entre a palavra e o mundo

Os detalhes mais importantes da vida estão guardados nas entrelinhas

Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo

À Espera de Um Milagre e uma canção de Elvis Presley: quando a arte imita o lado triste da vida

A lição que nos é dada por Elvis e Stephen King vai muito além da discussão acerca do olhar sobre os inocentes: ela fala sobre a urgência do amor ao próximo.


Thumbnail image for Foto para artigo.jpgAfinal, qual a relevância de discutirmos a relação que pode ser estabelecida entre o clássico de Stephen King, lançado em 1996 (transformado em filme em 1999, pelo diretor Frank Darabont) e o grande sucesso “In the Ghetto”, composto por Mac Davis, gravado por Elvis em 1969? Sem dúvidas, o fomento da reflexão que deve ser feita – com urgência – sobre a necessidade de aprendermos a enxergar os inocentes, especialmente numa sociedade que clama, cegamente, pela pena de morte e outras incoerências.

John Coffey, em À Espera de Um Milagre, teve de pagar com a própria vida o preço da barbárie humana. O personagem, cuja inocência e bondade extrapolam os limites do imaginário – características estas que acabam por conferir-lhe uma aura a qual une o divino à candura – protagonizou inúmeros fenômenos, nos quais operou desde a cura de um câncer até o reviver de um rato. Quando questionado, pelos carcereiros, quanto ao seu consentimento ou não para que o ajudassem a fugir da prisão – já que era perceptível a inocência de John, bem como a injustiça a qual constituiria sua morte na cadeira elétrica -, ele responde que preferia morrer, pois estava cansado de se deparar com tanta maldade e de viver sozinho. John, por fim, pede, antes da execução da pena capital, a realização de um único sonho: assistir a um filme em um cinema. Dias depois, morre como um mártir. Como símbolo – e prova – do fracasso do sistema penal e de um senso deturpado e doente de justiça.

Já a música “In The Ghetto”, de Elvis Presley, narra a trajetória curta - e de fim desgraçado - de um garoto que nasce numa família humilde, no subúrbio da cidade de Chicago. O menino cresce num contexto de marginalização social, de fome, de completo esquecimento perante o sistema, de total desamparo e sem quaisquer perspectivas ou oportunidade de ter acesso a uma vida digna e estruturada – fatores estes que acabam por inseri-lo no crime e, posteriormente, encaminha-lo a morte. Cai ensanguentado no meio da rua, ainda com uma arma nas mãos, depois de ter tentado roubar um carro. Uma multidão se amontoa em volta do garoto e o observa como um objeto estranho aos olhos. Provavelmente julgam-lhe merecedor de tal fim, bem como culpado pelo ocorrido.

Tanto John Coffey quanto o menino anônimo do gueto são vítimas dos padrões, da selvageria e do sensacionalismo enraizados na ideologia humana. As súplicas desvairadas que se disseminam por uma multidão de homens e mulheres raivosos e famintos para que os “culpados”, os “delinquentes” e os “loucos” sejam massacrados e mortos em massa em nome da ordem e do progresso ensejam, na verdade, a bestialidade e a persecução de uma ideia de justiça completamente errônea e corrompida, a qual busca, pura e simplesmente, pagar o mal com o mal.

O que não é percebido pela maior parte das pessoas, infelizmente, é que executar aqueles que praticam crimes, sejam eles quais forem, é não só desumano e sádico como inútil, pois o que deve ser enxergado são as reais causas e circunstâncias que os levam a incorrer nesses ilícitos penais, pois, no fim, eles são tão vítimas quanto o restante da sociedade: eles, porque nascem e crescem em um ponto do sistema o qual o poder público insiste em fingir que não vê, ponto este em que os cidadãos são tratados como se não existissem, como se não importassem, como se não merecessem um tratamento digno e oportunidades; os demais, porque sofrem as consequências dos crimes por eles praticados, os quais se constituem, na realidade, de pedidos de socorro gerados a partir do desespero e da falta de esperanças decorrente, justamente, do estado de esquecimento em que nascem, crescem e, por fim, morrem. Isso acontece porque o Estado não tem interesse e sequer vontade de instruir e tratar com o devido respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana esses indivíduos, sendo muito mais proveitoso e confortável mantê-los marginalizados, bem como nutrindo na sociedade a concepção de que seriam eles os verdadeiros vilões e responsáveis pelo caos, jogando, por meio de uma mídia sensacionalista e tendenciosa, os “cidadãos de bem” contra os ditos “delinquentes”. É lançando mão desse ciclo vicioso e doente que se alcançam os desejados clamores pela pena de morte, tão lucrativa ao poder público.

Se o garoto do qual fala Elvis representa, justamente, essa parcela esquecida da população, à qual me referi no parágrafo anterior, John Coffey representa não só aqueles que, nos países em que a pena capital é permitida por lei, são mortos mesmo sem ter praticado o crime pelo qual foram acusados e sentenciados – em virtude de um sistema penal que, por ser operado por homens, é passível de erro -, mas, principalmente, a tragédia de uma sociedade que se encontra tão cega pela vingança e pelo ódio que não consegue mais ver sentido numa frase tão curta, tão simples e, ao mesmo tempo, tão essencial, deixada por outro homem que, assim como o garoto e John, foi morto como mártir, vítima da maldade, da mentira e do medo dos poderosos de que as massas lhes tirem o império: “Amai ao próximo como a ti mesmo”.


Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo.
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