes, pois coincide com a necessidade de reproduzir a prole, lá pelos idos de XVII. No final da Renascença a beleza clássica vai perdendo o valor.

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Esse corpo nu ensinado nas academias de arte era o corpo apolíneo, em de-trimento de outras formas de corpo nu existentes no mundo grego. Como lembra Umberto Eco em História da Feiúra, além de um cânone idealizado de beleza, os gregos também legaram à tradição ocidental imagens de seres que eram a própria encarnação da desproporção, a negação de qualquer cânone. Ainda hoje temos pudores provenientes do período “coberta dos corpos”, mas a arte em suas inúmeras formas possibilita que nos expressemos e cheguemos mais perto da liberdade, quando vivemos mais e mais acossados pelos padrões de beleza reducionistas.

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No neoclassicismo o corpo feminino prevalece no nu. Se analisarmos a Divina Comédia de Dante Alighieri, e prestarmos atenção nas ilustrações de Gustav Dore, se percebe o ressurgimento do nu masculino já com cânones diferentes para valorizar os músculos, originando a silhueta dos super-heróis, o que vem de encontroe retoma a perfeição criada na Grécia nas esculturas.Na representação do nu na arte contemporânea é possível visualizar as releituras e reflexões que artistas atuais fazem da nudez de períodos diversos da história da arte. Se, historicamente, o nu esteve ligado a técnica e um ideal de beleza e harmonia, a arte contemporânea se apropria dessas características com uma boa dose de crítica e ironia.

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Estamos profundamente condicionados à ilusão de que somos este corpo, bem como condicionados a forma de como ele deva ou não deva ser. Do mesmo modo que, quando na fase infantil, o eu, se identifica de forma ilusória como sendo este corpo, em sua fase adulta, pela experiência do testemunhar, precisa se desidentificar para o alcance da consciência de sua real natureza.

Independente da imagem de um corpo nu ser idealizado ou “real”, ela jamais será um corpo neutro, visto que sempre será lida a partir de um código e incorporará discursos diversos. O corpo na arte é sempre um corpo-representação, um corpo imaginário que revela narrativas e cria (ou reforça) sentidos. Dessa forma, a percepção humana não ocorre de maneira neutra, já que ela se dá por meio de uma interpretação e a interpretação depende dos hábitos perceptuais das pessoas: o que vemos quando olhamos para alguma coisa depende do que vimos antes.

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Vários semióticos explicaram que a leitura de uma imagem, como de qualquer outro texto, seja ele escrito ou musical, está vinculada ao conhecimento prévio de um código. E este código nos é apresentado nos primeiros anos de nossas vidas e vamos aperfeiçoando-o ao longo dela, através do processo de socialização. Indo por esse caminho qualquer imagem é a representação do real, a captura de um momento, por um determinado foco, ângulo, não sendo portanto a coisa em si.

A fotografia esteve estreitamente relacionada à pintura. Encontrou dificuldades de aceitação, mesmo se tratando de corpos nus que seguiam os padrões gregos. A rejeição se deu também pelo ato da pessoa se despir para ser captada pela câmera. O que levou a fotografia do nu ao status de pornografia. O tempo passa. A história muda, mas nem tanto, ainda somos subordinados a ilusão dos corpos gregos expressos nas revistas, canais de televisão e fotografias espalhadas por aí. A diferença é que atualmente tem-se a possibilidade de ter diversas visões sobre o nu. Os corpos em suas mais diferentes formas aparecem como contra cultura, muitas vezes, e nem tão ligados a feiura e sim a uma representação do real, do humano.

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O nu como forma de revolução social é visto na história em diversos períodos. Se desnudar é um processo, não se é somente um corpo nu, e sim um conjunto de significados e códigos que se carrega, como já nos mostraram os semiólogos. Sendo assim estar nu, posar nu, fotografar nu, mostrar as partes, se desnudar ainda é visto como algo reacionário na sociedade, e lavará muitos anos até que se perceba o quão antigas ainda são nossas percepções relacionadas a isso. As imagens que ilustram essa matéria são do fotógrafo pelotense Gabriel Camacho e de Andressa Barros.


João Monteiro

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