entre a palavra e o mundo

Os detalhes mais importantes da vida estão guardados nas entrelinhas

Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo

Nada contra largar tudo por amor - desde que estejamos falando do próprio

Pois, como bem disse Oscar Wilde, "amar a si mesmo é o começo de um romance para toda a vida".


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Para alguns talvez seja imperceptível, mas vivemos em meio a uma grande epidemia de uma doença chamada Mal do Esquecimento Próprio. Já ouviram falar? Talvez não, mas aposto que já encontraram umas dezenas de conhecidos acometidos pelos sintomas da tal enfermidade – inclusive você mesmo. Inclusive eu. Inclusive seu vizinho do apartamento de baixo. Inclusive todo mundo.

Já vi todo o tipo de fenômeno decorrente desse distúrbio: choro prolongado; falta de apetite; palpitação; auto-anulação; auto-desprezo; imunidade baixa; histeria; desânimo... E eu fico aqui pensando: talvez esse surto seja, em partes, culpa do Cazuza.

“Por você eu largo tudo, vou mendigar, roubar, matar...”.

Poxa, Cazuza. Sou sua fã, mas nessa você foi realmente exagerado (com o perdão do trocadilho).

Quero dizer: longe de mim julgar os adeptos desse tipo de amor desmedido, incansável, desesperado, disposto a abrir mão do mundo pelo outro... Mas, vem cá: e por você? Do que você seria capaz de largar? Até que ponto esse sentimento que faz com que alguns não suportem se imaginar sozinhos é saudável? Vale mesmo à pena se privar da felicidade em virtude da ausência de um terceiro?

Se você me disser, com toda a sinceridade do mundo, que é feliz se esquecendo de si mesmo pra viver, integralmente, a sua vida para e por outra pessoa... Que Deus abençoe! Segue teu caminho, sem medo e sem vergonha, e continue fazendo aquilo que te satisfaz. Mas se você, lendo o texto até aqui, sentiu que está doente... Ah, eu tenho umas coisas pra te contar.

Primeiro: esquece, eu te imploro, aquela velha história da metade da laranja. Porque a laranja pode até ter uma metade, mas você não: você é gente, e você é gente inteira. Se você resolver passar a vida procurando a “tampa da sua panela” e não notar que você já veio com uma de fábrica... A hora que resolver tampá-la a pipoca já vai ter voado pelos ares.

Segundo: para com essa fobia de se enxergar como um indivíduo. Todos nós somos, meu amor. E olha a boa notícia: isso é natural e não há nada errado nessa lógica da natureza. “Mas eu nunca estou sozinho”, você pode pensar. E que bom que seja assim! É claro que é uma delícia estar rodeado por pessoas queridas, sem sombra de dúvidas (eu mesma sou viciada na companhia dos que amo). Mas sempre – eu disse sempre – existirão coisas que só nós poderemos fazer por nós mesmos. Lançando mão de uma metáfora bem simples pra me fazer entender: se você está com febre e vai ao hospital acompanhado, vai adiantar se derem a injeção no seu amigo? Não, é sua veia que vai ter de ser furada, porque a febre é sua. Bingo!

Terceiro: não, você não vai morrer. Eu e a torcida do Flamengo já fizemos muita cena nessa vida a fora por pensarmos que não resistiríamos nem algumas horas mais sem o outro. Aí a gente se joga no chão mesmo, chora, se descabela, diz que vai entrar em coma, acaba com o pote de sorvete, liga pra mãe, berra na janela, se imagina numa casa com 457 gatos aos 73 anos de idade... Mas passa. Eu prometo. Podem demorar uns dias, umas semanas, uns meses – e, nos piores casos, talvez até anos... Mas, em algum momento, você vai acordar, se olhar no espelho, se lembrar de todos os absurdos que chegou a imaginar, rir descontroladamente e pensar: meu Deus, olha o drama que eu fiz. E, de repente, vai abrir um sorrisão de novo, colocar aquele seu CD preferido pra tocar e dançar sozinho.

Quarto: ele(a) não é a última pessoa no mundo e nem tão extraordinário(a) quanto você pensa. Afinal, não é à toa que sua avó sempre te falou que “a beleza está nos olhos de quem vê”. É claro que não estou aqui pra dizer que fulano(a) não tem, realmente, todas as qualidades que você diz que ele(a) tem. Aliás, muito pelo contrário: eu acredito que tenha mesmo! Mas o Mal do Esquecimento Próprio não é fazer com que enxerguemos inúmeros atributos no ser amado, mas impedir que admitamos que ele tem defeitos, que não é perfeito e que, no fim, é gente como a gente. E pior: essa doença faz com que tenhamos a impressão, muitas vezes, de que ele é muita areia pro nosso caminhãozinho. Ora, tenha dó, coleguinha!

Aceite uma pequena – e valiosa – verdade: todos nós (incluindo eu, você, sua mãe, minha mãe e seu objeto de amor) temos qualidades, defeitos, virtudes e vícios. Todos erramos, acertamos, fazemos coisas que outros não gostam, temos dons que as pessoas admiram, temos características que aproximam e afastam terceiros... E a conclusão a que chegamos é bem simples: se não deu certo, não foi porque o outro é melhor, porque você não fez o suficiente, porque você não foi bom o bastante, mas sim porque seres humanos são criaturinhas extremamente complexas e, muitas vezes – talvez na maioria delas, essas complexidades simplesmente não encaixem. Ponto. Porque amor, se a gente for pensar bem, é loteria. E que loteria gostosa de jogar!

E, vem cá: não comece com a síndrome de Maria do Bairro e todo aquele dramalhão mexicano de “nunca mais vou abrir as portas do meu coração” ou “me recuso a me apaixonar novamente”. Sai pra lá com esse pessimismo barato! A vida é um exercício de tentativa e erro, uma sequência de acertos e cabeçadas e, no fim, convenhamos: é isso que faz dela tão linda, não é? Os ponteiros do relógio estão girando e, por favor, faça com que nenhum desses giros seja dado em vão. Então levanta desse sofá, lava essa cara, desliga esse computador e vai arriscar suas fichas por aí.

Mas, espera. Antes de você ir, quero te falar só mais uma coisa: você é lindo(a), incrível, único(a), inteiro(a) e não necessita de cara metade nenhuma pra se sentir completo(a) ou feliz (até mesmo porque, até onde eu sei, a sua cara está inteira, com todos os pedaços).

Largue tudo pelo seu amor próprio: seu medo, seu receio de ser quem é, sua baixa autoestima, sua mania de se rebaixar, sua síndrome de se importar demais com o que os outros pensam ou não a seu respeito, suas mágoas... E boa sorte! Se você encontrar aquela pessoa especial que vai chegar pra enriquecer o seu eu – já inteiro – com tudo de melhor que houver nessa vida, e que vai fazer você sentir que seria uma delícia passar o resto da vida inteirinha ao lado dela, e ela topar... Que maravilha!

Se você não encontrar... Quem disse que terminar sozinho numa casa com seus 457 gatos não pode te fazer feliz?


Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo.
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