entre a palavra e o mundo

Os detalhes mais importantes da vida estão guardados nas entrelinhas

Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo

Um carpe diem aos distraídos

"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem, e o outro se chama amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente, viver." - Dalai Lama


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Das pequenas – e valiosas – lições que a vida já me deu, dessas que ela nos sussurra diariamente quase ao pé do ouvido, uma das que levo como ensinamento sagrado é: jamais, em hipótese alguma, deite-se para dormir sem ter feito, durante o dia, ao menos uma coisa que o tenha emocionado.

Pode parecer um pouco doloroso refletir sobre isso, mas, cá entre nós: realmente sabemos quantos dias ainda teremos o prazer de acordar pela manhã, abrir os olhos e nos deixar atingir pela luz do sol? Afinal, ao observarmos o girar dos ponteiros de um relógio qualquer – ato este a que estamos tão habituados -, encontramo-nos, na verdade, observando a vagarosa contagem regressiva para o termo final da vida. E o mais curioso: não só da nossa própria vida, mas, inevitavelmente, das vidas daqueles que amamos.

Se, de fato, todas as coisas que se encontram entre o céu e a Terra estão fadadas a acabar, pois que não deixemos, então, que se acabem sem antes as apreciarmos da maneira como devem ser apreciadas. Que afastemos de nós o “se”, o “devia”, o “teria”, e conjuguemos, com maior frequência, todos os nossos verbos no presente. Que, apesar de clichê, tenhamos em mente que não devemos deixar para depois o que pode – e deve – ser feito hoje.

Não postergue abraços; não adie beijos; não termine o dia sem pedir perdão; não se permita deixar de dizer palavras de afeto aos que te rodeiam; não procrastine sorrisos; não abra mão de fazer o que precisa fazer; não falte aos lugares onde deveria ir; não troque momentos presentes por preocupações futuras. Cada pedaço da vida – por menor que seja – que deixamos de viver com a sinceridade que devíamos, é uma rosa que cai, seca, sem a termos contemplado desabrochar.

Como bem transmite Donovan em música composta para o filme italiano “Irmão Sol, Irmã Lua” (“Brother Sun, Sister Moon”, 1972), o qual conta a história de São Francisco de Assis, muitas vezes não somos capazes de enxergar as maravilhas do mundo pelo simples fato de termos, infelizmente, a errônea ideia de que somos eternos, mergulhando-nos em inquietações vazias e desimportantes e preterindo coisas de fato vitais, mas que classificamos como meros detalhes:

“Brother sun, and sister moon

I seldon see them

Seldon hear your tune

Preocupied with selfish misery

Brother Wind, and sister air

Open my eyes

To visions pure and fair

That I may see

The glory around me”.

A rotina é traiçoeira: no ritmo acelerado em que a maior parte de nós vive, é fácil deixarmo-nos enganar pelas obrigações, pelos horários e pelo estresse diário, esquecendo-nos dos pormenores – aparentemente triviais – que, em verdade, são as coisas simples às quais deveríamos nos ater, e que acabam por escorregar entre os dedos de nossas mãos, como a areia do tempo. É como se perdêssemos a vista de um jardim inteiro por estarmos demasiadamente preocupados queixando-nos de uma pequena picada de inseto na ponta do dedo.

Que aprendamos, com urgência, esta singela lição da efemeridade da vida, tornando-nos capazes de vive-la com todas as suas delícias, a fim de que, em nosso último suspiro, possamos passar para o outro lado com a tranquilidade de quem sabe ter experimentado tudo quanto foi possível, pois, ao contrário do que disseram os Titãs, o acaso não “protege” os distraídos: ele apenas guia os desavisados por um caminho sem cor, sem vivência, fazendo as vezes dos que não souberam – ou não quiseram – ser senhores de seus próprios passos. Aproveite o dia!


Dona Iaiá

Caiçara de 21 anos, leitora assídua desde os 7, estudante de Direito na UNESP, apaixonada por literatura, cinema e música, Dona Iaiá é uma eterna sonhadora encontrando-se, constantemente, no espaço fascinante entre a palavra e o mundo.
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