entre a palavra e o mundo

Os detalhes mais importantes da vida estão guardados nas entrelinhas

Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo

Nós, os exagerados

"Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões" - Graciliano Ramos


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Dedico hoje estas breves e singelas palavras para manifestar-me pela liberdade dos que sentem em abundância. Nós, os descendentes de Raul Seixas, de Graciliano Ramos, de Kerouac, de Drummond, de Cazuza, de Leminski. Nós, os malucos beleza, os comovidos em excesso, os loucos, os exagerados.

Escrevo para hastear a bandeira em prol daqueles que se deixam emocionar, que se arrepiam em demasia, que fazem muito com pouco. Dos que não se privam de chorar em público ou de soltar a primeira gargalhada.

Eu, você, somos aqueles que, na contramão da moda do não-sentir, temos a coragem de, como a flor de Drummond que rompe o asfalto, rasgar o peito e exibir o coração em praça pública. E que mal tem em nos comovermos com quase tudo?

Subo agora na mesa e grito um viva aos que cresceram lendo Coração de Vidro, de José Mauro de Vasconcelos; aos que nunca deixaram de lado a oportunidade de um abraço por simples orgulho; aos que pedem desculpa primeiro. Aos que dão o braço a torcer em prol do pacifismo; que se deixam levar pelos impulsos; que param o carro pra olhar a lua; que aplaudem o pôr do sol; que não têm medo de dizer “eu te amo”; que não escondem sorrisos; que não negam quando estão felizes ou tristes. Dedico, neste momento, um brinde aos que não têm medo de parecer ridículos; que não guardam nada pra depois; que desconhecem a palavra vergonha; que dançam na rua; que abrem os braços pro mundo; que não se privam de errar; que têm brilho nos olhos; que não se impedem de tentar outra vez; que não têm receio de quebrar a cara.

Nós não nos importamos se parecem mais fortes aqueles que se mantêm alheios a tudo que se passa dentro de si mesmos. Não nos interessa que a atual palavra chave seja a frieza e que a maior parte das pessoas esteja mais preocupada em encenar personagens robóticos do que em mostrarem-se abertamente uns aos outros, com a transparência que a emoção exige. Não nos incomoda que nossas feições constantemente inflamadas destoem de tantos rostos de paisagem. Não nos abala o fato de que sejamos os loucos, sempre a expor tudo quanto sentimos, em meio a uma multidão de esfinges cheias de si.

Meu protesto hoje, enfim, ergue a voz e os braços pelo direito de viver intensamente a vida com tudo que ela traz. Porque nós, os hiperbólicos, os desbundados, sabemos que bonito mesmo é deixar-se abalar pelos pormenores; é reagir com espontaneidade às surpresas; é ser, com todos os detalhes e as delícias que isso carrega. Se sentir demais é um desajuste, pois que seja: nós somos os desajustados.


Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo.
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