ensaios desnecessários

Cinema, Literatura e Política

Fernando Maia

Fernando Maia é escritor e, apesar de não ter defendido a dissertação, cumpriu todos os créditos de um mestrado em Ciência Política e se considera iniciado no assunto. Publicou em 2014 o livro de contos policiais "Casos Recifenses". Nasceu e vive no Recife.

A política da questão de gênero: reflexões micropolíticas sobre a relação conjugal em tempos de feminismo

O machismo é um problema grave justamente por causa da assimetria de poder que ele causa entre indivíduos. E o feminismo será certamente um problema se causar assimetrias "reversas"


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O poder é uma relação social entre no mínimo duas partes, na qual uma delas só executa uma ação por causa da outra. O ser humano desde sempre tem procurado entender essa relação, seja 1) a sua ontologia, ou a essência que a determina ou a legitima, sejam 2) as consequências dela para os aspectos restantes da vida social. O desenvolvimento dessas duas linhas cognitivas parece sempre ter se relacionado ao fato de que todas as coletividades de seres humanos se atribuíram o papel de parte na relação com as individualidades existentes em cada uma das unidades que compunham a coletividade. A feição cacofônica da frase acima, em certa medida intransponível, pode ser simplificada na clássica dicotomia das ciências sociais entre Estado x indivíduo. Sob um didatismo grosseiro, pode-se ainda dizer que coube à Filosofia Política entender a ontologia fundamentadora da dicotomia e à Ciência Política os efeitos da dicotomia nas outras relações sociais. Dizer isso é, antes de tudo, denunciar a grande falha da Política (como campo cognitivo) em produzir conhecimento sobre o poder das relações mais imediatas entre os seres humanos, ou na falta de termo melhor, sobre a micropolítica. E no meio disso está uma das relações mais fundamentais da vida, a saber: a conjugal.

Antes de entrarmos na análise propriamente, é oportuno dizer que há poder em qualquer tipo de relação entre seres humanos. Isso não é dizer, todavia, que a política, entendida como o jogo que visa a resultar na dominação de uma das partes pela outra, é o aspecto fundamental de todas as relações. Há uma miríade de outros aspectos e se a política fosse o único fundamento possível, a vida em sociedade certamente seria insuportável. Se serve como ilustração, vamos pensar em dois amigos que, num belo dia saem para bater papo. Um deles é musculoso, o outro franzino. Eles começam uma discussão sobre algum assunto e se veem com opiniões diametralmente opostas. Se o mais forte quisesse, poderia impor a sua opinião pela força, ameaçando o outro de uma agressão, por exemplo. Um dos motivos por que ele não o fará é justamente o fato de que os laços fraternos entre os dois são mais importantes para fundamentar a relação do que o desequilíbrio (assimetria) das forças físicas. O instrumento que propicia esse desequilíbrio podem ser vários, mas o ponto fundamental é que a sociedade e a civilização se desenvolvem no intuito de criar elementos que dirimam a importância da política nas relações mais pessoais. Daí o direito, a ética, a cultura, a fraternidade, o amor, etc.

A questão sobre que se quer discutir aqui, diz mais respeito às relações conjugais heterossexuais, pois essas são mais facilmente definidas como uma relação entre gêneros (homem e mulher) e intermediadas de uma maneira mais clara pelo caldo social da questão de gênero, esta entendida como o palco geral onde se travam todos os tipos de relações entre homens e mulheres. A relação conjugal, como qualquer outra relação social, tem um aspecto político. Há tempos, o feminismo nas suas vertentes mais razoáveis tem buscado a isonomia entre os sexos em várias facetas da vida social. Como não podia deixar de ser, apontou como seu maior obstáculo, o machismo, um verdadeiro paradigma de origem cultural com tendências claramente conservadoras, que atinge homens, mas também muitas mulheres, e que intenta que homens mantenham e aumentem a seu favor, a assimetria de poder na questão de gênero. E isso se reproduz com muita força nas relações conjugais. É tremendamente comum que as mulheres assumam mais tarefas domésticas que os homens, é tremendamente comum que os ônus da criação e da educação dos rebentos, principalmente no âmbito doméstico, caibam às mães e, o mais grave, é tremendamente comum que a sociedade naturalize tais coisas e, em consequência, naturalize a assimetria de poder entre as partes numa relação conjugal. E de fato, escolhi essas “normalidades” da vida privada devido ao impacto que elas têm na reprodução da assimetria na sociedade como um todo, porque, no fundo, uma mulher sem poder em casa, é uma mulher com menos tempo para desempenhar o seu papel na vida civil. Isto posto, passemos a uma reflexão um pouco diversa sobre a política da questão de gênero, fundada na ideia de que a assimetria de poder nas relações interpessoais é bastante deletéria, mesmo quando pender para o lado feminino.

