entre a palavra e o mundo

Os detalhes mais importantes da vida estão guardados nas entrelinhas

Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo

O BRILHO ETERNO DAS MENTES QUE SE PERMITEM RECORDAR

Assim como não há borboleta que não tenha de sair de um rijo casulo, não há amadurecimento que não se origine de duras lembranças.


Eternal Sunshine Of The Spotless Mind.jpgO que somos nós se não a bagagem resultante de experiências mal sucedidas? Ora, mas é claro: aprendemos mais com os erros que com os acertos. É raro que amadureçamos a partir de momentos felizes, já que estes não exigem esforço. Percebem? Se as coisas vão bem, nada precisa ser feito: não nos é exigido qualquer tipo de sacrifício ou reflexão acerca do que se passa, e permanecemos, simplesmente, deleitando-nos diante de nossa satisfação, condenados a uma inércia que nada acrescenta às nossas vidas.

Não pretendo, aqui, desenvolver uma espécie de “apologia ao sofrimento”, muito menos insinuar que a felicidade seja um estado de espírito desimportante. Minha reflexão, na verdade, vai no sentido de demonstrar a essencialidade da dor. A necessidade de, ao nos depararmos com problemas, termos discernimento suficiente para entendermos que eles existem, justamente, para serem não só solucionados, mas, principalmente, compreendidos.

No filme “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), dirigido por Michel Gondry e lançado em 2004, o personagem de Jim Carrey, Joel, após vivenciar uma desilusão amorosa com Clementine (Kate Winslet), decide submeter-se, num ato desesperado, a um tratamento experimental – tratamento este a que Clementine, inclusive, já havia se submetido -, por meio do qual seriam retiradas de sua memória todas as lembranças relacionadas à garota.

Parece sensato, sob algum ponto de vista, que nos decidamos, meramente, por fugir de nossos infortúnios? Aos olhos dos mais temerosos, talvez. Mas a vida não cede espaço aos espantadiços: ela pertence aos destemidos. Pertence aos que têm coragem de manter a lucidez diante das desventuras e de procurar, de forma sensata, o caminho mais acertado para atravessá-las. E quando digo “atravessar”, me refiro a um processo extremamente complexo de decadência e ascensão, no qual devemos nos permitir chegar ao que chamam de “fundo do poço” (não no sentido de martírio, mas de persecução do cerne do problema que nos afeta), a fim de que cavemos profundamente a sequência de equívocos que nos levaram àquela situação e, posteriormente, encontrar um modo de nos livrarmos do sofrimento e, especialmente, aprender a não cair nas mesmas armadilhas novamente.

A beleza de nossa experiência humana reside, justamente, no desenvolvimento de nossa capacidade de restabelecimento. E mais: ouso dizer que não só a beleza, como também o propósito. Uma vida sem erros é uma vida sem futuros acertos; uma vida sem lágrimas é uma vida sem posteriores sorrisos; uma vida sem angústia é uma vida sem horizonte de redenção. É preciso que caiamos primeiro, para aprendermos a levantar.

Joel acovardou-se diante de um golpe que nos é necessário vivenciar: o dos encontros que não funcionam, por motivos que extrapolam nossa vã compreensão. O segredo não está em forçar um esquecimento, tampouco em tão somente “virar a página”: o brilho eterno acha-se nas mentes que a viram tendo-a lido inteira, com a percepção madura de que toda e qualquer pessoa que passa por nossas vidas traz-nos algo único e ensina-nos coisas que nenhuma outra poderia ensinar-nos. Já dizia Vinícius de Moraes que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

Tornamo-nos quem somos graças às nossas lembranças, boas e ruins, e jamais devemos nos esquivar de qualquer delas. É preciso que saibamos nos reconstruir com os grãos deixados quando nossos castelos de areia desmoronam. Sábio era Guimarães Rosa, que sabia que “viver é um rasgar-se e remendar-se”.


Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo.
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