entre a palavra e o mundo

Os detalhes mais importantes da vida estão guardados nas entrelinhas

Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo

Quem tem medo de chuva?

"Que sentimento glorioso/ Estou feliz novamente/ Estou rindo das nuvens/ Tão escuras lá em acima/ O sol está em meu coração/ E estou pronto para o amor"


Cantando na chuva 01.jpg

Quem já assistiu sabe: uma das cenas mais marcantes do cinema – de todos os tempos - é, sem dúvidas, Gene Kelly executando um sapateado invejável debaixo de um significativo pé d’água. “Cantando na Chuva” (Singin’ In The Rain, 1952) é um clássico da década de 50, encontrando-se em primeiro lugar na lista dos 25 maiores musicais americanos de todos os tempos. E o que seu personagem, Don Lockwood, a chuva e o sapateado têm a ver com a gente? Tudo.

Às vezes o tempo fecha, amigo(a). Eu sei. De vez em quando os raios, os trovões e a ventania são lá fora, mas e quando as nuvens carregadas se formam dentro do peito? Aí somos pegos de surpresa e não há guarda-chuva que nos poupe: é aquele aguaceiro, faz aquele frio, é chapéu que voa no chão, não temos tempo de fechar nossas janelas e sequer somos avisados que seria prudente levar “um casaquinho”. Quando percebemos, estamos aos frangalhos, com roupas encharcadas e pés afundados numa poça d’água. Mas o que nem sempre nos contam, meu(minha) caro(cara), é que um pouco de água, vento e trovão, às vezes, não matam nem fazem mal a ninguém.

Deixa eu te dizer uma coisa: da próxima vez que armar aquele temporal dentro de você, não chame o táxi e nem tente correr pra baixo do primeiro teto que achar, não! Abre a porta, sai descalço e coloca uns barquinhos de papel pra flutuar na correnteza. Escancara bem a boca, olha pra cima, põe a língua pra fora e sinta os pingos de água. Experimenta! A gente só tem medo do que não conhecemos, e só não conhecemos porque, toda a vez que vem, a gente foge. Sabia disso?

O bicho-papão gosta quando as crianças se escondem embaixo da cama, porque é aí que ele cresce, que ele ganha autoconfiança. Agora, se elas fizerem uma careta bem feia toda a vez que ele sair do guarda-roupas, a graça vai embora e ele nunca mais volta. Já ouviu aquele ditado que diz que felicidade sem plateia dura mais? Pois com a dor e o medo funciona ao contrário: eles adoram audiência. Se não tem, vão embora.

Já pensou se Don Lockwood se deixasse intimidar por uma chuvinha à toa? Não teria música. Não teria dança. Não teria sapateado. Não teria aquela que é, talvez, a cena mais graciosa do cinema.

E você? Quanta coisa não perde toda a vez que se acanha porque o medo dá as caras? Eu sei que pode ser difícil, que a chuva, às vezes, é forte demais, é fria em excesso, mas tente fazer dela solo fértil pro espetáculo cujo protagonista é – e só pode ser - você. Experimente ignorar que dói, que magoa, que tira o sossego, porque uma mesma chuva, dependendo de como se vê, pode ser dilúvio ou só um chuvisco. A gente, no fim, é quem escolhe.

Então, querido(a) amigo(a), aqui vai um conselho (de ouro): deixe seu guarda-chuva em casa, porque molhar faz bem.


Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo.
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