entre a palavra e o mundo

Os detalhes mais importantes da vida estão guardados nas entrelinhas

Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo

Nós, as borboletas, e os escafandros da alma

“Agarre-se firmemente ao ser humano dentro de você, e você sobreviverá”


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Olhe em volta: há escafandros por toda parte. E quando digo escafandro, não faço alusão ao sentido literal da palavra, remetendo-me à vestimenta utilizada por mergulhadores. Não. Vou além. Quero falar-te sobre os pequenos dissabores diários experimentados por tantos de nós; sobre as palavras de desafeto que nos são, frequentemente, desferidas; sobre batalhas sangrentas as quais travamos dentro de nossos silêncios.

Quantas não foram as vezes em que nos sentimos, de alguma forma, aprisionados? E não me refiro ao longo espaço de tempo transcorrido desde o dia em que nascemos até hoje: indago-o quanto às últimas semanas, dias ou, até mesmo, horas. Quero dizer, já se permitiu refletir a respeito de sua liberdade? Ou se, de fato, nos permitimos usufruir de nosso livre arbítrio?

Jean-Dominique Bauby era um homem bem-sucedido que acabou por sofrer um súbito acidente vascular cerebral, infortúnio este que lhe trouxe uma triste e rara doença denominada síndrome do encarceramento, deixando-o completamente paralisado e capaz de movimentar apenas seu olho esquerdo.

O filme Le Scaphandre et le Papillon (traduzido como “O Escafandro e a Borboleta”), lançado em 2007 e dirigido por Julian Schnabel, fruto de uma adaptação do livro de mesmo nome, narra a vida de Jean-Dominique desde a tragédia, descrevendo a maneira como este superou, inacreditavelmente, as limitações trazidas pela síndrome: Jean, com uma técnica bastante curiosa de sinais, a qual consistia em soletrar palavras por meio de simples piscadas de olho, escreveu um livro, com o auxílio de uma enfermeira, sobre a experiência de sentir-se preso dentro de seu próprio corpo, terminando-o dias antes de falecer.

E nós? Como ficamos enquanto borboletas igualmente presas em nossos escafandros? Lanço mão da metáfora para me fazer entender: cada vez em que somos tolhidos de nosso direito de escolher, há uma prisão limitando nosso bater de asas. No simples fato de nos guiarmos pura e simplesmente pelas perspectivas e valores de outros em detrimento de nossas próprias convicções, deixamo-nos dominar por uma pesada estrutura de ferro que nos paralisa os impulsos, as paixões. Nos momentos em que nos permitimos abater pelas opiniões alheias, acovardando-nos diante de olhos os quais preocupam-se apenas em nos julgar incansavelmente, nosso voo é cruelmente interrompido, e restamos emperrados em uma redoma.

Pode ser que, felizmente, tenhamos o movimento de cada centímetro de nosso corpo, mas devemo-nos atentar às constantes agressões que nos tiram a dinâmica da alma. “O Escafandro e a Borboleta” e a emocionante história de superação com que esta obra-prima cinematográfica nos atinge as retinas vai muito além da trajetória de um homem acometido pela paraplegia: ela nos fala de transgressão de barreiras, sejam elas quais forem.

De certa forma, temos todos um Bauby dentro de nossos peitos: portanto, permita-se. À imagem e semelhança de um ser humano o qual teve a coragem de ignorar os efeitos funestos de uma doença que lhe tirou quase tudo que possuía, permita que a borboleta a qual reside em seu peito irrompa as balaustradas construídas pelo medo, pela covardia, pela dor e pelo trauma, partindo num voo livre e desprovido de amarras, rumo ao descobrimento e satisfação dos próprios anseios, vontades e motivações.

Se apenas um frágil olho esquerdo foi capaz de escrever uma história, nós, com nossos braços e peitos abertos, somos capazes de abraçar o mundo: o segredo reside em deixar de lado os escafandros.


Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo.
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