entre a vida e a arte

Impressões de uma mente gravemente sã

Jéssica Bueno

Professora por amor ao mundo. Aspirante a escritora por amor a si mesma.

Como cultivamos o desamor?

Como poderiam dois jovens casados em nome do amor e contrários a tudo, deixar assim, tão depressa, o desamor se alojar em sua pequena casa? Úrsula e Arcadio provavelmente levaram para sua nova morada, o desamor, pendurado na calda do vestido da noiva, costurado por sua mãe.


A falta de amor não nasce em congressos ou em quarteis militares, também não nasce em guerras, a falta de amor nasce em casas. Pois são nelas que crescem homens e mulheres. E é nelas, pequenas ou imensas, antigas ou novas, que o desamor primeiro entra. A pergunta que fica é, como entrou? Será que a recebi sem perceber, enquanto pegava o jornal na porta, ainda meio sonolento? Ou será que entrou por uma janela entreaberta, em uma noite quente de verão... do que ela se alimenta? O que a damos de comer? Como se manifesta? Será que gosta de dançar, de festejos e vinho? Ou de ler a Bíblia e revirar quartos bagunçados atrás de velhos pecados?

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O maior romance do colombiano García Márquez é discutido em muitas perspectivas. A maioria delas deságua no drama das ditaduras latino-americanas, mas pouco se fala da falta de amor causadora dos conflitos quotidianos e das ditaduras familiares que se instituem no vilarejo de Macondo. Drama esse causado pela falta de amor que vai se instaurando paulatinamente desde o início da narrativa.

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Em Cem anos de solidão, o desamor de uma família nasce nos primeiros dias de casamento de dois apaixonados. O que soa absurdo, ou no mínimo irônico. Como poderiam dois jovens casados em nome do amor e contrários a tudo, deixar assim, tão depressa, o desamor se alojar em sua pequena casa? Úrsula e Arcadio provavelmente levaram para sua nova morada, o desamor, pendurado na calda do vestido da noiva, costurado por sua mãe.

Explico. Ou melhor, Gabo explica: “estavam ligados até a morte por um vínculo mais sólido que o amor: uma dor comum de consciência. Eram primos entre si. ” No caso dos Buendía, o desamor fora lapidado pela própria família dos noivos que sofriam com a iminência de que Úrsula desse a luz a iguanas, ou simplesmente, que seus filhos nascessem com rabo de porco, e que após tantos anos, as saudáveis famílias Iguarán e Buendía, seculares guardiãs dos bons costumes, se tornassem motivo de vergonha pública.

teral-goe-302507.jpg Por fim, Úrsula acaba não dando a luz a iguanas, mas o fantasma da culpa nunca deixou em paz o casal... e mesmo não sendo castigados por divina providência, com filhos metade humano metade besta, foram castigados pelo julgamento humano. Pariram filhos de aparência completamente saudáveis, mas com almas maculadas, praticamente estéreis para o amor. O castigo da família Buendía foi o mais humano que pudera ser, e garantiu cem anos da mais desumana solidão.

Não é por acaso que Cem Anos de Solidão é tido como o romance latino-americano mais importante do século XX e um marco da literatura mundial, não é à toa que é Prêmio Nobel de Literatura. Esse romance é aula de Psicologia, Psicanálise, Teologia, além de Política e História, e o mais importante, sem deixar de ser Literatura.


Jéssica Bueno

Professora por amor ao mundo. Aspirante a escritora por amor a si mesma. .
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