entre a palavra e o mundo

Os detalhes mais importantes da vida estão guardados nas entrelinhas

Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo

Mérito pra quem?

E, enquanto o manto do mérito nos cobre e aquece, outros morrem de frio.


mérito.jpg

Como diz o ditado popular, “pimenta nos olhos dos outros é refresco” – e, quando não é refresco, é, no mínimo, indiferente. Ou bobagem. Ou reclamação tola, dessas frente às quais damos de ombros. “Ora, não é para tanto!”, eles dizem.

E, em meio a esse cinismo nosso de cada dia, somos vendados com falácias que, de tão antigas e tão repetida e mecanicamente utilizadas, não nos permitem ver o óbvio, o inegável, o escancaradamente absurdo. Um “vai trabalhar, vadio!” aqui e outro “o trabalho enobrece o homem” ali, e nós vamos nos acostumando a ignorar injustiças sob o ardil da meritocracia, enquanto apontamos nossos dedos indiscriminadamente, sentados em nossas confortáveis cadeiras.

Imagine-se, então, uma simples corrida de carrinhos de mão, em que três competidores têm de atravessar pequeno trecho de terra até atingirem a linha de chegada, sendo que o primeiro a chegar, vence a brincadeira. Para a devida probidade do jogo, todos são igualmente submetidos às mesmas regras e condições: partem de trás de uma mesma linha tracejada no chão; utilizam-se de carrinhos idênticos; o trecho é inteiramente uniforme para os três, sem quaisquer desníveis ou irregularidades no solo que possam favorecer ou desfavorecer alguém e todos devem iniciar a corrida somente após o sinal de um apito. Honesto? Honestíssimo.

Entretanto, há alguns “detalhes” aos quais os idealizadores do jogo não se atentaram: os tênis que eles usavam nos pés eram da mesma qualidade? Todos se encontravam adequadamente vestidos? Os três se alimentaram antes de brincar? Estavam todos saudáveis física e psicologicamente para a gincana? A resposta era negativa. E, é claro, notou-se que um deles atingiu a linha de chegada com muito mais facilidade e vigor que os outros dois. No pódio, foi posto no topo, entre uivos de alegria e inúmeras felicitações, enquanto aqueles recebiam alguns apertos de mão acompanhados de “faltou apenas um pouquinho de esforço...”. E quando a corrida de carrinhos de mão é substituída por todo o caminho percorrido entre a escola e o futuro profissional?

É, de fato, mais fácil e confortável acreditar piamente que mera reforma na educação pública do Brasil seria capaz de transformar, sozinha, e no mais profundo aspecto, a estrutura social e econômica do país. É romântico, é agradável, traz-nos alento. Mas um passarinho, muito próximo a mim, me contou que, infelizmente, é mentira.

Que, quando ainda jovem, teve a oportunidade de, mesmo sendo pobre, estudar no colégio que os colegas ricos estudavam (na época, as escolas públicas ofereciam ensino muito superior ao que é oferecido hoje). Que tinha acesso às mesmas aulas, sentava nas mesmas carteiras, pisava sobre o mesmo chão. Mas que seus sapatos ou eram emprestados da irmã mais velha (e, por isso, ficavam grandes), ou eram tão antigos e gastos que tinham tachinhas pregadas na sola (e essas mesmas tachinhas enroscavam no assoalho de madeira da sala de aula). Que lhe faltava dinheiro para comprar lanche na cantina. Que seus pais, com muito esforço, compravam os livros didáticos, mas que não era possível comprar lápis, caneta, borracha, apontador, estojo, esquadro, régua e caderno. Que, muitas vezes, teve de andar por ruas de terra, embaixo de chuva, para chegar à escola, enquanto muitos amigos eram deixados de carro logo na porta. Que era esquecida de lado por ser pobre. Que morria de vergonha de sorrir para os colegas por conta de uma cárie enorme bem no dente da frente (e, tentando disfarçar, colava uma pequena bolinha de papel). Que não tinha ânimo para estudar, seja pelas necessidades que passava, seja pelas brigas que presenciava em casa.

Mas a hipocrisia chega a um nível tão estapafúrdio, que mesmo casos como o desse passarinho são razoavelmente tampados com a peneira: afinal, “você não assistiu na televisão a história daquela moça que era moradora de rua e, estudando por livros achados no lixo, virou Juíza?”. E é fácil mesmo cobrar heroísmo dos outros quando, por bênção dos céus, fomos agraciados com condições de vida que nos permitem chegar ao mesmo lugar com um terço do esforço, não é verdade? Claro que é.

É muito simples dizer que ovo frito com abobrinha todos os dias podem alimentar muito bem um ser humano enquanto mastigamos nosso pedaço de filé. É tranquilo falar, de dentro de nossos carros com ar condicionado, ser fácil andar a pé ou de bicicleta no calor ou na chuva. É descomplicado pronunciar, de uma macia poltrona de biblioteca, que se estuda do mesmo jeito pegando livros emprestados ou os achando em aterros sanitários. É confortável demonstrar que uma casa de pau a pique também cobre a cabeça quando se está numa linda residência.

É conveniente ter a prepotência de palestrar sobre como “vencer na vida” depende apenas de nós mesmos, de trabalho, de esforço e de estudo, quando se teve o mundo na palma das mãos. Quando se tinha comida na mesa, casa confortável, carro, boa escola, dinheiro, curso de inglês, intercâmbio, roupas legais e respaldo da família. Houve trabalho, esforço e estudo? Claro que houve. Mas a escada já estava encostada no armário para você alcançar o pote da prateleira mais alta: bastou a vontade de subir os degraus. E quando não há escada? “Pegue madeira, serrote e pregos e construa uma”, eles dizem. “Faça por merecer”, eles dizem.

Não é sobre mérito. É sobre oportunidades. A igualdade material, ao contrário da formal, não é a respeito de tratar a todos igualmente: é relativa a tratar os desiguais desigualmente, na medida de suas desigualdades.

Porque, como diz um outro ditado popular, “o buraco é mais embaixo”. E, enquanto o manto do mérito nos cobre e aquece, outros morrem de frio.


Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Dona Iaiá