Uma relação de poder assimétrica, quando naturalizada, em muitos casos leva a manifestação do privilégio e seres humanos não costumam facilmente abdicar de privilégios que lhe favorecem. Homens e mulheres travam relações o tempo inteiro e é muito comum, mesmo não sendo um machista definido, um homem aceitar uma benesse da sociedade machista numa disputa interpessoal com uma mulher: num divórcio, por exemplo, aceitar que a mulher fique com a guarda dos filhos, quando, a priori, a única possibilidade de isonomia nesse caso é a guarda compartilhada. Conversamente, se um pai se sentir apto a cumprir a sua metade na educação dos filhos, pode, pela mesma visão machista da sociedade de que ele, por ser homem, é menos capaz de cuidar dos filhos, perder a contenda. O machismo provoca, em algumas situações específicas, privilégios em favor das mulheres e essas utilizarão o machismo quando lhes convier. Pense numa situação em que uma equipe de trabalho com gente dos dois sexos precisa viajar para uma determinada região, o que não é pretendido por nenhum dos membros da equipe, não importando o sexo. As mulheres do grupo, baseadas em ideias e informações completamente preconceituosas, afirmam que a região tem problemas de violência sexual e não devem viajar por causa disso. Como as viagens devem ser feitas, são os homens que devem arcar com o prejuízo da viagem, já que não são vítimas potenciais de violência sexual. Um(a) chefe oligofrênico(a) (ou mesmo interessado[a] em favorecer as moças) vai aceitar a demanda. Essa última história, embora bastante resumida, é real, mas o que se quer dizer é que o privilégio é deletério e o que o faz se manifestar, não é propriamente o machismo, mas a assimetria que esse provoca. E em alguns casos de assimetria de poder, num longo prazo, há a possibilidade de a parte mais fraca ser paternalizada e aproveitar os benefícios da paternalização. Vide a tendência do brasileiro mediano de achar sempre que o Estado vai resolver sua vida.

O ponto fundamental nisso tudo é que, quando numa relação conjugal, o homem aceita a necessidade e até busca promover a isonomia entre os sexos, pode estar aberta uma armadilha para ele, que vai causar não a isonomia, mas outra assimetria de poder, na qual ele será mais fraco. Outro dia soube de uma história em que um jovem casal andava brigando frequentemente. Mas depois da demanda de uma das partes por mais empatia, a outra refletiu e se reconheceu faltosa nesse sentido, comunicando o reconhecimento da falha tanto a outra parte, quanto, o mais importante, a si mesma. O que no fundo significou uma coisa simples: o reconhecimento do próprio erro. A pessoa que me contou a história, ainda relatou outros casos parecidos nos quais uma das partes tinha extremas dificuldades em reconhecer as suas responsabilidades nos conflitos conjugais, ou mais acuradamente, os próprios erros. A coincidência entre a história principal e os outros casos era a de que a parte com problemas de auto-avaliação era sempre a feminina. E pelo menos na história principal, havia também o reconhecimento por parte da moça, indiscutivelmente feminista, que contava a história, de que a parte masculina não se dava a arroubos machistas. Aí na continuação da conversa, quando questionada sobre o porquê dessa dificuldade, ela falou que o problema é que as mulheres mais feministas tentam compensar o seu déficit de poder na política de gênero na esfera pública, justamente na esfera privada, com os seus parceiros homens. E estar coma razão é uma das formas de ter mais poder.

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A hipótese aqui, precária pelo número mínimo de casos estudados é a de que os conflitos conjugais de um casal inicialmente equilibrado politicamente é resultado da brecha que se abre quando o homem rejeita as vantagens de uma sociedade machista; brecha essa aproveitada pela mulher, desfavorecida politicamente na esfera pública. E como essa análise pretende-se política, não cabem aqui vítimas e algozes, porque no fundo se trata da tendência do ser humano de maximizar o próprio poder. Numa situação em que o homem flerta frequentemente com o machismo, ou mesmo, é um belo exemplo de machista, a mulher exigir simetria política é ótimo. Mas quando ele entende a importância da isonomia de gênero e, com esse propósito, assume responsabilidades que o machismo costuma relegar às mulheres, compensando o déficit privado de poder feminino e não promovendo assimetrias de poder em seu favor, a situação certamente ficará tensionada, pois, participar deliberadamente de uma relação com assimetria contra si, é uma coisa que nenhum ser humano aprecia. Temos então um contexto que, ou levará à assimetria em favor da mulher da relação, caso o homem simplesmente aquiesça, ou ao conflito, caso contrário. E nenhum dos dois será bom. Sobre o primeiro, já se viu o que a assimetria em relações pode causar. O segundo porque não parece razoável que um casal viva em conflito, dado que se é a disputa por poder entre as partes o fundamento de uma relação amorosa, essa relação invariavelmente fracassará.

Então chegamos à principal questão da ação social (racional), a saber: a estrutura de incentivos operante para que um ser humano execute uma ação, incluindo a adoção de uma conduta alternativa à que a sociedade normalmente propõe. Porque, sejamos honestos, o machismo é ainda plenamente incentivado socialmente como estilo de vida e pensamento (por homens, mas também por mulheres) e ainda são raros os homens que procuram sinceramente evitá-lo ou promovê-lo nas suas relações pessoais. Não se trata de atribuir um caráter iluminado a esse tipo de homem. Até porque eles são passíveis de cometer erros nos seus intentos não-machistas. Mas não se pode negar que, se o resultado da adoção do feminismo (entendido fundamentalmente como crença efetiva na isonomia de gênero) por um homem específico for uma relação em que a assimetria de poder pende para a outra parte, menos homens estejam dispostos ao engajamento na luta contra o machismo, que como se viu, é péssimo em quase todos os sentidos.


Fernando Maia

Fernando Maia é escritor e, apesar de não ter defendido a dissertação, cumpriu todos os créditos de um mestrado em Ciência Política e se considera iniciado no assunto. Publicou em 2014 o livro de contos policiais "Casos Recifenses". Nasceu e vive no Recife..
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