entre a vida e a arte

Impressões de uma mente gravemente sã

Jéssica Bueno

Professora por amor ao mundo. Aspirante a escritora por amor a si mesma.

Você respeita o que você ama?

Apesar de toda carga cultural de que são formados, seres humanos são acima de tudo, fruto da natureza. Nós modificaremos o meio em que vivemos, assim como seremos modificados por ele. A questão é, há limites para modificar aquilo que amo sem alterar a sua essência? Qual é esse limite?


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Apesar das mudanças constantes que sofre, o mundo é um lugar biologicamente ordenado. Entender a maneira como o mundo natural funciona é o primeiro passo para a compreensão e respeito pelo humano.

Ao iniciar esse texto, percebi que o início da construção desta reflexão data de alguns anos. Foi com o tempo e convivência diária com outras pessoas que me percebi culpada ao gritar com o meu companheiro, por exemplo. Acontecia também quando eu queria que alguém agisse de uma forma que a mim parecia mais agradável.

O problema era que geralmente depois de conseguir a façanha, vinha a frustração. Comecei a me questionar sobre o valor de ter as coisas feitas à minha maneira. Sim, porque não estou falando em um prato de comida, que devo escolher sobre colocar ou não pimenta, mas de outro ser, adulto, dotado de inteligência, sentimentos e desejos.

A primeira vez que conversei com outra pessoa sobre isso, foi à beira da praia. Acabávamos, eu e uma amiga, de conhecer um lugar realmente paradisíaco e ainda pouco explorado. De frente para aquela natureza explêndida, ela disse: imagine construir uma casa aqui, no meio desse lugar. A minha resposta veio de pronto e pode ter soado bem clichê: imagine se todas as pessoas que se apaixonassem por esse lugar, tivessem o direito de modificá-lo?

Agora, pense o mesmo em relação a uma pessoa, de carne e osso, um adulto, dotado de inteligência, sentimos e desejos. O fato de eu amá-lo, não seria o maior motivo para respeitá-lo e aceitá-lo à sua maneira, ao invés de querer construir minha cabaninha em cima dele?

Mesmo que você conviva com alguém por 30 anos, não a conhecerá completamente. Por quê? A resposta é simples, você já se pegou tomando atitudes avessas às suas certezas, sem entender direto o motivo? Imagine querer adentrar, compreender e controlar o mundo interior de outra pessoa. Difícil, né?

Essa dificuldade se dá porque a sutileza da natureza é muitas vezes maior que a dos sentidos e da compreensão. Francis Bacon disse que a natureza, para ser comandada, deve ser obedecida. Contraditório, não? Pois se para comandar a natureza, preciso primeiro obedecer as regras inerentes à ela.

Nós, seres humanos, apesar de toda carga cultural de que somos formados, somos acima de tudo, fruto da natureza. Nós modificaremos o meio em que vivemos, assim como seremos modificados por ele. Pensemos agora sob uma perspectiva ecológica: há limites para tais transformações, até que ponto posso modificar algo sem destruir a sua essência?

A resposta está em uma palavra: respeito. O respeito pelo outro é o limite. Tem sido libertador e pacificador pensar dessa maneira, porque antes de travar qualquer batalha em prol daquilo que me agrada, penso na natureza que há no Outro, e em quão justa, ou não, seria essa batalha. E aí quase sempre a encerro antes de iniciar.


Jéssica Bueno

Professora por amor ao mundo. Aspirante a escritora por amor a si mesma. .
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