enquanto isso

Cinema, teatro, arte, músicas, livros e um pouco de nonsense

João Monteiro

Jornalista, ator e questionador compulsivo.

Deixaram a porta da geladeira aberta

Escrever pra quem? Escrever por quê?
Em tempos de áudio visual quem lê mais de 140 caracteres é rei.
O tempo tem passado na velocidade da luz, de repente 30.
O simples ato de pensar hoje ocorre de forma diferente.
Eles deixaram, nós deixamos... a porta... aberta.


Começar um artigo sem saber por onde, e nem como. Escrever sobre o que? Falar de quem? Para quem? O ato de escrever pressupõe um anseio, um motivo para transcrever o pensamento em signos e estes signos em palavras, e estas em frases, e frases em períodos e estes num texto que discorra sobre alguma coisa. E que deve, de certa forma, ser interessante e prender o leitor, leitor este, que hoje não lê tanto quanto antes, que hoje se detêm no PC, no cel, no note, no áudio e no vídeo. Escrever pra quem? Escrever por quê?

E assim pensando em nada e revirando a cabeça pra falar a vocês, de repente 30, ou quase trinta e todas as coisas que se sinta. Daqui uns dias, aproximadamente 20 dias, completo 29 anos, um passo, um único passo para os trinta. Ainda ontem eu tinha 7, depois, 11, logo 15 , e assim, de repente, 29. Pesado? Não sei. Nervoso? Não sei. Pensativo? Sim. Há de se pensar. Revirando a cabeça durante o inferno astral lembrei que quando menino abria a geladeira para pensar, e a mãe sempre dizia – fecha a geladeira guri, vais gastar energia pra nada. E lá ia eu novamente pro sofá. E tempo depois refazia o ato, levantava, ia até a geladeira e pensava mais um pouco. Não fazia nada, era só ficar ali observando o que tinha dentro, sentindo o frio que surgia, era como se acalmasse, se resfriasse a cabeça. Sei que parece idiota e cansativo, mas antigamente não se tinha um celular, nem internet para que pudéssemos jogar nossa ansiedade neles. Tínhamos que nos virar como podíamos, e era divertido buscar soluções para gastar a energia adolescente.

Zapear os canais de TV horas a fio era outro programa divertido para geração anos 80. Começar num canal, passar por outro, e mais outro, e mais alguns, e todos juntos e nada ver. Era jogar a ansiedade naquela tela e deixá-la fluir. Hoje em tempos de netflix, pra que zapear, se ali você encontra o que procura e não precisa se perder entre canais abertos sem programação interessante. Além de zapear, abrir a geladeira pra pensar, a maioria dos jovens dessa época ainda tinha a ânsia pela novidade, esperar o cd do cantor preferido, passar horas na locadora escolhendo filmes, as novidades demoravam, não vinham em avalanche pela internet e redes sociais. Ah! Redes sociais! O que eram? Não existiam. Era quando seu amigo ia atrás da menina que você achava gata e perguntava se ela queria ficar com você, essa era a rede social. A forma de se enredar socialmente. Hoje, curtindo umas 10 fotos ela já entende que você está afim. E assim, menos uma interação face a face acontece.

deixaram Pensar a contemporaneidade, relações e juventude, fica claro que a liquidez é cada vez maior devido ao uso das novas tecnologias, que por sua vez proporcionam grande interação, mas uma interação virtual. A virtualização das relações faz com que não abramos mais a geladeira pra pensar, nem fiquemos no sofá olhando nada na TV, é uma “conectação” constante, uma disposição constante, um pensar constante, uma ansiedade constante, um ser constante, onipresentes em postagens e curtidas. Nunca pensei que ia sentir saudade de abrir a geladeira.


João Monteiro

Jornalista, ator e questionador compulsivo..
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